O Lado B de Sgt. Pepper’s? Beach Boys e o álbum Smile

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A competição entre Beatles e Rolling Stones sempre foi vista como A Luta do Século pelo cinturão dos pesos-pesados do rock and roll.

Ao longo das últimas décadas, virou uma espécie de Muhammad Ali x George Foreman, com polêmicas, lutas antológicas, reviravoltas nas carreiras e genialidade pra todos os gostos.

Acredito que os Fab Four vençam no photo finish, enquanto Ali  é soberano.

Outros grandes confrontos, no entanto, marcaram época – com o objetivo sempre de nocautear Ali/Beatles.

No boxe, Joe Frazier e Sonny Liston enfrentaram o campeão em desafios com direito a filmes e livros sobre as lutas.

Dentre os escritos, cito O Rei do Mundo, de David Remnick (editor da revista New Yorker).

É a reconstrução perfeita do confronto que opôs o feio e mau Liston, um dos homens mais temidos dos ringues, e o belo e inteligente Cassius Clay – foram duas lutas entre 1964 e 1965, ambas com vitória de Clay.

A primeira foi a luta em que Ali virou o campeão peso-pesado mais jovem da história (22) – as apostas davam 7-1 para Sonny.

beach-boys-4Já no rock, para os americanos, Grateful Dead e The Beach Boys foram escolhidos para confrontar os ingleses invasores.

Enquanto a trupe de Jerry Garcia era a preferida apenas para adeptos da contracultura, o quinteto de Hawtorne, Califórnia, virou a verdadeira aposta.

Bastava John e Paul gritar “Are you ready?” no Velho Mundo, para Brian Wilson e Cia. fazer olho de lince e armar base para a trocação de bofete.

Para rivalizar com o iêiêiê, veio a festiva surf music, trilha sonora das praias ensolaradas da Costa Dourada californiana.

Se Rubber Soul chocou meio mundo em 1965, Pet Sounds, lançado meses depois, mostrou que psicodelia e experimentalismo fervia dos dois lados do Atlântico.

Em 1966, George Harrison desistiu de tocar ao vivo, o que forçou trabalhos mais elaborados dos Beatles em estúdio.

No mesmo período, os Beach Boys excursionavam sem Wilson, agora um líder enclausurado e viciado em drogas pesadas, em pleno auge criativo.

Quase uma empresa familiar, os Beach Boys apostavam alto – os irmãos Brian, Carl e Dennis formavam a trinca de Wilsons, completados pelo primo Mike Lowe e o amigo Al Jardine; posteriormente, como substituto ao vivo do comandante, Brian Johnson foi incorporado à formação clássica.

O grande choque estava marcado para 1967.

Brian Wilson aproveitou as novas tecnologias para gravar composições em módulos isolados, como fragmentos de uma peça única.

Foi com essa ideia que ele preparou Smile, descrito pelo próprio como uma ‘sinfonia adolescente para Deus’.

O sargento Pepper foi mais rápido

Mas ao ouvir Strawberry Fields Forever, durante uma viagem pela Califórnia, veio o nocaute:

“Eles chegaram primeiro”.

Era Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e um novo rumo no mundo da música.

sgt-peppers

“Eles chegaram primeiro”, disse Brian Wilson ao escutar Sgt. Pepper’s no rádio, durante viagem pela Califórnia; Smile já estava quase pronto

Aquilo abalou profundamente o atormentado Brian, que, envolto em depressão, paranoia, disputas contratuais com a Capitol e frustrado com a recusa dos companheiros quanto ao novo material, tido como delirante e anticomercial, arquivou o projeto.

Detalhe: o material estava 90% pronto!

O disco ficou encaixotado por longos 44 anos, até que, em 2011, Smile chegou às lojas em uma ação de marketing digna dos maiores álbuns da história.

Um sopro na orelha dos beatlemaníacos:

Será que Sgt. Peppers…seria tão revolucionário, caso a obra-prima dos Beach Boys aparecesse primeiro?

