IV Noneco: breviário de um jornalista bêbado

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Primo bem próximo da Cannabis, o lúpulo em alta dose virou a nova mania dos cervejeiros artesanais, pelo aroma, amargor, sensação de relaxamento, sobretudo nas IPAs

O chiado na fala do motorista do Uber denotava origem fluminense.

Sujeito veio de longe, de uma região brasileira mais próspera, para labutar em Natal com um aplicativo de transporte privado, causador de quebra-quebra e discussão em toda cidade em que se instalou.

“Vou encerrar a corrida pra vocês”, disse o entroncado, com o dedo na tela do celular.

Era um tipo pronto para uma reportagem, bastava pedir o telefone e marcar a conversa.

Mas eu estava com a atividade cerebral a mil, neurônios em comunicação frenética, cientes de que receberiam, em questão de minutos, uma bateria de substâncias estimulantes.

De Candelária à Cervejaria Continental, o rolé custou R$17,88 – em pleno domingão.

Estávamos na Via Costeira para a quarta edição do Noneco, junção engraçada das siglas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste brasileiro que nomeia o encontro de cervejeiros caseiros dessas regiões.

Por 100 reais, você recebia um copo bonito e o direito de abrir qualquer uma das dezenas de torneiras espalhadas em estandes à beira-mar.

Ah, e dançar ou bater cabeça ao som das bandas Mobydick e Sfinge.

O evento foi organizado pela Acerva Potiguar, a Associação dos Cervejeiros Artesanais desta terra de queijos de coalho e manteiga e do filhós com mel.

Saiba você que as cervejas especiais, aquelas cuja receita usa os melhores e mais variados insumos possíveis, e respeita o tempo de cada etapa na manufatura, já representam 5% do mercado que ignora crise econômica.

E que o Rio Grande do Norte entrou de vez no circuito nacional com o início da legalização das cervejarias locais.

A Holanda, de Natal, e a Bacurim, de Mossoró, foram as primeiras – Raffe e Vadeka, ambas da capital, estão na iminência de conseguir a bendita autorização do Ministério da Agricultura (Mapa).

De volta ao IV Noneco, circulo em busca da cerveja inaugural, após catar sugestões de colegas especialistas. Fui na red ale com cravo e canela da Holanda.

Aquilo tudo era diante do Oceano Atlântico, Morro do Careca na moldura, três dias depois da seleção brasileira de futebol flertar com uma goleada na Argentina (3×0).

Confesso que até o Bon Jovi tocado pela banda me deixou feliz.

Tudo que é líquido desmancha no ar

Para determinadas profissões, ou melhor, em alguns momentos de determinadas profissões, um copo de cerveja é uma ferramenta de trabalho. No jornalismo então, das mais frutíferas.

A todo instante eu lembrava de Ernest Hemingway, defensor da máxima ‘produza bêbado e corrija sóbrio’, sem que meu alerta deixasse de disparar a cada copo entornado.

A infâmia pode surgir com facilidade, para quem está rodeado de IPAs, Viennas Lager (tomei a da produção coletiva da Acerva Potiguar) e Witbiers apimentadas. Uma dica de sobrevivência é se agarrar ao slogan batido: Beba menos e melhor.

Talvez seja essa a maior contribuição da cultura cervejeira: mostrar que a cerveja tem (1) alto grau de sofisticação, (2) harmoniza com qualquer alimento e (3) tem uma variedade de aromas, cores e sabores, como nenhuma outra bebida alcoólica.

Buscar compreender esses três pontos, e pesquisar sobre características de cada estilo e escola (de acordo com o país onde é fabricada), ajuda na desconstrução da ideia da ‘loira gelada’ só funcionar se for tomada aos montes – em contraponto aos ‘bons modos’ da turma do vinho.

Portanto, é possível usá-la com moderação – ainda que no método tentativa e erro.

“Um evento desse porte é extremamente importante porque divulga a nossa cultura e nos ajuda a ver o que está rolando, quais são as tendências de paladar e promove um reencontro com os amigos, com cervejeiros, para trocarmos informações. Isso é muito precioso. Mais do que a cerveja em si, tem o lado social do encontro”, disse Alysson Holanda, enquanto detalhava suas cervejas e a trabalheira para oficializar a empresa.

