Dona Militana e a visão trágica do mundo

Edilberto C.
Destaque
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Dona Militana relatou diversos casos para Edilberto Santos, três deles aqui reproduzidos

Dona Militana me contou histórias para além dos romances cantados.

Meu interesse por fontes da tradição oral recaia sobre os romances, mas eu estava ali para beber sua história de vida e compreender as vidas de suas histórias.

Buscava motivos daquela mulher do povo memorizar aventuras de personagens como Alonso e Marina, Alzira, rios Pretos, Cabeleira, por décadas e décadas.

Qual o sentido daqueles heróis para uma mulher marcada pelo signo da supremacia masculina, tão vívido em uma São Gonçalo então afeita a costumes coloniais?

Ouvia e armava o ponto de um fato, como dizia Guimarães Rosa.

Em muitos momentos senti resistência da romanceira. Abriu o tesouro de sua vida aos poucos, desenrolando as histórias com calma.

E elas jorraram, na construção da personagem Maria José, nome autobiográfico para momentos de afastamento da condição de romanceira. Narrativas pessoais assumem tom de caso desde o início de sua fala.

Diferente do provérbio ou do conto, o caso instiga a participação do ouvinte na avaliação de atitudes das personagens e promoção de julgamento moral. Da infância e juventude, ela ressalta valores, como a coragem e a ousadia, e também se submete ao julgamento moral.

Primeiro Caso

“Quando eu era menina apanhei tanto. Qualquer coisa eu…meu pai…um dia…toda vez que ele mandava eu ir pra rua dizia: ‘Eu cuspo no chão’. Se eu não chegasse antes do cuspe tiver seco era uma surra”.

“As vez eu digo assim: não sei o que que eu tô pagando. Tô pagando o que eu fiz na minha mocidade. Aí vinha um cara amontado num cavalo e foi passando por mim e meu cabelo é ruim, aí ele: ‘Cabelo de estopa’. Aí eu disse: Estopa tem no rabo de tua mãe, filho de uma égua”.

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“Aí vinha um cara amontado num cavalo e foi passando por mim e meu cabelo é ruim aí ele: cabelo de estopa”

“E ele estirou o braço pra mode me pegar e quando ele estirou o braço pra mode me pegar, eu peguei na perna dele e vuco caiu em riba do cavalo abaixo. Quando ele caiu do cavalo abaixo eu disse: se vier morre”.

“Aí tirei a faca do seio e joguei a navalha pra comadre Maria Bune, minha irmã. Aí ele disse: ‘Assim desse jeito não’, aí passou a perna no cavalo, ajeitou-se e foi-se embora. Aí chegou na casa de Cariré.  Aí por sorte papai disse: ‘Maria José!’. Eu disse: Senhor? ‘O gás acabou’. Ele disse: ‘O santo não pode dormir no pardo, vá comprar o gás”.

“Aí fui pra casa de Cariré. Cheguei na casa de Cariré, aí ele botou o cavalo pra cima de mim. Quando ele botou o cavalo pra cima de mim… um primo meu… morreu… chamava-se Seledom. Pegou o estojo do cavalo dele, aí suspendeu a cabeça do cavalo. Quando ele suspendeu, o cavalo suspendeu as mão e ele caiu de cima pra baixo”.

“Quando ele caiu, aí Seledom disse: ‘Ainda vai botar ela abaixo? Ainda vai botar o cavalo pra cima dela? Bote o cavalo por riba dela!’. Aí ele disse: ‘Desculpe aí”. Eu disse: Eu num desculpo erro de sem vergonha não”.

Ao passo que na velhice as cantigas são sua maior arma para se defender e ridicularizar supostos oponentes. Vê-se nas histórias que a romanceira assumiu um poder que naturalmente não possuía na juventude: o poder da palavra.

