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ENTREVISTA – cientista político Homero Costa

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Professor titular de Ciência Política, no Departamento de Ciências Sociais da UFRN, com mestrado na Unicamp (SP) e doutorado na PUC (SP), Homero de Oliveira Costa é autor, entre outros, de “Democracia e representação política no Brasil: uma análise das eleições presidenciais (l989-2002)”, “ A Reforma Política no Brasil e Outros Ensaios”, “Crise dos partidos: democracia e reforma política no Brasil ” e “A “Insurreição Comunista de 1935: Natal, o primeiro ato da tragédia”, livro de referência nos estudos sobre esse fato histórico.

Leitor voraz e comprador compulsivo de livros, possui uma das melhores bibliotecas do Rio Grande do Norte, com cerca de 20 mil volumes. Diz a lenda que ele lê cerca de 15 livros por mês. E quando a lenda é maior que o fato, imprima-se a lenda. A entrevista abaixo está dividida em duas partes. Na primeira, ele fala do seu novo livro “Intérpretes do Brasil – alguns olhares”, à venda na Cooperativa Cultural da UFRN (não houve lançamento); e na segunda, aborda a conjuntura política nacional. Deixei de fora questões relacionadas à literatura, da qual ele é um profundo conhecedor, porque a entrevista já estava longa. Fica para uma próxima vez.

Como surgiu a ideia de publicar o livro “Intérpretes do Brasil – alguns olhares”? Fale um pouco sobre o livro.

O livro é uma coletânea de artigos sobre alguns intérpretes do Brasil. Foi resultado de trabalhos dos alunos da pós-graduação em Ciências Sociais (mestrado e doutorado) da UFRN. É uma disciplina chamada “Interpretações do Brasil”. Nela, são apresentadas e discutidas algumas das principais obras de alguns dos principais intérpretes do Brasil. No final, os alunos escrevem sobre os autores e obra escolhida por eles e em 2015 tive a ideia de juntar todos e publicar em forma de livro. Deu muito trabalho, mas creio que valeu a pena. O objetivo da disciplina é o de pelo menos uma obra desses autores como “América Latina, males de origem”, de Manoel Bomfim, “Casa Grande & Senzala” de Gilberto Freyre, “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, “Evolução política do Brasil”, “Formação do Brasil Contemporâneo” e “Revolução Brasileira” de Caio Prado Junior, “A Integração do negro na sociedade de classes”, e “Revolução burguesa no Brasil” de Florestan Fernandes e “O povo brasileiro”, de Darcy Ribeiro. (Isso já demanda muito tempo e mais ainda a leitura de parte da imensa fortuna crítica sobre cada um deles). É apenas uma parte: sobre Gilberto Freyre e Euclides da Cunha, por exemplo, são mais de 300 referências, entre artigos e livros de e sobre cada um deles). Como eu disse, são 15 aulas e se escolhêssemos 15 autores, seria um autor por aula…

Já foram editados vários livros com esse perfil. Em que este é diferente?

Talvez por se tratar de um livro com autores do Nordeste… Todos os livros que eu conheço sobre o tema (podem existir outros, mas não conheço) são de autores (e editoras) do centro-sul. Esse foi inclusive um dos motivos: por que não organizar uma coletânea com autores daqui, em especial, de alunos da UFRN?

Entre os autores considerados intérpretes do Brasil quem ficou de fora e você acha que mereceria figurar no livro.

Muitos. Poderia citar, entre outros, Celso Furtado, Nelson Werneck Sodré, Alberto Torres, Guerreiro Ramos, Cascudo, Oliveira Vianna, Joaquim Nabuco e Raymundo Faoro, por exemplo. Mas adoto como critério a disponibilidade tempo (número de aulas da disciplina) e um (pouco) de conhecimento meu sobre os autores (e suas obras.).

