De volta aos clássicos – Bunny Lake Desapareceu

Marcos Aurélio Felipe
AudiovisualDestaque

Bunny Lake desapareceu (1965), de Otto Preminger, é um filme para ser visto no cinema, sobretudo em função das perdas sensoriais, físicas e mágicas do formato scope e da composição permitida por aquele preto e branco que modula a imagem em suas várias texturas e luminosidades – se, por acaso, for outra a tela onde sejam projetadas .

Elementos neste filme de Otto Preminger que são incomparáveis, quanto aos paradoxos de composição e representação que encerram. Sob um primeiro olhar, Bunny Lake desapareceu lembra bastante Vidas Amargas (1955), de Elia Kazan; e Rebecca (1940), de Alfred Hitchcock. Em relação ao primeiro, pelo uso do formato em scope, preponderantemente, em lugares, espaços e ambientes fechados (casa de Steven Lake – interpretado por Keir Dullea; apartamento de Annie Lake – personagem de Carol Lynley; hospital, escola, pub etc.). Somente em um e em outro momento, a janela em scope capta a abrangência do mundo, ao focar espaços abertos, quando, por exemplo, registra o pátio da casa de Steven (logo que abre o filme e o vemos pegar do chão o ursinho de pelúcia; e, no final, quando os irmãos Lake brincam nesse mesmo pátio de cabra-cega, esconde e esconde e de outras brincadeiras localizadas na memória mágica da infância).

Em relação ao Hitchcock, pelo uso da personagem ausente e, consequentemente, o trabalho com a não-imagem dentro da imagem, a moldarem toda a obra, o comportamento e ações dos personagens, a natureza do universo imagético que Otto Preminger imprime em todas as suas dimensões. Trata-se, neste caso, da criança desaparecida (Bunny Lake, que dá título ao filme), que é filha da jovem Annie Lake que, ao longo da obra, é procurada pela mãe, tio e policiais ingleses. Como Rebecca, que curiosamente também dá título ao filme e a “personagem central”, a menina Bunny que nunca aparece (mas não tão radicalmente como em Hitchcock) se transforma no verdadeiro contracampo do que vemos, do que suspeitamos ver e do que aparece aos nossos olhos e percepções frágeis.

Bunny Lake despareceu é tudo e um pouco mais.

Drama familiar, thriller, suspense psicológico, além do flerte com o cinema de horror (especialmente naquela antológica sequência noturna na oficina de reparo de bonecas, com a fotografia em preto e branco a fazer toda a diferença naquele espaço em que predominam quadros mais escuros e densos). Bunny Lake despareceu chega a perfeição com o contraste do uso do scope em lugares, eminentemente, fechados, principalmente em um filme em que, ao querermos identificar os detalhes que possam nos levar à menina, é preciso enxergar mais, ainda que nos limites, entretanto, impostos pela arquitetura de interiores, restrição dos corredores, das portas que se fecham e da impossibilidade de uma maior mobilidade da câmera.

Impressionante também o modo como Otto Preminger trabalha a profundidade de campo, que nos permite adentrar em um mundo concreto, em espaços sólidos, quase tridimensionais, garantindo uma realidade arquitetural em uma trama irreal, que, praticamente, não passa de ilusão e criação da mente fantasiosa da jovem Annie Lake. Nesse aspecto, a direção de Preminger opõe à concretude e solidez da imagem, com seus espaços com planos diversos, quase, como na cena do pub, com três níveis de profundidade distintos (Annie encostada na superfície da imagem; o policial sentado mais atrás em segundo plano; e o bartender manipulando a TV e servindo aos demais clientes no plano de fundo), ao universo – supostamente – ilusório e fantasmagórico, possivelmente, criado por Annie com o apoio do seu irmão Steven.

Impressionante também como Preminger, em um tour de force narrativo a trabalhar nossa percepção, manipula os elementos visíveis (o urso de pelúcia, o proprietário suspeito do apartamento em que Annie é inquilina e, a partir de determinado momento, o olhar sombrio de Steven) e os elementos imaginários (o amigo mágico da infância de Annie, a inexistência de fotografia e de registro escolar de Bunny).

Elementos, entre a visibilidade e invisibilidade, que nos levam a crer, ora, que a criança nunca existira, ora que foi de fato raptada. Nesse universo real e imaginário, não é menos antológica a sequência já próxima do final dos irmãos Lake brincando de infância.

Primeiramente, nas dependências da casa de Steven; e depois no pátio, onde podemos ver o singelo parquinho. Na troca de papéis, que Annie e Steven negociam como uma forma de viverem outras vidas e tempos imaginários, Preminger nos coloca em um jogo entre a magia e ludicidade da infância e as dimensões macabras e fantasmagóricas de mentes em desequilíbrio. Se o diretor tivesse ousado mais, dos três finais possíveis para Bunny Lake, a realidade se subjugaria a imaginação (ou o flerte com o cinema de horror teria sido mais radical).

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Marcos Aurélio Felipe

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