Geral

Da crônica policial

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Sempre existiu violência no Seridó, mas, por longas boas décadas, podíamos andar, conversar, visitar pessoas a qualquer hora do dia ou da noite porque, em regra, o perigo estava – mais ou menos – circunscrito a determinados lugares ou a específicos problemas (rixa familiar, briga por terras, desavenças na rua do cabaré velho, vinganças, etc.). Infelizmente, nos dias de hoje, a violência está onde menos se espera. Cresceu demais, assusta, danifica, maltrata.

jornalAntes, uma notícia sobre um crime, abalava o chão do Seridó que a gente ama. Hoje, as notícias são tão abundantes que existem programas de Rádio e páginas na internet especializadas na divulgação de crimes e contravenções. Chegam e rapidamente já são substituídas por outras mais. Infelizmente, os fatos existem e, realmente, todos querem saber. No passado, os fatos também existiam, mas eram raros.

Catando episódios nas páginas da história encontrei alguns registros interessantes. O primeiro, do início de Serra Negra do Norte, berço de muitas tradições, foi contada pelo Professor Vergniaud Lamartine Monteiro. Refere-se a um crime feito pela bravura de uma moça em defesa de sua honra. Por volta de 1680, no leito superior do Rio Espinharas, Sebastião de Oliveira Ledo instalou uma grande fazenda para criar gado bovino. Morava com ele uma filha de apelido Mocinha, um outro filho e o pessoal do serviço de apoio doméstico. Por perto, segundo Vergniaud, residia “um déspota fidalgo português de nome ou sobrenome Ortiz” que quis seduzir Mocinha aproveitando uma oportunidade quando a encontrou em casa apenas com uma criada. A jovem, sem demonstrar aspereza, pediu apenas para preparar o quarto e em ato contínuo ele entraria… “Ortiz não vacilou”. Entrou e, descerrando a porta, encontrou-a despida. “Ia devorá-la na sua fúria bestial sem mesmo sentir e ver que ela estava armada, quando recebeu sobre o coração um tiro mortal.”

Já Olavo de Medeiros Filho, no clássico “Velhas Famílias do Seridó”, noticiou um outro caso de bravura. Conta que Dona Maria da Conceição de Mendonça, esposa de Tomaz de Araújo Pereira, moradora nos Picos de Baixo, lá pelas bandas do Acari de nossas raízes, entre os anos de 1753 e 1755, foi visitar uma filha em uma propriedade próxima. Ao retornar, caminhando pelas margens do rio Acauã, em companhia de uma filha e uma escrava, viu surgir um homem negro, “asselvajado, completamente despido, com gestos rancorosos, pretendendo satisfazer seus instintos bestiais”. Dona Maria trazia consigo um espadagão e pôs-se a frente do grupo… “Depois de muito tempo, o negro, que durante a luta dava pulos horríveis, foi finalmente atingido no baixo ventre, caindo por terra com grandes gemidos. Extenuadas, as mulheres conseguiram chegar aos Picos de Baixo, onde narraram o acontecimento. Reuniram-se vaqueiros e escravos da fazenda, rumando ao local da luta.” Encontraram o homem pelo sangue derramado nas veredas da caatinga e sacrificaram o agressor.

Outras notícias de brigas, rixas e enfrentamentos são vistas nas leituras do passado. O “Seridoense” em 1928 noticiava, por exemplo, a ameaça do cangaço. Nada, contudo, que se compare a pandemia de atualmente… No jornal O POVO, também pesquisado por Olavo de Medeiros Filho, uma notícia levanta saudades de um tempo que ocorriam poucas prisões durante o ano e a gatunagem não tinha sindicato: 13 de abril de 1889 – “Gravíssimo. Depois de composto o noticiário deste número soubemos que o Delegado de polícia havia mandado pôr em liberdade o gatuno João Trindade. É exato. João Trindade, que, após o último crime, foi seguido e alcançado a 8 léguas, onde foi preso, sem o menor constrangimento, confessou ser esta a 3ª. vez (quando é a 8ª.) que rouba os Srs. Meira, a quem apresentou diversos objetos roubados, está em liberdade! Ninguém tem mais garantias neste termo. É o terceiro ladrão, apanhado em flagrante, que se solta, em menos de um ano. O povo está muito indignado com o ato do delegado, ato que não pode merecer os nossos aplausos, e do qual, com a franqueza que temos, nos ocuparemos no número seguinte. Justiça! Justiça!”

Outras mais notas e notícias estão espalhadas na crônica policial de antigamente. De certo, mesmo sendo muito presente a justiça pelas mãos privadas, o que não deve ser estimulado, os limites morais e a sobriedade de consumo e hábitos modelavam uma sociedade mais pacífica, algo que precisamos recuperar o quanto antes!

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Fernando Antonio Bezerra

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