Crônicas e ArtigosLiteratura

Cinco vezes Jornalismo Literário – Hiroshima, de Hersey

Writer John Hersey sitting at his desk w. pen in hand, in office at TIME.  (Photo by Time Life Pictures/Pix Inc./The LIFE Picture Collection/Getty Images)

Dos livros já lidos ao longo do ano, cinco obras do Jornalismo Literário (ou do Novo Jornalismo) chamaram mais a minha atenção que outras obras de outros nichos e gêneros literários. Clássicos de ontem e de hoje prenderam o meu tempo e notas com mais interesse, que resolvi compartilhar, neste Substantivo Plural, como sugestões de leitura. São comentários esparsos e ligeiros, que, originalmente, apreendidos em uma primeira e única leitura, foram publicados em um blog escondido nos subterrâneos da grande rede fora da qual, praticamente, hoje nada existe. Neste texto, sem qualquer pretensão que não seja o compartilhamento de impressões sobre obras-primas da história do jornalismo, chegamos a Hiroshima (1946/1985), de John Hersey.

***

hersey2Quando chegou a hora de ler o livro “Hiroshima” de John Hersey, aproveitei a viagem que fizemos a Recife/PE no início do ano, fui a Livraria Cultura do Cais da Alfandega e comprei a obra. Comecei a lê-lo ainda no hotel e já no prólogo, com a literatura de detalhes, o torrencial de imagens e o respeito aos personagens da História, percebe-se de imediato que Hiroshima não era apenas uma reportagem encomendada pela The New Yorker que usou uma edição inteira para publicá-la. Mas um documento cirúrgico sobre os estragos humanitários da Segunda Guerra, especificamente sobre as consequências da Bomba Atômica sobre Hiroshima. Nem tampouco, o que fomos constatando ao longo da leitura, não deveríamos ler esse trabalho de Hersey apenas como a obra que para muitos inaugura o novo jornalismo americano (ou o jornalismo literário ou a literatura de não ficção), o que não é pouco e por si só já justificaria o interesse. Antes de tudo, devemos ler Hiroshima como um testamento histórico da humanidade que, às 8h15 da manhã do dia 6 de agosto de 1945, fora reduzida a um estado de insignificância, com a destruição de uma cidade em sua quase totalidade física, psicológica, histórica, biológica e espiritual. (Aproximadamente, 100 mil pessoas foram mortas, sendo 25% por queimaduras, 50% por outras formas de ferimentos e 25% por consequências da radiação).

Nessa reportagem, que depois se transformou em livro, John Hersey reconstitui a catástrofe a partir de 6 (seis) sobreviventes (hibakusha), utilizando as trajetórias de cada um para contar as consequências humanitárias do lançamento da primeira bomba atômica sobre uma população civil:

A srta. Sasaki, que trabalhava como operária, estava sentada à mesa do departamento de pessoal da fábrica quando, ao voltar-se para falar com uma colega, sentiu um “clarão ofuscante encher a sala”. O Dr. Fujii, ao se acomodar em seu hospital para ler o jornal de Osaka, viu um “clarão que lhe pareceu de um amarelo intenso”. A sra. Nakamura, dona de casa, viúva e mãe de três crianças, observava o vizinho demolir sua casa quando um ”clarão de um branco intenso, de um branco que nunca tinha visto até então, iluminou todas as coisas”. O o padre alemão Kleinsorge que, ao deitar-se para ler a revista da sua congregação, observou o “terrível clarão” que, mais tarde, comparou com a “colisão de um meteoro imenso com a terra”. Já o Dr. Sasaki, que trabalhava na Cruz Vermelha, caminhava em um dos corredores do hospital quando sentiu o reflexo da explosão, como se fosse “um gigantesco flash fotográfico”. Por último, o reverendo Tanimoto retirava objetos de um carro de mão em frente a casa de um amigo, quando percebeu que um “imenso clarão partiu o céu de Hiroshima” parecendo um “naco de sol”.

Assim, Hersey nos coloca numa espécie de cápsula do tempo e nos transporta para o olho do furacão. Por meio de uma narrativa brutal, não condescendente ou sentimentalista, aproxima-nos de um cenário de horror, destruição e aniquilamento de qualquer dignidade humana. Daí, em um primeiro momento, imagens extremas aparecem à nossa frente – sem qualquer mediação, luvas ou tentativa de aplacar o impacto – à medida que a leitura avança: uma mãe que carrega por dias o cadáver do seu bebê em putrefação, um grupo de homens no bambuzal com as órbitas vazadas e as córneas derretidas sobre a face, rostos e braços transfigurados, corpos queimados e mutilados, cidade em chamas e coberta por uma nuvem de cinzas. (Em muitos aspectos, a ambiência, atmosfera e contexto de “fim dos tempos”, nessa primeira parte do livro de Hersey, lembra muito o romance futurista “A Estrada” (2006), de Cormac McCarthy).

Por outro lado, do momento em que as pessoas perceberam o clarão silencioso, passando pelo percurso de sobrevivência, ao período referente ao que aconteceu depois com suas vidas, John Hersey cria uma narrativa onde os personagens não são meras fontes / entrevistados. Em Hiroshima, sob a poética de Hersey, cada um dos personagens são sujeitos dos acontecimentos, da história, da reportagem (livro) que lemos. Quarenta anos depois, talvez sentindo que era necessário uma alternativa ao painel catastrófico que tinha configurado, Hersey procurou saber o que acontecera aos sobreviventes que se tornaram símbolos da catástrofe humanitária desenhada pela insensatez do homem.

À reportagem inicial, acrescentou os destinos de cada um deles, o percurso posterior trilhado quando “a vida voltou ao normal” e tiveram que enfrentar, além dos efeitos nocivos da radiação, a condição de hibakusha – alvo de discriminação, rejeição e preconceitos por parte da sociedade. Ao final, para além do nada, do caos e da dor, o que temos são histórias de superação, esperança e de vidas renovadas e, em 1985, a história de uma cidade que emergira como “uma vistosa fênix, extraordinariamente, linda”: com mais de 1 milhão de habitantes, de batalhadores e sibaritas… e com suas 753 livrarias.

Share:

Comentários

Leave a reply