CrônicaMais

Dos transtornos

Hoje amanheci decidido a mudar completamente a minha vida. Resolvi finalmente romper os grilhões que me acorrentavam a um modo de ser que não correspondia aos meus anseios. Há tempos percebi que era chegada a hora de me rebelar contra meus arquétipos de comportamento. Desde muito jovem que sinto avultar-se em minhas entranhas, devorando-me internamente, uma vontade desmensurada de me transformar em uma pessoa completa e feliz consigo mesma e com o mundo que a cerca. Desde a mais tenra idade entendi que eu era uma pessoa diferente, que tinha outros gostos e costumes diversos daqueles que me cercavam. Resolvi não mais me esconder em minha revolta solitária e deixar de ser um resignado e recalcado, partindo célere para uma cruzada de luta renhida e ferrenha contra a ignorância e o preconceito. Nunca mais noites insones nem choro reprimido.

Nunca mais pesadelos nem palpitações noturnas. Quero a minha libertação desse estado de coisas que me apavora e me deprime. Quero ser eu, somente eu. Eu mesmo, eu próprio; eu em toda a plenitude que a acepção vocabular configura. Longe de mim a mesmice, a aceitação sem crítica, o acomodar-se para a comodidade dos outros. Pretendo usufruir dos meus sonhos, mesmo que eles pareçam pesadelos para os outros.

Eu estou aqui agora, perante você que é o meu atual analista, para, num esforço supremo e desesperador, mas ao mesmo tempo edificante e esperançoso, revelar o meu mais profundo segredo. A vergonha já não me apavora. Não tenho mais medo de dizer o que sinto e o que quero…

Faço uma pausa de silêncio sepulcral que dura uns dois minutos, no máximo. Engasgo-me com a saliva dessecada em minha garganta. Pigarreio. Respiro fundo… e num doloroso grito primal me revelo:

– Eu sou um trans!

O psicólogo me olha espantado e não acredita no que acabo de dizer…. De repente seus olhos brilham e seu carcomido corpo desaba e afunda na poltrona macia. O ar congelado da surpresa o deixa meio sem fala. Deixa cair a caneta Mont Blanc no tapete e abaixa-se desajeitadamente para apanhá-la no chão.

Eu sempre quis lhe dizer isso, mas só agora tive coragem. Meu corpo vive preso a uma realidade que não quero para mim. Sou um trans-social! Você sabe que sou pobre, paupérrimo. Não tenho posses ou valia, mas eu não sou isso que acham de mim. Não me sinto um pobre, entende? Sempre me senti rico desde que me entendo por mim mesmo. Essa vida de necessidades e restrições não condiz comigo. Enquanto a minha família me acha um ser recatado, de índole pacífica, e os meus amigos me têm como um camarada simples e sem pretensões, eu, na verdade, sou o contrário. Não posso mais viver em meu meio social. Sou um rico vivendo na pele de um pobretão.

Quero o glamour da fama, da fortuna e da sorte, pois sei que bem as mereço. Quero viajar para o Velho Continente em grande estilo, conhecer os melhores museus, as mais conceituadas pinacotecas. Passear pelos bares e restaurantes luxuosos parisienses. A vida noturna londrina quero desfrutar com todo o luxo. Saborear as delícias culinárias dos chefs das capitais europeias. Quero possuir riquezas, pois sei que esse é o meu direito e destino; não essa vida desvalida em que vivo. Acho-me enclausurado num meio social que não é o que sinto ser meu. Quero me libertar dessa vida de pé-rapado e curtir a minha Ferrari, o meu Cartier, meu Bulgari, meu iate e meu helicóptero particular. Quero saborear minha vila em Nápoles, meu apartamento em New York, minha ilhota nas Seychelles, minha praia em Ibiza…

– Senhor trans-social?

– ?

A sessão terminou e o seu tempo expirou. Vou telefonar para um colega psiquiatra marcando um horário urgente para o senhor!

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Edmar Cláudio

Comentários

3 comments

  1. Maria tereza 27 setembro, 2017 at 18:25

    Muito show! Lembra -me os sonhos de uma tarde de verão , vivido por sonhadores descomedidos no afã da Glória ! Este mundo capital está transbordando de pessoas trâns -sociais , que necessitam de um psiquiatra , mas só qdo a vontade ultrapassa as arestas da sanidade , e seu sonho vira realidade aprisionada, possuindo um apto fechado cheio de milhoes roubados …

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