Da Cidade da Criança, Yrahn Barreto e um Mirabô cansado de tentar

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Uma única visita à Cidade da Criança na década de 80 e uma aura de sonho permeou minha mente por umas três décadas. Era criança e a sensação de um parque infinito, com tantos equipamentos impossíveis de se brincar em uma tarde e uma lagoa imensa com pedalinhos parecia mesmo invenção da minha cabeça. Mas no sonho infantil também estavam meus pais sentados em uma cadeira de praça de olho na minha euforia. E isso me traz de volta à realidade da cena.

A Cidade da Criança tem esse poder de reviver o passado em tantos outros na faixa dos 40 ou quase. Por 30 anos passou esquecida, lembrada apenas nas recordações. Reaberta há três anos, atrai as crianças de ontem com suas crianças de hoje. E lá estão a lagoa e os pedalinhos – marca emblemática do lugar. O parque não é tão sortido quanto antes. Mesmo porque hoje há outras formas de interação infantil, como contação de histórias, atividades lúdicas, culturais, etc.

O equipamento está bem cuidado nos vários aspectos: jardinagem, pintura, manutenção e movimentação cultural. Mas, por que não se vê tanta gente quanto nos domingos do Parque das Dunas – outro espaço com proposta semelhante de aglutinar famílias para momentos de lazer, caminhadas e cultura? A resposta está escancarada: falta um projeto cultural fixo, específico para ocupar o anfiteatro, coincidentemente também semelhante ao do Parque das Dunas.

Acredito que o projeto dominical Som da Mata foi o responsável pela ocupação sistemática do então Bosque dos Namorados. Mais recentemente, o Bosque Encena tem atraído os pais com suas crias nas manhãs de domingo. E assim as pessoas passam a conhecer o lugar e a frequentar em dias da semana.

Acho que a Cidade da Criança pode copiar esse modelo com a criação de um projeto semanal aos sábados, não necessariamente de música instrumental ou teatro infantil, claro. Mas uma proposta igualmente atrativa, com dia e hora agendados para que o público se programe, para que haja também uma divulgação sistemática do projeto e, consequentemente, vire uma marca conhecida.

Sem atração fixa com proposta costumeira, a programação semanal depende muito do exercício nem sempre frutífero da divulgação ou do gosto do público para determinada apresentação. Esse fim de semana, por exemplo, tivemos um domingo recheado de atrativos motivados pelo Setembro Cidadão, e com show musical de alta qualidade. Mas pouca gente compareceu, apesar da ótima divulgação. Por quê?

Para explicar podemos recair na velha máxima de que o público natalense não prestigia seus artistas. Mas por que o Som da Mata, via de regra, está lotado? Porque virou costume! Se o excelente show de Yrahn Barreto (Ao Gosto dos Anjos) apresentado domingo na Cidade da Criança pertencesse a um projeto cultural promovido semanalmente, o público iria porque, conhecesse ou não a música de Yrahn, saberia que naquele sábado o tal projeto iria oferecer um bom show.

Acredito que a maioria das atrações do Som da Mata são meros desconhecidos do grande público, mas esse público sempre está lá para ver um show de qualidade. E de música instrumental, o que teoricamente afastaria ainda mais um gosto influenciado pela mídia massiva (rádio e TV). Mas seja instrumental, seja de artista desconhecido, há a certeza de um lugar arborizado, aprazível e de músicos de excelente qualidade. E lá está uma anfiteatro lotado.

E esse mix se vê na Cidade da Criança. Domingo foi um exemplo com Yrahn, compositor nato, já experiente apesar de jovem. Este ano, acredito, tenha aparecido um pouco mais na mídia, talvez pelo lançamento do ótimo disco e do show Ao Gosto dos Anjos. Ele estava ali, de graça, palco pertinho da pouca plateia, também presente para assistir ao show da cantora mirim Bia Vilar.

Sorte de quem pode ouvir a parceria do virtuoso guitarrista Jubileu com Yrahn, que embalou muitos palcos do Perfume de Gardênia. Ou ainda um Mirabô de volta ao microfone. E só podia partir dele o lamento da falta de público. “Se fossem aquelas pessoas pedindo bracinho levantado e que gostam de ralar a bunda no chão, estava lotado. Mas a gente tem que ralar é aqui”. E umas cinco ou seis aplausos para o dito verdadeiro.

Mirabô sempre foi meio desacreditado da cena musical da cidade. Tinha suas razões. Há uma mudança em curso. A cena independente, notoriamente mais rejeitada pelo público desde o início da indústria fonográfica, tem ganhado espaço. Mas Mirabô está de cabelos brancos, amigo. Cansou de tentar para assistir um resultado ainda no fim de uma estrada longa. E ontem cantou/tocou para um pequeno público. Cantou uma MPB tão nossa, de mares potiguares e com a mesma voz suave. Um luxo para poucos! (frase ambivalente).

Então, vamos pensar em um projeto semanal para um embalo de sábado à tarde? Que tal um espaço aos talentos infantis da cidade nas manhãs de sábado? Que tal a volta do Poticanto nos sábados à tarde? Que venham outras ideias, mas que se preencha o equipamento com uma proposta atrativa e fixa.

E vale a ressalva: os projetos encampados pelo produtor Marcos Sá, no Parque das Dunas, são financiados via leis de incentivo cultural. Então, a iniciativa deve partir da diretoria da Fundação José Augusto ou mesmo um produtor interessado em ocupar o espaço com um bom projeto. A responsável pela programação cultural da Cidade da Criança, Áglia Revorêdo, tem feito ótimo trabalho e, com esforço, tem viabilizado as atividades. Agora vamos esperar mais de quem pode mais.

A Cidade da Criança, Yrahn, Mirabô, estão ótimos. Mas podem mais e merecem mais!

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Comentários

1 comment

  1. Marcos Sá de Paula 15 setembro, 2016 at 13:44

    Marcos Sá de Paula Valeu os elogios, Sergio. A gente se esforça. Quando, há 10 anos atrás, falamos que o Som da Mata seria um projeto de música instrumental muita gente falou que estávamos fadados ao fracasso. Temos que acreditar nos nossos projetos e mostrar que temos sim produtos de qualidade na cidade que merecem ser mostrados.

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