Em sua coluna do Novo Jornal o jornalista Vicente Serejo fez referência à ausência de Câmara Cascudo. Por que ele não consta, não é considerado um interprete do país?
Serejo tem razão, ele que é um dos maiores conhecedores da obra de Cascudo, sempre atento ao que se publica (ou se deixa de publicar) sobre ele. Mas explico as razões. Como eu disse acima, muitos ficaram de fora não porque não sejam importantes, mas porque como eu disse acima adoto como critério um conhecimento mínimo sobre os autores e obras e embora tenha vários livros de e sobre Cascudo e reconhecendo sua enorme importância, não tenho uma leitura sistemática sobre suas obras, como o próprio Serejo, Vânia Gico e Humberto Hermenegildo, por exemplo. Cascudo é referido em outros livros sobre Interpretações do Brasil como no “Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um país”, organizado por André Botelho e Lilia Schwarcz, que tem um artigo intitulado “Luis da Câmara Cascudo e o estudo das culturas” de José Reginaldo Santos Gonçalves. No caso da disciplina Interpretações do Brasil por razões óbvias (são apenas 15 aulas), não há tempo disponíveis para abranger todos os autores importantes. No caso de Cascudo, ele foi uma das leituras obrigatórias quando a disciplina foi criada na pós-graduação, com a professora Vânia Gico, que defendeu e publicou uma tese sobre ele e, portanto, com conhecimento de causa . Quando assumi a disciplina, escolhi autores que conheço melhor, como Manoel Bomfim, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque, por exemplo. Depois, foram incorporados outros autores como Florestan Fernandes, Caio Prado Junior e Darcy Ribeiro.

Você considera que existe preconceito contra a obra de Cascudo em algumas áreas da academia?

Não tenho como avaliar. Não conheço todas as áreas. Mas certamente ele é menos estudado do que deve e merece ser. Não sei se por preconceito ou ignorância mesmo.

Considera que as obras e autores enfocados em “Intérpretes do Brasil – alguns olhares” oferecem respostas satisfatórias para o atual momento por que passa o país?

Certamente não. Seria muita pretensão. Acho que nenhuma obra tem essa abrangência, ou seja, a de oferecer respostas satisfatórias (afinal, satisfatórias para quem?) sobre o momento atual e muito menos um trabalho acadêmico como esse. O objetivo é bem mais modesto.

 

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A eleição municipal alterou profundamente o quadro político nacional. Qual sua avaliação do resultado das urnas?

Bom, não creio que tenha alterado tão profundamente o quadro político nacional. O resultado revelou várias coisas, entre elas, a continuidade de uma profunda descrença de parte do eleitorado nos políticos e partidos, expressa no crescimento das abstenções, votos nulos e em brancos, a inegável derrota do PT e da esquerda de uma maneira geral (em termos eleitorais), em parte, em função dos seus próprios erros e também do massacre midiático, com ajuda de setores do judiciário e resultou também no crescimento de partidos conservadores nos parlamentos municipais, mas que não alterou, a meu ver, tão profundamente o quadro político nacional.

O PT foi o grande derrotado nas urnas. Uma derrota que atinge a esquerda como um todo. Qual o caminho a trilhar a partir de agora?

Creio que um caminho seria unir a esquerda numa grande frente não apenas contra os retrocessos do governo Temer, mas em relação às próximas eleições, onde a direita talvez tenha mais chances eleitorais, mas, pelo seu histórico, expresso inclusive nas eleições recentes, não creio que seja possível. A esquerda continuará desunida, o que só beneficia e beneficiará a direita. Sei que é muito fácil falar e defender a união da esquerda. O difícil mesmo é tornar isso possível…

Quais as consequências do avanço conservador, sobretudo em São Paulo, Minas e Rio de Janeiro?

É difícil antecipar juízo. Acho que vai depender muito do desempenho dos respectivos prefeitos. Acho que a eleição de João Dória Jr. e Marcelo Crivella, em especial, foi um grande retrocesso, mas expressou o desejo de mudanças de parcelas da população em relação às respectivas prefeituras (embora, saliente-se, ambos foram eleitos com menos votos do que o somatório dos votos em brancos, nulos e abstenções e menos de 50% do eleitorado, portanto, não foram eleitos pela maioria do eleitorado, mas a maioria dos votos válidos, o que é muito diferente). Se fizerem boas gestões – o que acho difícil – provavelmente ajudarão seus candidatos nas próximas eleições. Mas cada eleição tem sua lógica própria e ainda está muito cedo para prognósticos.

