Crônicas e Artigos

Cinco vezes Jornalismo Literário – Strange Fruit

david

Dos livros já lidos ao longo do ano, cinco obras do Jornalismo Literário (ou do Novo Jornalismo) chamaram minha atenção com mais força e encanto que outras obras de outros nichos e gêneros literários. Clássicos de ontem e de hoje prenderam mais o meu tempo e notas e, neste Substantivo Plural, resolvi compartilhar minhas impressões e sensações sobre cada um dos livros como sugestões de leitura para quem aprecia o bom e velho jornalismo tão em falta nestes tempos sombrios e tendenciosos. São comentários esparsos e ligeiros, que, originalmente, apreendidos em uma primeira e única leitura, que foram publicados em um blog escondido nos subterrâneos da grande rede fora da qual hoje, praticamente, nada existe.
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Strange Fruit – letra e música – é uma composição americana da década de 30 escrita por Abel Meeropol (com o pseudônimo Lewis Allan) e que faz alusão aos linchamentos públicos racistas que resultavam em corpos de negros dependurados em árvores e depois queimados sob a ovação de uma plateia histérica e irracional. Strange Fruit – a canção – foi consagrada por Billie Holiday no Café Society, em Nova York, e lançada num álbum homônimo, em 1939, ficando impregnada à voz da cantora de tal modo que, mesmo após outros gravarem e cantarem ao longo das décadas, a associação entre música e intérprete se tornou direta e inevitável por muitos anos. Strange Fruit – o livro – é uma reportagem feita por David Margolick que refaz a história da canção e de seu contexto histórico, a partir da percepção de artistas, produtores, jornalistas, biógrafos, especialistas e aficionados em jazz, blues e em música em geral – ora numa perspectiva intelectual analisando a música em si, o alcance do canto de Billie Holiday e o impacto sobre todo mundo, ora numa perspectiva emotiva revelando os sentimentos e a memorialística da primeira audição.

Abel Meeropol (ou Lewis Allan) – o compositor – levou tempo para provar e obter os lucros e reconhecimento sobre a música, pois, por mais de uma vez, Billie Holiday insistia que a composição era de sua autoria (ou, no mínimo, que tinha participado na coautoria). Para além disso, como fizera parte das lides esquerdistas americanas, Meeropol (ou Lewis Allan) precisou provar ao Comitê Anticomunista dos Estados Unidos que, apesar do teor da música, não havia qualquer relação com o Partido Comunista Americano. (Mas, como declarara posteriormente, apesar de não integrar a lista negra, Lewis foi daqueles que chegou a sentir “o bafo quente do despertar do fascismo”).

Billie Holiday – que elevou com sua interpretação Strange Fruit a condição de hino contra o racismo – talvez tenha sido a responsável por ter lançado a primeira canção – verdadeiramente – de protesto e, no campo da arte, impulsionado e dado o pontapé de forma direta para a luta pelos direitos civis. Para além disso, em diversos momentos, teve que enfrentar plateias que amavam, repudiavam ou hesitavam diante da canção. David Margolick – o jornalista – nos presenteia com uma obra de reportagem que transcende a música Strange Fruit em si. Para além de um livro de exegese musical, esse livro de Margolick traz à tona temas que dizem muito sobre os Estados Unidos do Século XX, abordando, paralelamente, a função social da música, relação público e canções, o lugar do negro na sociedade americana, racismo e luta pelos direitos civis, indústria da música e política, o contexto do anticomunismo na América daqueles tempos, memória afetiva em torno de canções etc.

Strange Fruit, ao mesmo tempo, amada e odiada pelo mainstream da esquerda, conhecida pela intelligentsia negra e desconhecida do negro comum, incorporada por uns na carne e apreciada com cautela por outros, foi sempre uma música tabu, como coloca David Margolick – seja quando descreve as vezes em que Billie Holiday e outros cantores/as hesitavam em cantá-la (sempre a depender do local, do contexto do público ou do estado emocional em que se encontravam), seja quando foi impedida de ser apresentada em casas de shows, programas de rádio e televisão ou em festas comuns. Strange Fruit – o livro e a canção – são imprescindíveis para quem, minimamente, tem interesse nos temas que colocam em questão e, claro, para quem tem interesse na história da música popular norte-americana. (Dos livros que tenho comigo e que formam uma mini-coleção sobre música, essa belíssima edição da Cosac Naify de “Strange Fruit” figura como uma das melhores leituras, ao lado de “Ao Vivo no Village Vanguard” (2006, de Max Gordon), “No Direction Homem – A Vida e a Música de Bob Dylan” (2011, de Robert Shelton) e “Os Sonhos não Envelhecem” (1996, de Márcio Borges).

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