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Edmar Claudio: um artista plural

Colaborador deste Substantivo Plural, paraibano radicado em Natal festejou 60 anos de idade com livro “O tempo, o amor e a solidão”.

Mesmo debaixo de uma chuva torrencial, amigos e familiares de Edmar Claudio se reuniram para prestigiá-lo duplamente no último dia 17 de fevereiro. Além de festejar seu aniversário de 60 anos, o poeta escolheu a data para autografar o livro “O tempo, o amor e a solidão”, edição feita especialmente para a ocasião, diga-se de passagem. Ideia da esposa, Madalena, e do filho Gabriel, a obra reúne poemas publicados no site “Recanto das Letras”. Atualmente, Edmar é colaborador deste Substantivo Plural, portal responsável pela divulgação da literatura norte-rio-grandense e das artes em geral. Uma iniciativa que merece todo apoio e valorização.

Apesar de ter uma vasta produção poética, assim como também de contos e crônicas, e de ter participado de algumas antologias, é a primeira vez que o poeta reúne escritos em um trabalho individual. Na apresentação, o autor, que também assina a ilustração da capa e das três seções da obra, explica os eixos temáticos do livro: “O Tempo, drama inexorável determinante da vida. O Amor, alimento da alma e do coração, e a Solidão, o sentimento mais gerador e estimulante da capacidade criativa”.

Voltando ao aniversário do poeta. Confesso que a chuva me fez pensar que a festa pudesse ser cancelada, o que me causou certa angústia por imaginar todo o empenho da família para realizar o evento e, sobretudo, para transformá-lo em um momento ímpar. Afinal, como o próprio homenageado lembrou: “É um privilégio comemorar 60 anos. A essa altura, muitos dos nossos amigos e familiares já não estão mais entre nós. Por isso, devemos festejar a vida ao lado das pessoas que amamos”.

Ao chegar ao local da festa, um clube com uma extensa área verde, pude constatar que meu receio não passara de uma simples intuição e o que me esperava naquela tarde chuvosa era mesmo algo muito especial: reencontros, partilhas, conversas estimulantes e algumas emoções. Como disse Rodrigo Luna, sobrinho do homenageado, “a chuva conferiu até certo charme ao evento”. Ele tinha razão. Parece que o momento ficou mesmo mais aconchegante. Detalhe: o rapaz viera de João Pessoa somente para o aniversário e retornaria após a festa. A mãe de Edmar, dona Margarida, que já está na casa dos oitenta anos, apesar dos problemas de saúde, parecia muito feliz por comemorar o aniversário do primogênito, a quem chama carinhosamente de Mazinho, apelido de infância de Dr. Edmar, que é médico (ginecologista e obstetra).

Edmar e Dona Guida

Edmar Claudio ao lado de dona Margarida, sua mãe.

Partilhas e emoções

A festa foi dividida em três momentos, cuidadosamente planejados por Madalena e Gabriel. Primeiro, os convidados desfrutaram de um almoço à base de carnes grelhadas e comida regional, acompanhado de frutas e sucos diversos. Depois, se dirigiram até um pequeno auditório onde o autor autografou o livro e em seguida foram exibidos alguns vídeos gravados por familiares e amigos. Impossível conter as lágrimas diante de tantos depoimentos emocionados.

O depoimento de sua irmã Teresa foi marcado por lembranças da infância, entre elas brincadeiras das quais não podia participar por serem consideradas “coisas de menino”. Imbuída de sentimento nostálgico, lembrou a parceria de ambos ao longo da vida e declarou que o irmão sempre foi um espelho para ela. A mensagem do sobrinho Carlos Edmilson certamente deixou a todos muito surpresos, pois revelou outra faceta do homenageado, a de compositor. A amiga Ana Cláudia Trigueiro ressaltou os múltiplos talentos do artista e agradeceu pelo trabalho de ilustração do seu mais novo livro – “O mistério do Verde Nasce”, o qual será lançado em breve.

Após esse momento, o aniversariante fez um breve discurso, ressaltando que dali por diante se dedicaria inteiramente à arte, aproveitando ao máximo o tempo que lhe resta. Por último, o tão esperado momento dos parabéns, ao som de violão e pandeiro, este tocado pelo próprio aniversariante.

