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Livro reúne bate papo entre três escritores potiguares

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Fotografia de capa: Giovanni Sérgio

Noite de papo com os escritores potiguares Mario Ivo Cavalcanti (foto), Alex Nascimento e Woden Madruga no Festival Literário de Natal (FLIN), na próxima sexta-feira (16), a partir das 18h30 (Veja programação completa)

Eles já conversaram entre si várias vezes, mas nunca é demais reuni-los para um bate-papo, com cara de matéria literária.

Prova disso é que depois da mesa redonda, Mário Ivo estreia como editor e lança o livro Sexo, Estômago e Memória: uma noite com Alex Nascimento e Woden Madruga, ambos também jornalistas e escritores.

O livro é fruto de uma conversa dos escritores potiguares na casa de Alex, publicada na Revista Preá – à época editada por Mário Ivo. Revista e ampliada, a conversa virou livro.

Segundo o editor, a entrevista ficou “menos jornalística”, com a valorização de elementos estéticos, como fotografias dos autores em diferentes momentos.

Organizado em formato de diálogo, o livro reproduz o bate-papo entre os três escritores potiguares, que envolve os leitores em uma atmosfera relaxada, ao mesmo tempo rica em referências, experiências profissionais e boêmias.

O livro foi editado sem explicitar o autor da fala, a não ser por um recurso gráfico mantido em segredo (só folheando o livro para perceber).

mario-ivoEntrevista com Mario Ivo

O Substantivo Plural conversou com Mário Ivo sobre essa nova empreitada em sua vida, em busca de saber o que move a Livros de Papel e o que ele acha das editoras independentes.

SP – Livros de Papel é um nome sugestivo para uma editora. Você considera o produto livro algo ainda comercialmente viável?

Mário Ivo Cavalcanti – Sim. A questão dos livros é tão antiga quanto a Biblioteca de Alexandria, no Egito, que pegou fogo em 48 a. C. A Bíblia de Gutenberg, que marca o início da produção em massa dos livros, foi impressa há 560 anos. Ray Bradbury tem um romance bem conhecido, Fahrenheit 451, que trata de um regime totalitário que se manifesta impedindo a circulação de livros e tocando fogo neles – 451 é a temperatura em graus Fahrenheit da queima do papel. Então, enquanto a humanidade tiver algo a dizer, a palavra vai continuar existindo, e mesmo em tempos de internet e redes sociais, a palavra impressa sobre papel vai resistir. Agora, obviamente o cenário econômico nacional não é propício a nada. Não tá fácil pra ninguém. Mas a gente faz o que pode e o que sabe. E já tenho um trabalho de anos como editor de revistas e livros independentes. Abrir a editora é uma consequência natural disso.

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“Não ficava chato, não! Eu enfatizei o não porque quase todo bêbado fica chato; e Madruga, não. Eu olhava pra cara de Madruga e perguntava: ‘Quem vai deixar esse filho da puta em casa?’. Fotografia: Giovanni Sérgio

SP – A propósito, sua editora estreia com um livro de uma entrevista com Woden Madruga e Alex Nascimento, publicada na revista Preá, da qual você foi editor. Fale um pouco sobre esse livro.

Mário Ivo – A entrevista agora sai na íntegra e num formato, digamos, menos jornalístico, na forma de um diálogo entre nós três. Nesta nova reedição, eu, enquanto editor, privilegio o coloquialismo e a informalidade característicos de um bate-papo entre amigos, estilo “três perdidos numa noite suja”. Eu sempre gostei muito dessa entrevista, que foi realizada numa única noite que se estendeu até a madrugada, uma dessas coisas que saem ainda melhor do que o planejado. Quando Abimael Silva, do Sebo Vermelho, propôs resgatá-la, justamente pelo aspecto mais perene do livro do que a revista, eu imediatamente topei, porque era um trabalho que já estava quase todo pronto. Na verdade, eu tinha um projeto de lançar outros três livros ainda este ano, mas não deu.

SP – Quais livros?

Um livro gráfico de Afonso Martins, muito bom, que é uma série de releituras aquareladas em preto, branco e cinza, sobre ícones culturais das últimas décadas, tipo capas de discos, fotos famosas, personagens do mundo da música, do cinema. Uma nova seleção de crônicas de Vicente Serejo, que é sem dúvidas nosso maior cronista e que merece, também, escapar da efemeridade do papel-jornal. E um livro meu, uma novela, pra contrariar logo aquela história de casa de ferreiro, espeto de pau. Aliás, alguns destes, devemos prolongar essa parceria com o Sebo Vermelho.

SP – Hoje, o Rio Grande do Norte tem muitas editoras. Como fica essa questão da concorrência? Tem espaço para todo mundo? E qual o diferencial da Livros de Papel?

Tem muitas, realmente, não saberia dizer o número exato, mas com certeza entre quinze e vinte. Acho isso ótimo! Espero que o mercado se fortaleça e cresça ainda mais. Quanto à concorrência, cada livro é um produto único, e acho de bom augúrio já estrear numa parceria com Abimael. Coedições são favoráveis, ainda mais para enfrentar a tal da crise. Já entre os diferenciais da Livro de Papel, eu incluiria meu trabalho de editor, num sentido bem mais amplo de receber o trabalho de um autor e viabilizar serviços gráficos, de correção de texto e de publicação. Ser editor de alguém é opinar, sugerir, melhorar, sempre compreendendo e respeitando o trabalho original do autor, mas acima de tudo isso: identificar possíveis falhas e resolvê-las. Aliás, já na minha experiência prévia como editor uma das coisas que sempre me fascinaram é a de descobrir novos talentos, de romper com essa falsa ideia de que pessoas ‘normais’ não sabem escrever. Ora, todos nós temos algo a dizer, estamos sempre narrando histórias no dia-a-dia, basta esforço, dedicação e transpiração para por isso no papel. Não digo que é fácil, mas é bem menos difícil do que se imagina.

Trecho do ‘triálogo’ entre escritores potiguares

– Medalha de ouro pra Woden, porque era um ótimo bebedor. Eu vi Madruga melado umas duas vezes, nas duas mil em que a gente bebeu. Dois por mil dá zero vírgula dois por cento – é um saldo de gol filho da puta…

mario-ivo_convite-livros-de-papel– E nessas duas vezes?

– Não ficava chato, não! Eu enfatizei o não porque quase todo bêbado fica chato; e Madruga, não. Eu olhava pra cara de Madruga e perguntava – “Quem vai deixar esse filho da puta em casa?” [risos] Porque sempre tinha um carro faltando ou sobrando.

– Nos anos cinquenta, quando comecei no jornal, não existia essa campanha contra o fumo; era até elegante fumar. Você saía do cinema e acendia o cigarro, igual aos artistas de Hollywood… as mulheres faziam pose…

– Se fumava no cinema, nas redações.

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