Quem escuta as 19 faixas do álbum anacrônico, levará essa dúvida para o caixão.

Aquela Revelação Sonora, em uma estrada californiana, apareceu ao mesmo tempo que Brian e banda tinham gravado as músicas; aprontado a arte da capa; marcado data de lançamento; e estourado um single.

As rádios tocavam Good Vibrations à exaustãopara a revista Rolling Stone, a sexta melhor canção de todos os tempos.

Lennon e McCartney enviaram carta parabenizando Wilson pela composição.

Sinfonia de brinquedos

O disco não é fácil.

Para os mais apressados, capaz de entrar por um ouvido e sair pelo outro, na primeira audição, diante da sofisticação de arranjos e melodias.

Nesse sentido, Sgt. Peppers é mais digerível.

Com forte apelo vocal, Brian Wilson manteve o doo-wop em alta, mas acrescentou densidade com o uso em larga escala de cravos, pianolas, violoncelos e instrumentos infantis.

Quase uma empresa familiar, os Beach Boys eram formados pelos irmãos Brian, Carl e Dennis, a trinca de Wilsons, completados pelo primo Mike Lowe e o amigo Al Jardine; para apresentações ao vivo, Brian Johnson foi incorporado à formação clássica. Fotografia: Guy Webster

Faixas como Holydays seriam inspiração para o Música de Brinquedo, do Patu Fu?

Impressionante a semelhança.

A coautoria das letras é do amigo de Brian, Van Dyke Parks (produtor e letrista de temas de Grace Kelly, Ringo Star, The Byrds, Ry Cooder).

Em busca de criar linearidade com a doidera dos arranjos, eles utilizaram uma então inédita dinâmica na gravação, com blocos musicais isolados, mixados como encaixes perfeitos.

Sabe aquela ‘viração’ feita pelos Beatles com Happiness Is a Warm Gun, cujas três partes eram temas isolados, pensados, compostos e pré-gravados de forma independente?

Rendeu uma das músicas de que mais gosto do repertório deles.

Pois o mesmo processo, consciente ou não, foi feito pelos Beach Boys em faixas de Smile.

Heroes and Villains é uma delas, com a melodia ‘contentinha’ sobreposta ao lirismo dos arranjos.

Esse meu ‘contentinha’, por sinal, motiva muitos detratores dos Beach Boys.

Quem danado procura somente felicidade na arte?

Também acredito no tormento como melhor matéria-prima.

Só que os garotos da praia estavam na Califórnia dos 60s, com pranchas, biquínis e marijuana pra todo lado.

Isso tudo em uma das fases de maior expansão da economia nacional em sua história.

Ou seja: paisagem inversa ao acinzentado britânico.

Daí que uma lista de belas canções salta de Smile.

Do you like worms?, Cabin Essense, Child is a Father of the Man, Surf’s Up e, claro, Good Vibrations, todas obrigam atenção redobrada com os Beach Boys.

Você pode começar já. Basta soltar o play aí embaixo.

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Comentários

4 comments

  1. Ruben G Nunes 8 outubro, 2016 at 14:27

    Porreta Conrado-velho! Porreta! Brau! Brau! Me diga uma coisa vc estava ontem-night na Trattoria Bela Napoli? Eu tava lá, avec, ouvindo o velho Manoel no piano, dedilhando flores enquanto os caboclos da sexta-de-pé-grande baixavam na uiskmeditation. Daí vi numa mesa longe um cara que achei parecido contigo. Mas como não te conheço ao vivo, só pela foto, não tive certeza. Abraço.
    Ruben G Nunes, desfilósofo, romancista e poeteiro

  2. Thiago Gonzaga
    thiago gonzaga 8 outubro, 2016 at 15:20

    Massa seu texto, Conrado.
    Eu gosto muito do Beach Boys. Muito interessante suas informações, nunca tinha parado pra pensar nisso.
    Um abração para o Ruben G Nunes, escritor de valor.

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