Dona Militana, heroína de crônicas de tempos idos

Edilberto C.
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Militana Salustino do Nascimento nasceu em 19 de marco de 1925, em meio a lua minguante e a maré vazante, em São Gonçalo do Amarante (RN); considerada a principal fonte para pesquisas sobre o romance medieval nordestino, ela dizia ter 55 obras memorizadas

Imagem de capa: xilogravura de Ernesto Bonato, da série Deambulatórios

Entre 2007 e 2009, me embrenhei na aventura de conhecer a história de vida de Dona Militana, romanceira potiguar falecida um pouco mais de seis anos atrás.

No intervalo de tempo, gozei do privilégio de visitá-la aos sábados para ouvi-la falar de sua vida, fumarmos cachimbo e ouvir muito do repertório de romances guardados em sua memória.

O privilégio rendeu uma dissertação de mestrado e o luxo de vivenciar o fenômeno da cultura popular.

Meu intento era compreender as razões conscientes e inconscientes de aquela mulher humilde preservar em sua memória tão rico acervo oral.

Passo a publicar aqui algumas impressões e reflexões geradas por essa experiência profunda e instigante.

Na companhia de Benedita

A chegada a sua então morada não era fácil.

Precisava sair do asfalto e enveredar por ladeiras íngremes, até alcançar a casa de Benedita, uma de suas filhas.

É uma casa modesta, com um muro baixo e portinhola de madeira.

Passada a entrada, chega-se a uma pequena varanda cerrada por um portão de ferro.

Sentada a uma poltrona, encontrava-se a romanceira, trajando blusa e saia que lhe cobriam braços e pernas, e seu tradicional lenço amarrado à cabeça, à moda africana.

Em uma de nossas conversas ela explica por que abandonou o sítio Oiteiro, onde mantinha residência fixa:

“Me vi lá sozinha, eu disse vou pr’onde tá Benedita… aí vim embora pra cá…”.

Embora não fosse sua propriedade, muitas das atenções da casa eram voltadas para Dona Militana.

Atenta aos atos e a saúde, Benedita sempre a acompanhava, censurando, ministrando medicamentos nas horas devidas e, muitas vezes, repreendendo o cachimbo e a cantoria.

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Sítio Oiteiro fica na comunidade de Santo Antônio dos Barreiros, em São Gonçalo do Amarante (RN); era naquela casa modesta que a romanceira vivia com a filha Benedita, onde sentava a uma poltrona, trajando blusa e saia que lhe cobriam braços e pernas, e usava seu tradicional lenço amarrado à cabeça, à moda africana.

Além disso, netos e bisnetos estavam sempre por perto quando faltava cachimbo, lenço ou fósforos.

Sua postura era de uma típica matriarca, quando recebia visitas.

Afora a varanda, onde recebia visitas com vínculos menos estreitos, havia ainda a sala de visitas e o quarto, local da bancada – forma como se referia à mesa que servia de oratório.

Era comum que, ao longo da conversa e numa atmosfera de maior confiança, ela convidasse o visitante a conhecer a bancada.

Ali se encontravam expostos os santos a quem devotava fé.

O quarto é ambiente sagrado

Como a maioria dos indivíduos do interior do nordeste brasileiro, a fé foi elemento fundamental na formação de Dona Militana.

Exerceu ofício de rezadeira, para além da atividade agrícola que a acompanhou até a idade que o corpo permitiu.

Percebemos que a própria divisão do espaço da casa aponta a sacralização do lugar.

Por ser o espaço mais íntimo, é no quarto que Dona Militana punha a sua bancada de oração.

O visitante comum, ou quem porventura a procurasse para curar ou rezar, só entrava se conquistasse a confiança.

Ao intruso, Dona Militana reservava ira e revolta:

“[…] vocês conhece a sogra de Mané Bonitinho… mora pra acolá… aí ela chegou, quando ela entrou, chegou na banca: “ah! a senhora é catimbozeira… […] a banca da senhora, cada um tem”… peguei ela no braço e disse: sai!… quando chegou na porta eu empurrei ela, e ela caiu lá fora. Aí ela: “a senhora quer me botar”… eu disse é pra senhora aprender a respeitar a casa dos outros, num pode chegar aqui me chamando de catimbozeira”.

A bancada de Dona Militana representava um pouco como a romanceira via a si mesma.

De modo que sua ira com a estranha revela em verdade dois motivos:

Primeiro, a invasão da intimidade, do lugar do eu.

E, também, a interpretação errônea de sua identidade, ao trata-la como catimbozeira, cuja significação está associada à feitiçaria ou bruxaria – contrário ao ofício de rezadeira.

Todavia aquela ainda não era sua casa.

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Ao redor da propriedade comprada pelo avô de Dona Militana surgiu uma comunidade só de parentes do próprio seu Atanásio, antes dos filhos, netos e bisnetos da romanceira.

Parentela no entorno do Sítio Oiteiro

A casa onde Dona Militana fixou raízes e a memória foi a casa do Sítio Oiteiro. Para ele dona Militana inclusive compôs um canto usado como despedida do público, em suas apresentações:

Lá em Barrero

Aonde eu nasci

Em São Gonçalo

Aonde eu me criei

Eu vou embora

Pra meu sítio Oiteiro

Adeus (…) adeus.

O sítio Oiteiro, conforme nos disse a própria Dona Militana, fora adquirido pelo avô:

“(…) isso aqui foi herança do pai dele [falando do pai e do avô], o pai dele tinha uma novilha… e uma besta… trocou nessa terra e cinquenta réis de volta”.

Ao redor da propriedade, foi fundada uma comunidade só de parentes, em princípio, de seu Atanásio. Em seguida, vieram filhos, netos e bisnetos de Dona Militana.

