AudiovisualCrônicas e Artigos

Como o povo é representado?

tirinha1

Uma tirinha tem circulado nas redes sociais e me lembrado do lugar que as classes populares sempre ocuparam no documentário brasileiro – na análise pertinente de Jean-Claude Bernardet no livro “Cineastas e Imagens do Povo” (1985). Como o povo aparece no cinema documental brasileiro? Como ele é representado? Quais abordagens são possíveis ser identificadas? Nesse livro basilar para os estudos e pesquisas na área, o ensaísta, roteirista, professor e ator Jean-Claude Bernardet coloca um espinho na garganta das abordagens pretensamente humanistas e sociais do documentário que se produz por estas terras de pindorama. Ao contrário do que pensavam e propunham, diversos filmes analisados colocavam o povo mais na condição de objeto do que de sujeitos dos processos históricos e dos contextos sociais que estão imersos. É uma perspectiva teórica que, mesmo que analise um recorte temporal específico, basicamente o documentário da década de 60-70, conseguiu perpassar as décadas e ser uma lente que nos permite olhar para os filmes documentários de hoje com toda a sua atualidade.

Mas o que aborda a tirinha que mencionamos anteriormente? De um lado, temos duas mães com seus filhos numa calçada a apontarem para um trabalhador de rua posicionado no lado oposto da via. O cenário reflete a rua de uma grande cidade, com placa de ônibus e famílias com vestes urbanas e cabelos bem arrumados. Com o mesmo pensamento e concepção classe média do mundo, na primeira situação narrativa, a mãe segurando a mão do seu filho, que a olha atento, mostra o trabalhador ao seu filhinho e o aconselha a estudar para não ser como “Ele”. Na segunda situação narrativa, a outra mãe com sua filhinha, também segurando na sua mão, aconselha-a para que estude para transformar e melhorar o mundo para “Ele”. Ambas, apontam para o distante trabalhador urbano, cuja rua como uma fronteira intransponível o separa daquelas pessoas.

Mas como é terrível a classe média!

Como no documentário brasileiro pretensamente político, a tirinha tem no “outro” sempre um objeto, a quem se deve rejeitar ou salvar. O outro é sempre uma marionete que precisa de terceiros para que o rejeitem ou lhe digam o que precisa ser feito para sair da ruína social em que se encontra. Nunca o outro é visto como sujeito que precisa ser reconhecido em suas possibilidades e valores, como agente do seu próprio processo histórico e desse labirinto político e social que o rejeita ou o afoga. Uma terceira margem precisa ser alcançada como proposta narrativa e contraponto a essa abordagem.

Talvez, ao contrário das produções que se pretende um certo vínculo com o politicamente correto, “O Prisioneiro da Grade de Ferro” (2004, de Paulo Sacramento) seja o documentário brasileiro contemporâneo que mais se distancie dessa visão que reduz o povo a condição de mera marionete. Nesse documentário, sem maior originalidade, mas inusitado para as produções presas aos modelos mais televisivos e corriqueiros do cinema documental que se vê por aí, o diretor Paulo Sacramento entrega câmeras a presidiários que filmam seu cotidiano e rotinas. As imagens que vemos são produtos das escolhas estéticas, dos enquadramentos e focos dos próprios personagens, que não mais tem microfones e perguntas redondas à sua frente, que aguardam respostas prontas e vitimização. Mas uma câmera no ombro e o visor a olhar à sua maneira para o mundo histórico. Eles nos trazem novos objetos e uma nova abordagem do mundo carcerário, bem diferente do que, em geral, apresentam os telejornais e o próprio documentário quando enfoca a vida de presos nas masmorras contemporâneas. (Mas, é verdade, o corte final dado pela montagem ficou à cargo do diretor).

O Cinema Direto

Em Nelson Freire (2004), João Moreira Salles tem uma sequência que é emblemática desse modo de olhar o outro. Incrustado na narrativa, como se o diretor quisesse nos mostrar o contraponto à perspectiva do cinema direto que estrutura o seu documentário, uma equipe de TV Francesa quer que o pianista brasileiro responda como convém ao repórter suas perguntas programadas. Sentados à beira de uma piscina de hotel, o repórter chega a repetir diversas vezes a mesma frase como quem a esperar que o personagem repita semelhante a sua pronúncia. O que é um contraponto perfeito, pois, como um corpo estranho, a sequência só reforça a organicidade entre personagens, propostas estéticas e modelos adotados por Moreira Salles … e qual deve ser o lugar do outro – com suas proprias perspevtivas de mundo, singularidsdes e valores – diante das narrativas e formas representativas.

Quanto de nós é parte dos personagens daquela tirinha?

Share:

Comentários

Leave a reply