ENTREVISTA – Escritor François Silvestre

Tácito Costa
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Líder estudantil e militante de esquerda nos anos de chumbo, preso político, advogado, jornalista, professor, político (foi candidato em 1982 e em 1986, respectivamente, a deputado federal e estadual), escritor, presidente da Fundação José Augusto, Procurador do Estado, François Silvestre de Alencar assina atualmente um blog no portal NO AR e uma coluna no Novo Jornal, onde aborda questões políticas, sociais e culturais. É autor de crônicas, contos, poesias, ensaios e romances, como “A Pátria não é Ninguém” e “As alças de Agave”.

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, do alto da sua experiência histórica, ele faz uma avaliação da conjuntura política brasileira, do Governo Robinson Faria e afirma que o país vive sob uma “baguncracia”.

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Uma crise como a que o Brasil está enfrentando não começa da noite para o dia. Onde estão as raízes da situação atual?

Simples. A crise atual é generalizada. Não é só econômica, social, financeira ou política. Ela foi gestada ao longo do tempo pelo esgarçamento institucional. Tudo isso tem origem numa determinação constitucional, de 1988, que não foi cumprida. Qual? A reforma da própria Constituição, prevista nos Atos das Disposições Transitórias, que deveria ter sido implementada cinco anos após a promulgação da Carta. O constituinte intuiu que aquela Constituição, nascida num momento de euforia “cívica”, de transição histórica, não teria eficácia de longevidade nem legitimidade duradoura. Os do poder político de então, em conluio com a oposição, (leia-se PSDB, PMDB e PT) não quiseram fazer a Reforma prevista. Daí o resultado do caos institucional. Poderes e órgãos com prerrogativas sobrepostas, necessidade de emendas a cada confronto de realidades, caduquice de normas em face de costumes ou de exigências sociais e políticas. Esse caldo de insegurança institucional alimentou e aprofundou a crise, que seria mais facilmente debelada numa ordem institucional mais segura e menos corporativa. Aí se somam desigualdades sociais, fragilidade econômica, corrupção oficial e oficializada, programas de esmolas sem conversão em pontos de trabalho, ganância da direita, burrice da esquerda. É tudo muito triste.

Como viu os resultados das eleições municipais, que explicitaram de vez o descrédito nos partidos, políticos e na política?

As eleições ocorreram num momento especial. Especial aqui como sinônimo de péssimo. Não acho que foi a negação da política; foi a negação da ordem geral. A abstenção, voto nulo, voto branco, somados disseram que “essa merda” toda não merece crédito. Toda. Os partidos são apenas parte da patifaria institucional enrugada, que fez da pátria um saco de estopa.

Quais os reflexos disso para a Democracia?

Que democracia? Baguncracia é o que temos. Cadê o direito à saúde, educação, segurança, habitação? Que democracia é essa? Só pra alguns. Há democracia só porque temos liberdade formal? Nem essa tem garantia. Cadê a liberdade material? Reflexo nenhum. Eleição, no Brasil de hoje, é pantomima. Direito pleno à democracia só às castas, com salários e mumunhas. Da democratização até hoje. A experiência petista foi uma lástima. Por ser uma expectativa de diferença. Não só não foi diferente como foi semelhante. Esmola não redime. Escraviza. Até nisso as duas experiências, do antes e depois, se assemelham, na escravização.

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Crê na possibilidade de uma ruptura mais séria mesmo sem a presença de um Exército, como em 64?

Os generais de 64 eram politiqueiros desde os anos Vinte. Tenentes. Depois, políticos coronéis, nos anos Quarenta. E generais, nos anos Cinquenta e Sessenta. Após a redemocratização, em 1945, sempre houve um militar disputando as eleições. Eurico Dutra, general, que derrotou o Brigadeiro Eduardo Gomes; O mesmo brigadeiro perdeu depois para Getúlio Vargas; Juarez Távora, general, que perdeu para JK; Teixeira Lott, general, que perdeu para Jânio Quadros. Aí, uma ironia triste: se o general Lott houvesse derrotado o farsante Jânio não teríamos tido uma ditadura militar. Foi o erro mais grave da eleição brasileira. Ainda hoje pagamos por isso.  Qual General, de hoje, anda falando de política? Nenhum.  Quem fala nisso é a imbecilidade do fascismo civil. Há um ensinamento da estratégia militar que diz: “Não tema o que seu inimigo quer contra você; tema o que ele pode”. Os militares de hoje não querem nem podem repetir 64.

Esquerda e direita construíram narrativas distintas para o afastamento de Dilma. Para a esquerda houve golpe; para a direita um processo de impeachment previsto na Constituição. Quem está com a razão?

O que é esquerda hoje? O que é direita? Não sei. Então não falo sobre o que não sei.

Muitos segmentos e políticos do PT, como Tarso Genro, cobram mudanças e uma autocrítica do partido. São suficientes para o partido recuperar sua força?

O PT e sua força é problema do PT. Não faz parte das minhas preocupações. Idem para PMDB, PSDB, e todos os outros Pês. Até os sem o Pê.