Segundo Caso

“Um dia, eu cheguei do roçado, papai disse: ‘Maria José, você vá no roçado’. Isso já era de tarde. ‘E arranque um balaio de mandioca, pra botar de molho. Eu num vou não que eu tô muito enfadado’ Trabalhava de quatro da madrugada até cinco horas da tarde. Aí eu fui. Eu e minhas duas irmãs”.

“E cheguei. O feijão rebolado comido, tava por terra. Eu digo: agora ela vai me pagar. A vaca, ela arrombou a cerca. Aí eu disse: vamos dar-lhe. Comadre Bune disse: ‘Ee se ela der na gente?’. Aí eu digo: Se ela der numa, a outra mata ela”.

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“[…] aqui acolá uma cipoada, quando chegamos debaixo dum pé de moita trubá que era estralado de cima até o chão… eu dei uma cipoada nessa vaca tão pequena que ela ficou soltando sangue pelas venta […] aí chegou Damião e disse: ‘vocês mataram a vaca alheia’

“Aí fizemos carreira atrás da vaca e a vaca fez carreira. Aí aqui acolá uma cipoada, aqui acolá uma cipoada. Quando chegamos debaixo dum pé de moita trubá que era estralado de cima até o chão, eu dei uma cipoada nessa vaca tão pequena que ela ficou soltando sangue pelas venta..Aí vamos botar pra fora. Aí chegou Damião. Quando chegou e disse: ‘Vocês mataram a vaca alheia”.

“E eu disse: viu o estrago que ela fez? Ele disse: ‘Virgem Maria, se Atanásio chega aqui!’ Aí ajudou a gente a abrir a cerca e botar a vaca pra fora. Ele enfiava o pau assim, por debaixo dela, eu enfiava do outro lado. Nesse tempo eu era gente. Aí embolava ela pra lá. Quando ela ficou debaixo do pé de pau, a gente fizemos a cerca”.

Terceiro Caso

“E um dia, papai disse: ‘Maria José, eu vou pra casa de farinha de João Moura. Aí você vai deixar o meu café, que eu não posso vir, só posso vir depois da farinha pronta’. Aí tava ele e os dois moedor. Aí eu fui. Aí por sorte minha eu levava um pau na mão. Aí João Moura tinha um cachorro que ele esperava a pessoa na entrada. A entrada ficava como lá naquela cerca [apontando para fora] pra dentro da casa de farinha”.

“Quando eu cheguei o cachorro avançou pra cima de mim. “Eu plantei-lhe o pau. O cachorro caiu. Quando o cachorro caiu, eu empurrei ele. Quando eu empurrei com o pau, ele ficou com o pescoço preso no meio da cancela. Eu plantei-lhe a cancela, ele ficou lá esperneando e eu fui-me embora”.

“Quando vem três homens daqui pra lá, vê o cachorro pela cancela, chega e diz: ‘Óia João, a filha de seu Atanásio matou o cachorro”. Aí papai disse: ‘Antes ela matar o cachorro do que o cachorro matar ela. Um cachorrão desses’. Aí papai chegou e disse: ‘Quer que pague o cachorro? Eu pago agora’. Aí papai tinha uma americana desse tamanho. Aí papai disse: ‘Eu nunca puxei faca pra ninguém, mas se arribar pro lado dela o jeito é eu torcer por ela, eu sou quem sou o pai dela, eu quem posso repreender ela aqui”.

“Aí papai disse: ‘Na casa de farinha de João Moura eu num boto mais farinha, nem mandioca pra fazer farinha’. Aí acabou-se. Papai morreu e num fez. João Moura morreu primeiro que papai”.

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Coragem, rigidez e autoridade moral

Nas três histórias, a romanceira fala de sua infância e, em todos os casos, como protagonista, ao ressaltar especialmente a força moral e a coragem.

O mesmo acontece nos casos 1 e 3, com o convite da romanceira para percebermos a rigidez, autoridade e inflexibilidade moral do pai, a quem cabe o direito inquestionável de punir:

Meu pai… um dia… toda vez que ele mandava eu ir pra rua dizia: ‘ eu cuspo no chão’. Se eu não chegasse antes do cuspe tiver seco era uma surra.

