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Do alto de um penhasco dá para sentir o coração batendo

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A adolescência é uma fase estranha e difícil. Nos enlutamos do corpo de criança, ganhamos um turbilhão de dúvidas e sensações físicas que não sabemos muito bem como lidar e a vida se torna uma via de mão dupla entre a ideia de invencibilidade e uma imensa incapacidade de suportá-la. Somos capazes de tomar um porre de vinho de garrafão numa noite e fazer uma prova no dia seguinte. E, no entanto, não suportamos se alguém critica nosso jeito de se vestir.

Há, inclusive, quem leve esse sentido de vida para o resto da existência. Ficando num limbo entre a fase imberbe e o peso da maturidade. Os conflitos da vida de um adolescente são o mote para o filme It’s kind of a funny story (2011), dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck.

Cenas do filme "Se Enlouquecer, não se apaixone"

Cena do filme “Se Enlouquecer, não se apaixone”

A tradução literal em português seria “Tipo uma história engraçada”. Mas, infelizmente, os gênios do marketing no Brasil resolveram intitular o filme “Se enlouquecer não se apaixone”. Talvez fazendo um trocadilho inoportuno com a comédia abarrotada de clichês “Se beber não case”, já que em ambas as películas o estranho e talentoso ator Zach Galifianakis, faz parte do elenco, interpretando o amigo Bobby que coleciona idas e vindas à ala psiquiátrica de um hospital, devido a uma estranha obsessão: querer morrer.

O filme trata do suicídio de uma maneira absolutamente leve e longe dos tabus que costumam acorrentar esse tema. O jovem Craig (Keir Gilchrist) pensa em se matar o tempo inteiro. Acha que está apaixonado pela namorada do melhor amigo e parece não suportar as pressões dos 16 anos e das decisões que seria obrigado a tomar nessa idade, como a escolha da profissão após o ensino médio.

O roteiro permite uma fluidez sem muito mimimi e clichês. Numa das cenas, o rapaz descreve como os pensamentos o estão sufocando a ponto de achar que não vai conseguir segurar a onda e vê como única opção se jogar da ponte. O texto é muito respeitoso com os conflitos internos, aos quais todos os seres humanos estão propensos a passar.

A transparência com que ele lida com seu problema diante da maravilhosa psiquiatra, interpretada por Viola Davis, o faz ir sozinho a uma clínica pedir ajuda.

Lá, ele encontra diversos tipos de pacientes psiquiátricos, inclusive a adolescente Noelle (Emma Roberts) com quem vai descobrir que viver pode até não ser um conto de fadas ou um comercial perfeito da terra do Tio Sam, mas pode valer a pena se for uma aventura a dois.

Os personagens da ala psiquiátrica são caracterizados com os mais diversos problemas de saúde mental. Mas o bacana é que nenhum deles caricatura a doença mental, nem coloca no pódio a “loucura” apoteótica ou gente descabelada e babando.

O que é muito pertinente. Porque como diz um amigo meu, existem muitos doidinhos mansos por aí. Muito mais equilibrados do que os que se acreditam “normais” e estão patinando num mar de narcisismo ou a destilar neuroses mal resolvidas, diluídas em doses constantes de álcool e outras substâncias.

Li algumas críticas colocando como ponto alto a interpretação do ator adolescente, quando ele canta a canção Under Pressure, do David Bowie. É legal mesmo. Mas, eu não entendo muito de música então vou ficar por aqui nessa cena.

Mas, na verdade, para mim, o que me impressionou nessa história – que não é nada engraçada, mas também não é melodramática – é que às vezes podemos nos colocar diante do penhasco, com impulsos de “voar” para “longe”. E, ao invés de nos seduzirmos com infinito da paisagem – deveras  inalcançável e impossível – olharmos para dentro. Nos encararmos com coragem e respeito. Permitindo que a fantasia flerte com a realidade, sem que uma ou outra precise ganhar a batalha.

 

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Sheyla Azevedo

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