As biografias do polaco loco paca

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paulo-leminski-por-jboscoEste aqui é para você comprar ainda hoje, nas míseras livras de Natal.

Por seu carisma, genialidade, vanguardismo, Paulo Leminski, se tivesse nascido nos Estados Unidos, ganharia filme de um grande diretor, com Johnny Depp no papel principal, no mínimo.

Mas ele nasceu abaixo do Equador.

Mesmo assim, o curitibano filho de um polonês com uma negra, era um colosso criativo.

Dentre várias línguas, falava grego e latim (iniciado durante o ano que passou no mosteiro São Bento, em São Paulo), escreveu um dos romances mais originais da literatura nacional (Catatau), se firmou como um dos principais poetas brasileiros da segunda metade do século XX (Toda Poesia, sua obra poética em volume único, foi o livro nacional mais vendido de 2013), compôs músicas em parceria com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Os Novos Baianos (tomou LSD e fumou maconha com quase todos eles) e ainda era faixa preta de judô.

Quer mais?

Então leia Vida, conjunto de quatro pequenas biografias que nos ajudam a compreender o pensamento leminskiano.

Ele conseguiu misturar bom humor, erudição e raras observações sobre Cruz e Souza, Matsuó Bashô, Liev Trótski e Jesus Cristo, homens radicais que de uma forma ou outra forjaram o ‘polaco louco paca’, como se autoproclamava.

Personagens distintos, como o poeta simbolista, retratado em O Negro Branco.

“[…] um negrinho da senzala criado com todos os desvelos e sofisticações da casa grande”, que nas duas últimas décadas do século XIX impressionou o meio intelectual por ser um negro erudito em um país de analfabetos.

Ou o samurai japonês convertido em poeta, (A Lágrima do Peixe), que por volta de 1670, após virar ronin (samurai sem um senhor feudal para servir), passou os anos seguinte de sua vida em andanças pelo Japão, feito um hippie embrionário, cujo voto de pobreza e contato com a natureza serviu de inspiração para criar os haikais.

Bashô também foi monge budista e viveu até os 50 anos, quase na mesma época em que Shakespeare criava suas obras-primas na Europa.

Mas é com os dois personagens mais conhecidos que Leminski dá um ippon em quem duvida do que eu falei no começo, sobre ele ser uma figura única e universal.

Em Jesus a.C e Trótski – A Paixão segundo a revolução, somos fisgados por sua erudição, inteligência nos comentários que transformam as biografias em ensaios profundos, com sua capacidade de divertir o leitor e nos dar novas visões sobre os dois seres que participaram de momentos-chave da humanidade – sem grau de comparações, claro.

Seus apontamentos sobre as falhas dos Evangelhos, riquíssimos em historiografia e ranhuras culturais, revelam como o filho virou o próprio Deus – principalmente a partir de João, escrito mais de um século após a Crucificação.

Já a história do líder soviético, o mais intelectualizado da turma de Lênin, começa a ser contada por Leminski de forma arrebatadora:

“Se você quer entender a Rússia, não perca tempo lendo manuais de história. Comece logo lendo Os Irmãos Karamazov”.

paulo-leminski_capaAs quatro biografias foram publicadas em volume único apenas uma vez, na coleção Encanto Radical, em 1990, um ano após a morte de Leminski (de cirrose hepática, decorrente do alcoolismo).

Dizia ele que formava um grande projeto, que se chamaria Vida – título reaproveitado pela Companhia das Letras.

Da poesia de um negro estudado, em um país recém-saído da escravidão, e na de um samurai-zen e andarilho que percorreu a pé um país montanhoso e feudal para criar lirismo em breves poemas, Leminski extraiu a eloquência e o minimalismo que se encaixou em sua vasta cultura.

E dos líderes populares, a ideia de revolução pessoal, radicalidade, paixão por uma causa e auto exílio – ainda que parte de seus comentários políticos esteja congelado no tempo.

O maior interesse do poeta, filho de militar, ex-seminarista e católico convicto, era por qualquer coisa que tivesse ideias e poesia.

Vistos de perto, e para além dos dois poetas aqui recontados, era o que sobrava em Trótski e Jesus Cristo (ou, pelo menos, na história oficial).

Dono de uma mente privilegiada, Paulo Leminski consegue em 100, 120 páginas contar a essência de cada biografado, sempre com a flexibilidade e fluidez de um bom prosador.

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