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É tempo de carnaval

Foi grande a minha surpresa no primeiro dia do mês, ao virar a folhinha do calendário de 2018 que recebi da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés, e me deparar com O Palhaço e o Violino. De profundo impacto, em meio a tristeza e ao encanto.

O Palhaço e o Violino! Simples assim, e verdadeiramente complexo, original em tela pintado com a boca e o pé pela artista plástica Olesja Matjasch, nos transmite toda a antítese do Carnaval. Festa de origem obscura, diferente das demais, onde não se usa o termo comemorar e sim o termo brincar.

Porque o Carnaval é, de fato, uma grande brincadeira!

Começou na Antiguidade, como culto primitivo popular, pagão, para celebrar o renascimento da natureza e o plantio da lavoura. Quando adultos e crianças se reuniam usando máscaras ou com os corpos pintados ou vestidos de animais, brincando e fazendo algazarra para espantar os maus espíritos do inverno e garantir uma boa colheita.

Mais tarde, passou a incluir festividades em homenagem aos deuses e sátiras às autoridades. Quando as pessoas podiam se trajar como o rei, imita-lo, ou despir o rei, mostrando a sua inferioridade em relação aos deuses. Homens se vestiam de mulher e saiam às ruas em cortejo, antecedendo as trocas de papéis que fazem a festa atual. As pessoas podiam dançar nas ruas e desfilarem nuas em carros alegóricos por Saturno, deus da agricultura. Ou se fartarem de tanta comida, se embriagando, entregues aos prazeres sexuais, por Baco, o deus do vinho.

Essas semelhanças com o Carnaval de agora, certamente influíram na sua origem: seja pela subversão, inversão da ordem sociais ou quebra de normas de comportamento. Mas tudo isso era, e é, pela alegria e pela satisfação, mesmo temporária. Em brincadeiras, na irreverência, na breve fuga da própria identidade com o uso de máscaras e fantasias, no mela-mela, na ilusão de uma maior unidade social ou zombando da classe dominante.

E assim chegamos a Idade Média com uma Igreja Católica fortalecida condenando e combatendo essa festa pagã que inverte a ordem das coisas e, portanto, inverte também a Deus e ao diabo. Sem aceitar essa proibição, o povo protestou: é apenas uma brincadeira passageira, a cada novo ano. Mas a Igreja não se deu por vencida, incorporou o Carnaval ao ano litúrgico, no período que antecede a Quaresma, e lhe deu essa denominação, carnem levare, em latim livres da carne, para que os fiéis fizessem jejum e penitências pelos seus excessos, a começar na quarta-feira de Cinzas até o domingo de Páscoa.

A partir daí o Carnaval foi oficializado como uma festa pagã e cristã. Ganhou sentido de diversão, liberdade, exageros, tristeza, penitência, dor e floresceu, justamente na Itália. Dali, se espalhou por todo o planeta, chegou ao Brasil colonial, sofreu transformações e aqui se tornou o maior Carnaval do mundo. O Frevo foi declarado patrimônio da humanidade, o Galo da Madrugada é o maior bloco de Carnaval que existe, reunindo e unindo milhões de foliões na alegria.

Além disso, desfiles nas ruas, belas máscaras, fantasias coloridas e ousadas, adultos e crianças, blocos, bandas, carros alegóricos, escolas de samba, ritmos musicais diversos, incorporam a esta festa um significado de vida e de morte, de alegria e tristeza, assim como O Palhaço e o Violino. Representando, de certo modo, o inconsciente coletivo, no qual a morte é parte da vida e coloca a tristeza e a alegria abraçadas, amparando-se, uma precisando da outra.

Como podemos reconhecer a alegria se não passarmos por tristes momentos? Como suportar a tristeza e não a transformar numa patologia, se não existir a esperança de se alegrar? E se tudo fosse só alegria? Nosso impasse não se resolveria. Porque é a tristeza que nos proporciona a medida exata da realidade, nos faz pensar, nos humaniza.

E que assim o Carnaval possa “ser eterno enquanto dure”. Que resista a essa cultura atual da felicidade fácil, instantânea e permanente, sem se corromper. Que continue sendo essa grande brincadeira, mesmo que temporária, para a gente se alegrar. E nos ajude a enfrentar e a superar a tristeza quando ela vier. Porque bem sabem os psicólogos o quanto brincar estrutura nossa mente.

Viva, viva o Carnaval! Salve, salve a alegria!

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Comentários

1 comment

  1. Geraldo Alves Spinelli Júnior 9 fevereiro, 2018 at 21:49

    Nadira, e como não pensar em Nietzsche que cultuava Dionísio como a contrapartida a Apolo. Segundo Nietzsche Apolo era o racional e formador, enquanto Dionísio o irracional e o instintivo da natureza; e para ele o instinto era mais forte do que a consciência pois com a sua energia é quem cria tudo que existe. Nietzsche abominava o racional em Sócrates e sua pretensão em controlar os instintos com a consciência, e assim com a sua filosofia da supremacia do instinto sobre a consciência é quem pode ser considerado o pai da Psicanálise

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