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Como quem troca de roupa

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Ele não saiu para comprar cigarros, ir ali à farmácia ou qualquer coisa do gênero, e nunca mais foi visto. Na verdade, ninguém sabe muito bem quando ele sumira, até porque se passou muito tempo para que se chegasse a sentir sua falta — tempo mais do que suficiente para dar a impressão de que ele nunca mais seria lembrado. Foi um dia em que alguém, quase do nada, talvez por ter visto algo que lhe era familiar, perguntou se tinham notícia dele. Todos se olharam e notaram, surpresos, sua ausência; mas, como ninguém tinha uma resposta para o sumiço e muito menos a mais remota ideia do seu paradeiro, o assunto também se perdera entre outros mais recentes, como o jogo da noite anterior ou o novo plano do governo para combater a inflação. E, se nada ocorresse para alterar o ritmo normal da história, ele continuaria eternamente assim, sem que alguém tivesse sequer lembrança da sua existência — como a de um ancestral que, à medida que vão sumindo os descendentes mais próximos, vai sendo esquecido, até ter como único registro uma velha foto amarelada, dentro de algum compartimento empoeirado e também esquecido, onde jazem as fotos também amareladas da família.

A história mudou seu ritmo quando aquela mulher apareceu procurando por ele, que era seu pai, há muito desaparecido. Ela ainda era criança quando ele saiu para trabalhar e nunca mais voltou. Agora, recebeu uma informação de um conhecido da família de que o teriam visto por aqueles lados. Sim, ele vivera ali, mas ela chegou tarde. Já há tempos ele sumira. Disseram ainda que ele vivia com uma mulher, mas ela cansara de esperar notícias dele e foi embora, sem deixar pistas do seu destino. A filha também sabia o que era esperar: sua mãe aguardara a volta do marido por mais de vinte anos e morreu ainda na esperança de que um dia ele, do nada, aparecesse na porta — quem sabe trazendo o pacote de pão para o jantar, como ocorria todo santo dia.

Mas a filha também esperou pela volta do pai — e como esperou — não só por sentir sua falta, mas também por um certo sentimento de culpa. Criança, não entendia porque aquele pai tão afetuoso, que a enchia de carinhos e beijos, que passava na padaria para trazer o pão ainda quente, abandonou as duas, ela e a mãe, de um dia para outro. Talvez elas tivessem feito algo que ele não gostou e o fez sair de casa para sempre; talvez seja a culpa que mova sua busca por ele, embora, agora adulta, veja que esse sentimento já não faz tanto sentido. Uma vez soube da história de um homem muito rico que se suicidara e a família ficou desolada quando descobrira que nada ia mal nas empresas e nos negócios, que seu desencanto com a vida poderia vir de casa, da própria família. Não, ninguém é culpado, imagina ela, algumas pessoas apenas resolvem um dia sair de cena, ou se suicidando, ou, como seu pai, mudando de vida e de lugar, com a facilidade de quem muda de roupa. É isso: como quem muda de roupa. Uma roupa nova, uma nova vida e, o que é mais cruel, não importando o que acontece ao seu redor; se as pessoas vão ficar desesperadas com a sua ausência, com medo que algo de ruim lhe tenha acontecido, não saber se está vivo ou morto, se foi alvo de alguma violência. Não, não importa, é apenas e simplesmente como trocar de roupa. Uma roupa nova, uma nova vida.

Sem encontrar o pai, restava à filha apenas voltar para casa, para o marido e para seus próprios filhos; encerrar a busca e continuar sua vida, embora, no fundo, soubesse que a espera, como a busca, nunca para, mesmo sendo por um pai cruel o bastante para deixar uma garotinha triste e desolada com sua ausência. O problema é que sempre fica o vazio de algo que foi interrompido antes de completar o seu ciclo natural. A garotinha sempre estará lá, aguardando ansiosa a volta do pai amoroso com o pão ainda quente para o jantar.

A história da busca da filha pelo pai ainda foi motivo de muitas conversas. Durante um tempo, se especulou sobre o destino dele e as chances que a filha tinha de encontrá-lo. E, mais uma vez, o assunto começou a ser esquecido, entre tantas outras histórias novas e não tão tristes — não é segredo que as pessoas tendem a esquecer das experiências menos agradáveis. Até que alguém trouxe um cartaz desses de desaparecido. Surpresos, todos notaram que a foto do cartaz era daquela mulher que chegou ali procurando o pai sumido. Para o desespero do marido e dos filhos, um dia, ela trocou de roupa, saiu de casa e nunca mais foi vista.

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