O atual modelo de presidencialismo de coalizão está esgotado?

Esgotado está todo o sistema institucional. Só uma Constituinte Originária, Exclusiva, restaurará a credibilidade institucional. Originária, por não dever vassalagem à ordem atual, preservando as conquistas democráticas e as liberdades fundamentais. No resto, pode mexer em tudo. Exclusiva, para ser dissolvida após a promulgação, com a quarentena do constituinte não poder candidatar-se às próximas eleições do parlamento a ser constituído. Ou isso, ou a mentira continuada.

Constituinte, parlamentarismo, eleição indireta (FHC de novo!?)… Com Temer ou sem ele, para onde caminhamos?

Para onde caminhamos? Não sei nem quero saber. Eu vou pra Cajuais da Serra. Você está convidado.

O Rio Grande do Norte, como os demais estados, vive uma crise profunda. Qual a sua avaliação do Governo Robinson Faria?

Governo Robinson Faria? Leia o discurso de posse e veja a prática. Dedico a Robinson Faria meu apreço e minha admiração. Um homem íntegro. Mas ele não pode dizer que não sabia da realidade que prometeu mudar. Vice-governador, conhecia o quadro. Correu o risco da promessa. E a promessa começa a falecer. Uma pena.

Como vê no RN os papéis do Judiciário, Legislativo e MP na crise?

Como vejo poderes e órgãos na crise? Não vejo.

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Que achou da indicação de Roberto Freire para o Ministério da Cultura?

Ministro da cultura? Que cultura? A cultura de Temer é a mesma merda da cultura de Lula. Tanto faz como tanto fez.

Dácio Galvão e Isaura Rosado se revezam no comando da cultura de Natal e do estado há muito tempo. Sem entrar no mérito da competência ou não deles, não existem outros nomes igualmente capacitados?

Dácio e Isaura? Dois amigos. O que fazem? Não sei. Tô longe…

Sua passagem pela presidência da Fundação José Augusto representou um marco. De lá pra cá ela não se aprumou mais nunca. Por quê?

Sobre a minha gestão na FJA, somos suspeitos. Você, Serginho e eu. Fazer o quê? Saudade. Mas fizemos um fuzuê, num foi? Restaurações do Forte, da Pinacoteca, do prédio da FJA. Criação das Casas de Cultura, Revista Preá, Teatro de Cultura Popular. Orquestra Sinfônica no interior. Recuperação do mamulengo. Ressurgimento do Araruna de Cornélio Campina. Ressurgimento do Boi de Reis de Manoel Marinheiro. Encontro de Filarmônicas, quase cinquenta, do Norte e Nordeste, em Cruzeta. Criação de pequenos teatros e bibliotecas pelo interior. Mas, como disse o poeta barbeiro de Lisboa, isso é tão pouco… diante da carícia da espuma!

Está com algum projeto literário engatilhado?

Engatilhado nem o meu antigo revólver, que não existe mais. Brigado pelas perguntas, se conseguir acreditar que estou mesmo agradecendo, e dê um abraço meu em todos daí. Tchau…

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Tácito Costa

Comentários

5 comments

  1. thiago gonzaga 23 novembro, 2016 at 17:20

    Maravilha de entrevista ! Parabéns, Tácito Costa.
    François Silvestre: Homem inteligente, de respostas refinadas e repleta de estilos literários: um literato de valor.
    E antes, que alguém me chame de babão, adianto; eu sequer o conheço pessoalmente.
    Porém, o mais importante; conheço bem sua obra literária, que é de imenso valor e de boa importância para a literatura do Estado.
    François se destaca muito bem, na ficção, na cronica e na memorialística. Embora curiosamente tenha estreado com poesia em 79 com Luz da Noite ao Vento Norte. Portanto, há exatos 37 anos.
    Parabéns escritor François Silvestre. Continuarei lendo suas entrevistas com entusiasmo.

  2. Oreny Junior
    Oreny Júnior 24 novembro, 2016 at 13:34

    Aprendi a admirar François Silvestre no início dos anos 80, ouvindo as cantorias de Vital Farias, Xangai, Elomar, Geraldo Azevedo. Na abertura, um poema de François: “Só é cantador quem traz no peito o cheiro e a cor de sua terra, a marca de sangue de seus mortos e a certeza de luta de seus vivos”.
    Parabéns pela matéria, Tácito!
    Abraços, François!

  3. Sueleide 12 dezembro, 2016 at 07:51

    Parabéns pela coragem de entrevistar François, Tácito,

    Apesar de curta (igual a paciência do entrevistado…), é sempre bom ter alguma entrevista para se ler do ilustre escritor.
    Esse meu primo a quem quero muito bem é muito impaciente com perguntas. Tô tentado criar coragem para entrevistá-lo em breve também, mas tenho medo do ‘obrigado pelas perguntas’ antes de ter debitado um terço delas…
    Abraços,
    Sueleide Suassuna

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