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Blecaute: a poesia quer sair do esquecimento

Janicleia Gomes Pinheiro*

Foto: Ivanísio Ramos. Arquivo de Franklin Jorge.

Edgar Borges foi um poeta potiguar conhecido por sua excentricidade ao vestir-se. Nascido na década de 60, o poeta transitava entre sua casa, em Mãe Luiza, e o centro da cidade vendendo seus poemas ou fazendo pequenos bicos, o que o levou à morte em 1999, eletrocutado ao tentar consertar uma fiação elétrica numa casa em que prestava serviços.

Quase que uma ironia do destino seu apelido ser Blecaute, que significa apagão. Me faz lembrar a também “irônica” morte por afogamento de Zila Mamede, pois o mar era tema constante em seus escritos.

Blecaute, que também significa olvido, é “um poeta esquecido nas avenidas” como diz um dos seus poemas, embora esteja excluído de quase todas as antologias do RN, com ressalva para a antologia Geração Marginal, de J. Medeiros, é um verdadeiro ícone da poesia potiguar. Seus escritos publicados no livreto de sua autoria intitulado Duas Cabeças foram quase nada divulgados à época de lançamento, apesar do próprio ter reunido diversos amigos e distribuído cachaça e os livretos para todos em comemoração. Também não se encontra no acervo do seu amigo Abimael Silva, conhecido por possuir mais de 5 mil livros de autores potiguares. Inclusive, em conversa informal, Abimael, que estava em seu velório, me diz com a tez entristecida o quão triste foi enterrar o amigo querido.

Hoje, Edgar Borges é o nome da principal praça do bairro em que viveu, onde fora diversas vezes perseguido e abusado fisicamente e moralmente pela Polícia Militar por ser, pobre, negro, morador de periferia e por se vestir melhor que os senhores de dinheiro – nisso, eles se confundiam, se questionavam como ele, sendo tão pobre, conseguia se vestir com tanta exuberância.

No seu livreto Duas Cabeças, que é caracterizado pela estética modernista, desde a capa, feita com colagens, aos poemas, nos quais utiliza um linguajar coloquial, sem versos, sem seguir nenhuma métrica, típico do movimento marginal de sua época, é possível desembarcar numa cabeça, ou duas já que o poeta sofria de hebefrênia (tipo de esquizofrenia desenvolvida na adolescência), de alguém que sente todo o peso da subalternidade na pele.

A paz, palavra diversas vezes grafada em seus poemas, não lhe pertencia. Se sentia um marginal, no sentido literal da palavra, Natal lhe dava essa sensação, como disse ao então amigo, também escritor, Franklin Jorge, em entrevista encontrada no seu livro O spleen de Natal.
Cabeça e vida conturbadas que muito bem fundamentaram a sua criação poética e que casaram com a estética modernista que conseguiu passar toda essa carga. Embora para alguns críticos sua obra não possua nenhuma relevância, todo o seu livreto é carregado de uma poética da vida periférica e do desejo de “ser humano” com direitos; algo como a “escrevivência” de Conceição Evaristo.

Durante o tempo em que vivi em Mãe Luiza, do meu nascimento até os 18 anos, passava pela Praça Edgar Borges e me questionava quem deveria ter sido essa pessoa. Hoje, aos meus 23, tendo já a oportunidade de saber quem foi Blecaute e a importância dele para a cultura periférica de Natal, reitero o que ele disse em um de seus poemas: “enquanto pensarem que sou antônimo, direi em silêncio que sou sinônimo de mim mesmo”.

O livreto Duas cabeças está disponível no blog Poesia Subterrânea.

 

* Estudante do Curso Superior de Tecnologia em Produção Cultural do IFRN – Campus Natal Cidade Alta.

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