Coisas de província

Manoel Onofre Jr.
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I – Hoje em dia, com as facilidades proporcionadas pela informática, todo mundo é escritor. Parece-me que o grande Umberto Eco já disse algo a este respeito.

Escreve-se a granel e publica-se por atacado. (Perdão, pelo trocadilho).

Antigamente, não era assim. As pessoas tinham uma espécie de pudor em relação ao que ousavam escrever. É bem verdade que houve um tempo em que o soneto virou praga. Não havia bacharel que não cometesse o seu, todo recheado de rimas fáceis – vergel com batel, taful com azul, etc. Mas, esses delitos de lesa arte restringiam-se a uma poesia que se prestava, quase sempre, apenas para adornar “artísticos” álbuns de família.

Hoje, a subliteratura tornou-se endêmica e descarada, ninguém mais se envergonha de fazer, em público, o seu strip-tease literário. Toda semana, realiza-se mais um lançamento de livro, regado a refrigerantes e fofocas.

Bom seria se, pelo menos, um livro em cada cinco, desses lançados, tivesse boa qualidade. (Refiro-me, é claro, a qualidade literária, pois em se tratando de qualidade gráfica, nossas editoras nada ficam a dever às melhores do eixo Rio/São Paulo).

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II – Todo escritor, assim como todo aprendiz de escritor, deve ser um rigoroso crítico de si mesmo. Deve engavetar a primeira versão do seu texto, conseguida no embalo da inspiração; algum tempo depois, reler tudo, com espírito extremamente crítico, fazendo os ajustes necessários, e só então, pensar na possibilidade de publicação.

A propósito, cito a seguir três depoimentos de escritores consagrados, excertos da coletânea “Como Escrevo?”, organizada por José Domingos de Brito (São Paulo: Novera Editora, 2006).

O romancista uruguaio Eduardo Galeano afirma:

“Costumo escrever e depois deixar de molho. Nunca publico em seguida. Vejo e revejo, leio e releio, refaço, corrijo. Nunca me conformo com a primeira versão.”

O chileno Antonio Skármeta esclarece:

“Sem a primeira versão espontânea, a obra careceria de vitalidade, mas sem a segunda versão, que é a da técnica, a obra careceria de qualidade.”

Outro não é o entendimento de Lygia Fagundes Telles:

“Escrevo de uma vez. Quando me vem, sai assim encaichoeiradamente, com muita paixão. Depois deixo dormir, deixo amadurecer como um fruto amadurece. Em seguida, eu volto, retomo. Esse seria como um trabalho de artesanato.”

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III – Um mal que grassa na vida literária provinciana: a autopromoção.

É de pasmar a desfaçatez com que alguns escribas, utilizando-se quase sempre das redes sociais, tecem loas a si mesmos. Os mais sabidos fingem-se de modestos – a vaidade fica nas entrelinhas – outros não hesitam em pavonear-se. Causam dó, mas, também, riso. São boas pessoas, não fazem mal a ninguém, senão a eles próprios.

IV- Não tem coisa mais provinciana e démodé do que prefácio. Há muito tempo, as grandes editoras nacionais deixaram de lado esse penduricalho inútil. Mas, em nossa província literaria há escritores, notadamente entre os estreantes, que não o dispensam de modo algum. Anseiam por um prefácio como um coxo por uma muleta. A bem dizer, estendem a mão e pedem:

– Um prefaciozinho pelo amor de Deus.

Estas palavras podem variar para:

-Tenha a honra de prefaciar meu livro.

Mas, em todo caso, é como se dissessem:

– Me elogie, por caridade.

Rachel de Queiroz, grande escritora, mulher que sabia das coisas, nunca escreveu um prefácio. Costumava dizer: “Todo prefácio é uma excrescência”.

Com efeito, se uma obra literária tem qualidades, impõe-se por si mesma, não precisa de apadrinhamento.

P.S.

Não confundir prefácio com ensaio introdutório. Este, às vezes, se faz necessário, quando se trata de uma obra em edição crítica e/ ou comemorativa, por exemplo.

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Manoel Onofre Jr.

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