Enquanto todos conversavam e tiravam fotos com o autor, pensei em Newton Navarro, artista de quem já falei em outras crônicas. Tal qual o autor de “O solitário vento do verão (contos)” (EDUFRN, 2013), Edmar Claudio é desenhista e artista plástico, além de escrever contos e crônicas, como já destacado. Parafraseando Lenine Pinto, em depoimento sobre Navarro, poderia dizer que Edmar Claudio é “um sujeito lírico, apaixonado pela vida”. Esse e outros depoimentos constam do livro “Saudade de Newton Navarro” (EDUFRN, 2013), organizado por Ângela Almeida, Gustavo Sobral e Helton Rubiano. Dois artistas que muito se aproximam pela multiplicidade de talentos. Dois artistas que se aproximam pelo lirismo exacerbado. A descrição minuciosa de fatos, paisagens e tipos humanos, é outra característica que os irmana.

edmar claudio

Edmar Claudio é desenhista e artista plástico, além de escrever contos e crônicas, com os quais pretende publicar uma antologia.

Sem rebuscamentos formais

Em depoimento para esse mesmo livro, Tarcísio Gurgel declara: “Navarro tinha um estilo límpido, sem rebuscamentos formais, empregado para dar densidade dramática às histórias e às personagens, sempre tendo como referente o povo mais simples”. Declaração que se ajusta ao estilo de Edmar Claudio.

Coincidentemente, nenhum dos dois adentrou a seara do romance (o que ainda pode acontecer a Edmar Claudio, que já confessou aos amigos da confraria “Mesa das Consolações”, o desejo de romancear a história de sua avó materna – Laura). Também pretende publicar uma antologia de contos e outra de crônica. Alguns desses textos ele tem publicado regularmente neste Substantivo Plural.

Paraibano de João Pessoa, Edmar Claudio vive em Natal desde 1991. Newton Navarro morreu no ano seguinte. E se o destino fosse outro e os dois tivessem se conhecido? Como seria o encontro de dois artistas tão geniais? Dois poetas, dois homens que enxergam o mundo sob as lentes da delicadeza. Dois artesãos da palavra. Dois “apanhadores de desperdícios”, como versejou Manoel de Barros. Dois homens que recolhem da poeira dos dias a beleza de uma flor que nasce no meio da rua, o canto de um pássaro pousado na janela. Dois homens que veneram o mar e admiram os pescadores. Dois homens que apreciam a beleza das nuvens. Dois homens que amam o povo sertanejo. Dois homens que admiram o pai e em sua homenagem escreveram.

Assim como Navarro dedicou uma crônica ao amigo Berilo Wanderley, por ocasião do seu aniversário, “recolhendo da manhã o que a vida oferecia para entregar ao poeta”, também gostaria de dedicar esta crônica ao amigo Edmar Claudio, “cantando breve cantar de amigo […]”, com o desejo de que ele possa desfrutar de momentos felizes junto aos seus familiares e amigos, mas, sobretudo, que ele possa dedicar-se inteiramente à arte no tempo que lhe resta, para usar suas próprias palavras. Afinal, “Essa idade tão fugaz na nossa vida chama-se presente e tem a duração do instante que passa”, como disse Mario Quintana.

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Andreia Braz

Comentários

3 comments

  1. Ana Cláudia Trigueiro
    Ana Cláudia 8 março, 2018 at 18:26

    Que maravilha de ensaio! Sensibilidade acurada na comparação entre Navarro e Edmar Cláudio. Concordo com a semelhança. Agora, nosso poeta, cronista, contista, compositor e artista plástico, fica nos devendo o romance. Parabéns Andreia.

  2. Joves 12 março, 2018 at 17:21

    Tambin llevaron a Pablo Iglesias a Intereconoma y nadie duda que no es (o era, no s) un canal plural precisamente. Y ms cercano en el tiempo, el hermano de Alberto Garzn y defensor de Ahora Madrid, Eduardo, va todas las semanas a platicar sobre economa al programa de radio En Casa de Herrero, en esRadio (la del muy plural FJL). Y porque no soy muy de quedarme con nombres y de qu pie cojea quin. freelance copywriter

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