No segundo caso, a palavra paterna defende o direito inalienável e exclusivo à autoridade sobre sua filha: “Eu sou quem sou o pai dela, eu quem posso repreender ela aqui…”.

O decreto final se expõe como prova dessa autoridade e correção moral:

Na casa de farinha de João Moura eu num boto mais farinha, nem mandioca pra fazer farinha. Aí acabou-se. Papai morreu e num fez…

Tanto quanto ao pai, Dona Militana se expõe à apreciação judicial do ouvinte quanto à atitude e crueldade diante de pessoas e animais.

Tanto é que ela não assume apenas a autoridade do feito contra a vaca e o cachorro, como também descreve a agressão.

Percebe-se, da mesma forma, a exposição ao julgamento: “Às vez’ eu digo assim:  não sei o que que eu ‘tou pagando. ‘Tou pagando o que eu fiz na minha mocidade”.

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Fatos narrados por Dona Militana incitam julgamento e punição

A visão trágica do mundo

Independente dos motivos que separam enredos, há sempre uma questão moral que os une: concepcões éticas e trágicas estão implícitas em sua visão de mundo.

O discurso da romanceira, embora aparentemente despretensioso, está repleto de significados ocultos, despercebidos em uma primeira escuta.

A rede de imagens latentes, mais importante que os fatos explicitados, é revelada apenas ao ser (re) memorado e interpretado.

Isso porque a memória não se desvenda claramente no exercício da reminiscência, mas constitui-se de ‘nebulosas’ de sentidos latentes, sempre resistentes a uma leitura imediata.

Mesmo relatando fatos de sua vida pessoal, a individualidade da romanceira está marcada pelo repertório coletivo.

Sua fala traz à tona elementos que nos permitem compreender como as pessoas recordam e elaboram suas memórias, enquanto sujeitos de uma comunidade em construção de uma identidade.

De certa forma, a fala da romanceira funciona como um documento que reflete em sua memória particular os princípios e a visão de mundo dos seus pares sociais, formando um triângulo entre a experiência do passado, o contexto presente e a cultura que se recorda.

Todos os fatos narrados incitam o julgamento e punição, ao mesmo tempo em que apresentam uma perspectiva trágica da vida.

Há uma espécie de moralidade trágica que perpassa suas narrativas, uma consciência de que a vida é árdua e todo vivente uma espécie de vítima da sorte.

É assim que Dona Militana conta a sua história, fabulando-a em um poema composto por ela mesma com a estrutura dos romances.

Cada um dos casos narrados tem essa marca, de modo que o valor é dado àquele cuja força diante da adversidade foi mostrada com heroísmo.

dona-militana-e-a-visao-tragica-do-mundo-4-2Na era de vinte e cinco

a dezenove de março

às doze horas do dia,

foi aí meu nascimento,

 

a lua tava de minguante,

a maré tava de vazante,

a lua cortou minha sina

e a maré levou minha sorte.

Está falando a maior sofredora

do Rio Grande do Norte.

Poética da infância

É curioso como as poucas vezes em que Dona Militana ensaia uma criação poética sejam, justamente, em relação ao sítio Oiteiro, lugar simbólico de origem, e às redondilhas sobre o próprio nascimento, supracitadas.

Em ambos os casos, a romanceira atualiza simbolicamente sua origem com motivação inconsciente de perpetua-la.

Dona Militana fixou o lugar da origem e poetizou a infância ao nível do imaginário, e, com o segundo poema, definiu tematicamente a forma como concebe o drama da sua existência.

Assim como grandes heróis romanescos, seu nascimento fora marcado pelos signos nefastos do destino, e ela se autoproclama não só uma sofredora, mas a mais sofredora do Rio Grande do Norte.

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Edilberto C.

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