Sobre Conversa na Catedral, de Vargas Llosa

Bruno Rebouças
ColunistasLiteratura
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Edição especial de 80 anos de Llosa

Santiago sai da La Crónica e olha ao redor.

O céu está tipicamente limenho, cor de pança de burro, como dizem os locais. Um cinza melancólico, sufocante e sem a liberdade das estrelas.

A atmosfera acinzentada é uma metáfora do Peru e dos oito anos de ditadura do general Manuel Apolinario Odría (1948-1956).

Carros, prédios desordenados, gente com as mãos nos bolsos dos casacos. O vento bate nos prédios, como o mar no malecón.

Jornalista mirafloriano, filho de empresário odriísta, ex-comunista revolucionário, Santiago Zavalita caminha.

Tal como o Peru, Santiago também se pergunta quando se ferrou de verdade. Porque tanto ele como o país estão ferrados.

Chega em casa e encontra sua esposa, Ana, aos prantos. Ela fala que homens truculentos arrebataram o cachorro Batuque de suas mãos, o colocaram no caminhão e o levaram para Deus sabe onde. O Peru vive uma crise de raiva.

Zavalita vai até o canil em busca do Batuque. É difícil encontrá-lo. Diz ser jornalista e tudo se resolve. Ser jornalista ainda é uma vantagem.

O cachorro está entre outros animais assustados e inocentes, que ainda não contraíram raiva, mas em breve serão incinerados.

Na porta do canil, Santiago avista um homem negro, alto, corpulento e serviçal. É Ambrosio, ex-chofer de don Fermín, pai de Santiago.

A emoção do encontro, o abraço, as lembranças. Santiago conclui que Ambrosio também está ferrado como todos no Peru.

Escolhem uma mesa no canto da parede de um bar de obreiros, cuja cerveja é gelada e a comida barata. O bar está cheio.

O local se chama La catedral. Começa a conversação.

Este foi o livro mais trabalhoso para Mario Vargas Llosa. Ao total, foram 10 anos de transpiração, por cidades e países diferentes. A obra reflete o cinismo da época e da família Zavalita.

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Lima, Peru

História política e social

O esquema do livro segue o padrão do Nobel de 2010, com três cenários: a casa do homem forte da ditadura, Cayo Bermúdez; a casa dos Zavalita; e, primeiro a faculdade onde estuda Santiago, depois a Crónica. Lima é um dos personagens.

Marcado por arbitrariedades das ditaduras, o regime de Odría aprofundou a tradicional corrupção sul-americana. Mesclado com a história política e social do país, Llosa revela personagens centrais em um texto labiríntico.

Para recriar os anos sombrios, a fórmula passa pelo golpe de estado, a resistência, os revolucionários socialistas e ideólogos vermelhos, os sindicatos e suas divisões pragmáticas, jovens universitários enamorados entre si e pela causa, debates dos membros da célula, o contragolpe que não veio, a greve geral sufocada.

Estudantes presos, tráfico de influência, a vergonha de Santiago de ter perdido a amada revolucionária para alguém mais comprometido com a causa, e a dor de não ter ficado preso com os camaradas, por influência do pai. As ilusões perdidas, o coração partido.

O jornalismo e suas duas versões: manipulador e redentor.

Em Conversa na Catedral (1969), Llosa se apresenta mais completo, ao fazer a cartografia das estruturas do poder e desvelar imagens mordazes da resistência, derrota e rebelião do indivíduo.

A fórmula que consagrou o autor surge sem mesmices, como o Lead jornalístico exercido pela maioria dos jornais brasileiros, Natal incluso.

Um jornalista boêmio, o que é redundante, com ilusões e ideologias perdidas, revive o passado com um amigo em uma conversa de bar (onde mais podia ser?); o abuso de poder, a luta pela democracia, um caso de amor frustrado e outro exitoso.

Sexo, orgias, mulheres esplendorosas e o erotismo dos movimentos. Diálogos milimétricos, entrecortados em duas, três, quatro conversas, em cenários e de personagens diferentes, já visto em Pantaleão e as visitadoras (1975).

vargas-llosa-3Coerência, intensidade e perfeição

Como ele disse na abertura de uma das edições de O estrangeiro, de Albert Camus, a vida que vivemos não é como as criadas pelas obras maestras da literatura.

Nem tão coerente, intensa e perfeita, nem escapa ao fatídico desgaste do tempo. Por isso precisamos da ficção.

“Pois ainda que seja um sonho e um prazer hipnótico da boa leitura, viver mais e ser outros, sem deixar de ser o que somos, e, submersos na ilusão, vislumbrar – por uns instantes de vertiginosa excitação – a quimera da imortalidade”.

É assim que somos conduzidos pelas páginas de Conversa na Catedral. Podemos ser o personagem invisível e onipresente, onisciente e onipotente que é o general Odría, assim como o Grande Irmão de Orwell e todos os ditadores.

Ou somos estudantes de San Marcos, ministros do governo ditatorial, ou somos o asqueroso e perigoso Cayo Bermúdez – e assim desfrutamos da sua belíssima amante, Hortência.

Ou somos don Fermín, elegante, influente, milionário, conservador mirafloriano, bem casado com um segredo escuso, beneficiado pelo governo, como o caso recente de jornalista-colunista social no RN, tratada de maneira magistral neste Substantivo.

A nossa vida não é tão fantástica como um romance, mas eles nos fazem eternos por alguns momentos e podemos ser quem queremos, sem deixar de ser nós mesmos.

No final, somos todos Santiago, com as mesmas frustrações, delírios, medos e covardias. E somos Ambrosio, serviçal, sonhador sem ilusão, conformado e abstraído.

Ambrosio e Santiago se complementam (e se opõem) pela memória de ambos que se juntam aos fatos para nós desconhecidos. A cada cerveja na catedral, nós estamos ali, sentados, bebendo e ouvindo o ruído do bar e a história diante de nossos olhos.

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“Em Conversa na Catedral (1969), Llosa se apresenta mais completo, ao fazer a cartografia das estruturas do poder e desvelar imagens mordazes da resistência, derrota e rebelião do indivíduo”

Qual eu salvaria da fogueira?

Existe, a partir de agora, duas grandes brigas literárias dentro de mim.

A primeira referente a Gabriel García Márquez com Cem anos de solidão e O outono do patriarca; a segunda referente a Vargas Llosa, com Conversa na catedral e A cidade e os cachorros.

Embora eu ainda prefira A cidade…, Conversa…é mais completo.

Se eu tivesse que escolher entre um dos dois manteria minha opinião anterior a leitura deste: A cidade e os cachorros é o melhor livro de Vargas Llosa.

Mas fico em dúvida assim como quando tenho que decidi o melhor de García Márquez ou entre Madrid e Barcelona – embora já tenha escolhido Madrid, o “mas” ainda segue.

Porém, há que se concluir que os dois são geniais. Se tivesse que salvar um só, escolheria como o autor e livraria Conversa na Catedral, por considerar que nele temos o Mario Vargas Llosa mais completo, com todas as características de sua vasta obra.

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Bruno Rebouças

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