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FOTOGRAFIA: John Nascimento

Grandiosidade do Noneco

O domingo encerrou três dias de evento. Nos dois antecedentes, palestras e um concurso movimentou quem leva a coisa a sério. Os vencedores foram divulgados na festa, com ótimos resultados dos produtores potiguares.

“We chased our pleasures here…” (Nós perseguimos nossos prazeres aqui), nos disse Jim Morrison, quase 50 anos atrás. O trecho do clássico Break On Through, cantado com fervor pela banda Mobydick, parecia traduzir o instinto coletivo.

Todos atravessaram para o outro lado, um lugar mágico, sem desavenças, animosidade, cara feia ou inconveniências – algo tão raro, hoje em dia.

Ou você conhece muitos ambientes pacíficos em que a maioria das pessoas está alcoolizada? Se existe galera irmanada em propósitos, em uma paixão, é a dos cervejeiros caseiros.

Tanto que eu e Carol optamos por levar nosso pequeno Ernesto para tomar uma brisa marítima – e ver o pai avermelhar os olhos e tremelicar a voz.

Você tem uma boa prova do que foi a festa no Ensaio Fotográfico feito pelo nosso John Nascimento.

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Do Oriente Médio às tabernas medievais, cerveja perfaz história humana

A humanidade é cervejeira

“Eu estou aqui, primeiro, como admirador de cerveja, não como distribuidor. O negócio aqui é conhecer cervejas novas. A parte experimental é a mais importante”.

A fala é de Diego Salem, proprietário da Eufrates Cervejas Especiais, entendido como poucos na bebida fermentada mais consumida no mundo.

Cerca de dois anos atrás, ele me jogou uma questão definitiva, em relação à curiosidade que as cervejas despertam:

Como uma pessoa se conforma em tomar um único estilo, se existem centenas?

O encontro de cervejeiros de três regiões do país foi mais que uma mera festa animada. Ali funcionou a mostra de uma cultura.

Cultura essa que mistura ciência, arte e tecnologia, cujas descobertas e invenções definem nossa ideia de civilização.

Dizem que a cerveja surgiu na Mesopotâmia, no século VI a.C, de uma fermentação espontânea de um punhado de grãos de cevada esquecidos por alguém em um cesto ao ar livre. A água da chuva teria estimulado o processo.

Desde então, ela percorreu a história da humanidade. Como elemento gastronômico, explica com o prazer sensorial do paladar o que as guerras revelam com assombramento.

Encontro o amigo Carlos Barbosa Jr. Ele me leva até sua chopeira e enche meu copo com a cerveja feita com o sócio Gustavo Bittencourt, colunista ‘licenciado’ deste Substantivo Plural.

Capricho no gole e escuto que algo saiu errado naquela leva – programaram um estilo e saiu um indefinido.

A honestidade em apontar defeitos suplantou qualquer recusa em meu paladar. Tomei com gosto, sem encontrar as falhas destacadas por ele.

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Cervejaria Continental, Via Costeira, Natal (RN). FOTOGRAFIA: John Nascimento

Talvez aquela cerveja explicasse Barbosa – ou qualquer um de nós.

Na manhã do dia seguinte, cruzo com um vizinho de garagem que costuma chegar com umas cervejinhas nas compras. Falo do Noneco e ele dispara perguntas básicas – “Onde foi?”, “Quanto pagava?”, “Tinha cerveja boa?”.

À medida que eu respondia, sua feição sugeria encanto e decepção.

“Porra, e tu nem avisa?”, me enquadrou ao final.

Prometi que, no próximo, ele será o primeiro a saber.

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Comentários

6 comments

  1. Breno Machado 3 dezembro, 2016 at 09:38

    Excelente texto, confrade! Capturou o espírito do Noneco como poucos fariam.
    Obrigado por comprarem a causa da cultura cervejeira – que era nossa, e agora também é de vocês!

  2. Ruben G Nunes 3 dezembro, 2016 at 11:57

    Porreta Conrado-velho porreta!
    Ciência Arte Tecnologia – perfeito!
    Só faltou para compor a imagem Historica da Cultura da Cerva essa espuma prazerosa que flui da tua crônica – a Filosofia da Cerveja!
    Abraço fraterno desse uiskmeditar!
    Ruben G Nunes

  3. Conrado Carlos 5 dezembro, 2016 at 23:12

    Grande Breno! Somos fãs e acreditamos muito na cena cervejeira potiguar. O Noneco foi grandioso, festa pra impressionar quem veio de fora. Abraço!

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