Na vila que circunda o sítio Oiteiro, Dona Militana tinha os domínios da casa estendidos, pois o entorno ainda era regido pelo signo do parentesco.

Trata-se de um espaço irradiante de saberes.

Antes da notoriedade de sua memória de romanceira, Dona Militana muito pouco saíra do lugar de origem.

Sua vida e conhecimento do mundo circunscreve-se àquele espaço doméstico, mas não domesticado, visto que muitas vezes é hostil.

O que exigia certa ‘ciência’ para superá-los.

Existência, portanto, em ambiente familiar.

Seja na lavoura, fabricando cestos de cipó, seja na condição de mulher, cuidando de idosos e enfermos da comunidade.

“O pessoal mais véio do Oiteiro adoecia, quem tomava conta era eu, até a morte”.

Este é o cenário de sua infância, em que ouvia romances de cordel através de tios e do pai.

Ela depositou na memória, “ouvindo e decorando, decorando e cantando”, conforme suas palavras.

Ali era seu lugar e morada, onde construiu a vida e ganhou conhecimento de mundo.

Lá era o lugar da tradição, seu esteio comum, mas figurado como lugar de isolamento, que a obrigara a abandoná-lo para viver com a filha.

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“Meu intento era compreender as razões conscientes e inconscientes de aquela mulher humilde preservar em sua memória tão rico acervo oral”. FOTOGRAFIA: Canindé Soares

Saliento o fato de Dona Militana situar-se entre dois tempos, que faz do sítio Oiteiro dois lugares diferentes.

O lugar da dispersão do presente, em que netos e bisnetos rumam a outras paragens, em busca de novas vidas.

E aquele da juventude, coletivo e familiar, onde, provavelmente, na visão idílica de Câmara Cascudo:

“[…] depois da ceia faziam roda para conversar, espairecer, dono da casa, filhos maiores, vaqueiros, amigos, vizinhos. Não havia diálogo, mas uma exposição. Histórico do dia. Assuntos de gado, desaparecimento de bois, aventuras do campeio, façanhas de um cachorro, queda num grotão, anedotas rápidas, recordações, gente antiga, valentes, (…) cangaceiros, cantadores, furtos de moça, desabafo de chefes, vinganças, crueldades, alegrias, planos para o dia seguinte”.

Dona Militana preservava sua história de vida da ação predadora de pesquisadores.

Guardava a memória e se esforçava para oferecer apenas aventuras atuais.

Além, é claro, do acervo de romances e cantigas que dividia com generosidade.

Tão logo vencíamos sua resistência em falar da infância, ela nos mostrava Maria José (como a conheciam no Oiteiro), protagonista de episódios dignos de folhetos de romance, como os que ela canta sem cerimônia.

A fé de uma romanceira

Muitas foram as identidades assumidas por Dona Militana ao longo de sua história.

Há inicialmente a Maria José, nome que a liga ao ambiente familiar do sítio Oiteiro, com que exerceu papéis de filha, mãe, avó, vizinha e rezadeira.

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Morta em junho de 2010, Dona Militana preservava sua história de vida da ação predadora de pesquisadores; antes da fama, raras foram as saídas do sítio Oiteiro

Por outro lado, existe a Militana, nome de batismo, a romanceira afamada.

Com frequência a Maria José doméstica retornava na voz da narradora Militana na função de personagem de suas narrativas.

Narrativas essas que ela resguardava de quem vinha do mundo exterior, dos letrados, curiosos por sua vida.

Nessas narrativas ela figura como a heroína de crônicas de tempos idos, atuando como personagens de contos populares, em aventuras e conflitos dos quais se desembaraça com astúcia e coragem.

Em princípio, ela não me fitava os olhos.

Punha-se a mirar a rua, olhar levantado em direção ao horizonte, como se esperasse alguém a qualquer momento, ou mesmo contemplasse a história contada.

Sua postura corporal me lembrava uma sacerdotisa portadora da voz primitiva, para quem o olhar exterior nada significa.

De certa forma, a recusa em falar da vida pregressa parecia dizer que vivíamos outra época.

Época de isolamento e individualismos, incapazes de compreender os sentidos ocultos de sua vida e da sua comunidade.

Tanto quanto a invasora da ‘bancada’, que a tomou como feiticeira, nós seríamos estranhos a penetrar na intimidade do que não compreendíamos.

E, por isso mesmo, a profanaríamos.

Inconscientemente transpira em sua atitude a impossibilidade de a visão de mundo do cientista fundir-se à visão sob a perspectiva da fé, comum à romanceira.

O vivido e o representado

Nasceu desse convívio uma história fluida, sem grandes intermitências do interlocutor.

O que me permitiu contemplar a pessoa da romanceira militando em seus vários papéis e identidades, conforme a situação narrada.

Vivi parte dessa vida como se fosse uma personagem de romances mostrados por ela.

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Imagem: The Anarchy of Memories (2015), do ilustrador e designer peruano Hernan Valencia, capa do livro homônimo de contos

Porque, de certa forma, é como fazemos todos para dar sentido a vida, ao nos religarmos com algo que ultrapassa as limitações do cotidiano e legitima nossos esforços contra a desordem trágica da labuta diária.

Ao fim desta aventura, que durou aproximadamente dois anos, permaneci com a sensação de que algo me escapou entre os dedos.

Porque entre o vivido e o representado há um hiato intransponível, que a interpretação, em seu esforço inútil pela totalidade, é incapaz de atingir.

Isso porque meu objeto maior era a memória.

E esta é feita de fragmentos, repleta de lacunas, contradições e zonas de esquecimento, que nos lançam em um labirinto inevitável.

De lá só saímos com estilhaços de uma verdade a qual formos capazes de vislumbrar.

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Edilberto C.

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