Crônicas e Artigos

As noites e os dias

Moonassi

Ilustração: Moonassi

PERCORRO AS RUAS sozinho, sem me deter em face da solidão. A maioria dorme. Outros poucos estão bem acordados e atentos. São horas altas e decido prosseguir, vez ou outra arrastando a ponta do cotovelo nos muros ásperos das casas ancestrais, quando as calçadas se encurtam e o passo se torna dificultoso. Talvez o medo seja o maior fator de progresso íntimo. Talvez seja obsceno aceitar que isso seja uma realidade. Mas nada é mais fácil de constatar na noite densa do que a sua própria inevitabilidade, sendo a suspensão cogente dos dias a pausa rude e impositiva da vigília em meio aos planos tortos, imperfeitos e cheios de movimentos e desejos.

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ALGO QUE CHEGA com a noite, como uma brisa amena. O pensamento é invadido e povoado aos poucos pelas horas de um passado intenso, cheio de pequenos instantes de paixão e inquietude. As noites têm sido assim nesta cidade que avança em meio ao caos e à insegurança permanente, apesar de guardar no bisaco algum pedaço de fé. É que tudo se mistura na mente molhada das madrugadas insones. Tudo chega de novo e se instala, retornando das viagens aos mais pitorescos lugares do universo externo e da alma impregnada de um vinho velho e já saudoso, que deixa o seu sabor rolando na boca.

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DIANTE DA NOITE, envolvido por seu manto, há uma calmaria esperançosa, como se toda manhã viesse anunciar somente boas-novas. A simulação mental do porvir se torna, assim, não somente salutar, mas essencial e imperativa. É daí que se extrai o grande plano de voo da existência, os traços da vida toda, as cores e as tintas preparadas sobre a paleta para serem aplicadas à tela imensa que se coloca diante dos nossos olhos curiosos e perplexos, até porque a obra toda sempre sofre influências externas e – por que não dizer? – divinas.

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NO LADO NORTE da cidade há uma neblina leve. Percebo isso antes de entrar no elevador. Essa janela aberta me diz que existem diferenças entre os sonhos e os dias. E me diz que este dia é para cuidar e salvar, até que venha um mais azul e bonito, com um sol generoso e honesto. Não se deve descrer no porvir. Melhor edificar ilusões, utopias que valham a luta. Não deixar que o dia escorra pelas mãos sem a ação e o pensamento aliados. Melhor sonhar durante a vigília, para que nunca acordemos diante do abismo definitivo. Salvar o dia continua sendo a palavra de ordem. E palavra é tudo.

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Lívio Oliveira

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