Como avalia o uso do discurso anti-politico nas últimas eleições?

Revelou-se eficaz. Certamente muitos usaram esse discurso não por convicção, mas por orientação de marqueteiros, que através de pesquisas identificaram esse sentimento na população (contra os políticos, partidos etc.), e embora eleitos com esse discurso (de gestor etc.), vão governar exatamente com os partidos e políticos que eles criticavam nos seus discursos (e apenas nos discursos). Mas o “pano de fundo” é que se insere numa tradição de fragilidade da identidade partidária no Brasil, ou seja, a debilidade dos laços dos eleitores com os partidos, ao mesmo tempo, em contextos de criminalização da política. Um dos requisitos da democracia é o grau de legitimidade das instituições políticas, em especial os partidos políticos, e no Brasil esse me parece ser um grave problema. Em todas as pesquisas sobre Confiança Social, os partidos (e os políticos) ocupam sempre o último lugar. E uma cultura política democrática exige não só a existência, mas o funcionamento dessas instituições como interlocutoras eficientes das demandas da sociedade e não tendo isso, entre outras consequências, pavimenta o caminho da anti-política.

Qual o recado dos elevados números de abstenções e votos nulos?

Fundamentalmente, a necessidade de uma profunda reforma política. Mas o (grande) problema é que, se há urgência e necessidade, não creio não teremos uma ampla reforma política, se depender apenas dos políticos e partidos do Congresso Nacional.

O governo Temer chega a 2018? O que pode acontecer se ele cair?
Não sei. Para mim, é imprevisível. Acho até que sim, porque tem uma folgada maioria no Congresso. Mas como a maioria dos partidos que o apoiam são fisiológicos e sem nenhuma consistência programática ou ideológica, a depender da conjuntura, podem até mudar de lado, como ocorreu com Dilma Rousseff (a base de apoio de Temer é praticamente a mesma de Dilma). Mas acho difícil ele ser afastado. Mas, se por acaso ele for, assume, claro, o presidente da Câmara (qual o pior cenário: manter Temer ou Rodrigo Maia assumir a presidência?). Para mim, o melhor seriam novas eleições, mas não creio nessa possibilidade.

Parlamentarismo seria uma saída para a crise?

Poderia até ser, mas está fora de cogitação. Há várias propostas nesse sentido no Congresso nacional, mas não vejo nenhuma possibilidade de serem aprovadas. Não chegam nem a votação nos respectivos plenários (Câmara e Senado). E antes de eventualmente ser aprovada, uma proposta com mudanças tão profundas, não poderia ser discutida apenas no Congresso, deveria um debate qualificado sobre o tema (que não houve por ocasião do plebiscito de 1993), que demandaria tempo etc. e não creio que haja nem condições nem interesse de se discutir isso hoje no Congresso nacional.

Qual o papel político de Lula até 2018?

Lula ainda é a liderança política mais popular do Brasil. Mesmo sendo preso – e acho que Lula é um dos grandes alvos de todas essas operações – deve ter ainda um papel importante nas próximas eleições. Apesar de todo o bombardeio cotidiano da grande mídia, rádios, jornais e televisão, ele ainda lidera as pesquisas de intenções de votos e a direita não tem um adversário a altura para enfrentar Lula nas urnas, daí a necessidade e urgência de inviabilizar sua candidatura. E acho que ainda não prenderam Lula porque avaliam quais seriam as consequências. É, evidentemente, uma prisão muito diferente da que foi a de Eduardo Cunha, não apenas pelo conjunto de provas contra Cunha – como ele não tem (agora) o apoio de quase ninguém (talvez os 10 deputados que não votaram pela sua cassação e seus familiares). Com Lula será diferente (ou pelo menos, creio que será).

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Tácito Costa

Comentários

1 comment

  1. thiago gonzaga 10 novembro, 2016 at 11:18

    Muito legal. admiro muito professor Homero, uma biblioteca vida do Estado.
    Valeu pela entrevista Tácito Costa.

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