ENTREVISTA – Escritor Marcius Cortez

Tácito Costa
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Nesta quinta-feira, 17, o publicitário e escritor Marcius Cortez lança no Clube de Rádio Amadores (Av. Rodrigues Alves, 1004), a partir das 18 horas, a coletânea de crônicas “Presente de Natal.

Natural de João Pessoa-PB, mas com fortes laços afetivos com o RN, ele é autor de “O golpe na alma” (textos sobre o Método Paulo Freire, com quem ele trabalhou), “Barbaridades Críticas” (crítica literária) e “O deputado e as seriguelas” (romance).

Cursou Ciências Sociais na USP. Foi redator de propaganda e diretor de criação em grandes empresas como DPZ, JW Thompson e Norton Publicidade. Como crítico literário colaborou no Suplemento Literário do Jornal Gazeta Mercantil.

Leia abaixo a entrevista na íntegra.

Gostaria de iniciar pedindo para você falar um pouco sobre “Presente de Natal”.
O livro é fruto da vontade de falar de si próprio, porém, “sem narcisismo primário, lunático ou militante”. Vontade de embalar quem tem um lugar de origem, memória e deseja redesenhar afetos sem afetação.

O que o leitor pode esperar desse livro?
Gostaria do impossível. Gostaria que o leitor lesse “Presente de Natal” como Raulzinho, isto é, com uma delirante gargalhada. Veja na minha página no facebook a foto de Raul Prado Squeff em dois tempos. Ele, sério, lendo um trecho do livro e em seguida rachando o bico numa poderosa risada, flagrado pela mãe. Raul tem seis anos de idade e está em processo de alfabetização.

Onde estará à venda após o lançamento?
O livro será vendido apenas em raras livrarias. Mas para adquiri-lo entre em contato com chaminevoadora@hotmail.com para receber a obra em casa com dedicatória e assinatura do autor.

Terá edição digital?
Até o momento não está prevista a edição digital, mas Substantivo Plural me deu uma boa ideia.

No convite de lançamento tem uma foto massa em que aparece você, ao centro, Paulo de Tarso (à esq.) e Moacy Cirne (à dir.), todos muito jovens. Fiquei curioso em saber o contexto daquela foto.
A gente morava perto um do outro. A casa de Moa era um excelente refúgio. Pra detonar, pois estávamos irremediavelmente empesteados pela poesia, ficção, música, cinema e artes plásticas.

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O que você lembra com mais recorrência da convivência com estes dois importantes escritores potiguares?
Moa e Paulinho já eram show de bola desde os tempos que eles foram James Deans.

Foi uma geração de intelectuais marcada pelo golpe militar de 1964.
O Brasil era uma Madagascar. Desértica e fechada. Ainda bem que surgiu Glauber Rocha e a Abertura que devolveram aos loucos o direito deles instaurarem a República Tropicalista, que de uma maneira ou de outra, perdura até hoje.

Você fez parte do lendário Cine Clube Tirol?
O Cine Clube Tirol foi um afluente de formação, um marco na história cultural do RN. Uma entidade cultural aberta, como dizia de si próprio. Lamento não ter participado dessa festa. Em junho de 61 eu já havia me mudado para Recife. Mas no fim de 1960, de uma maneira bem pessoal, Moa e eu havíamos fundado o Cine Clube Marista.

Um dos momentos marcantes da sua biografia é o trabalho com Paulo Freire. Como foi essa convivência?
Sai de Natal “fundamentado”. Tudo que eu tinha aprendido aqui usei na entrevista com o educador Paulo Freire que queria contratar um repórter para “cobrir” o Serviço de Extensão Cultural da Universidade do Recife que iria coordenar a aplicação do seu método de alfabetização em todo o território nacional. Enfrentei uma fila enorme de concorrentes e até hoje não acredito que fui eu o escolhido. Quem conviveu com Paulo Freire será sempre um adepto da sua poeticidade. A poeticidade das suas convicções inabaláveis em torno da justiça social. A poeticidade da sua ação transformadora e democrática. A poeticidade de fazer o povo entender os conceitos de natureza e cultura. A poeticidade de sua rebeldia amorosa. A poeticidade da unidade na diversidade. A poeticidade de que ninguém é sujeito da autonomia de ninguém. Gosto de afirmar que PF foi o cineasta de Angicos. Paulo ia sempre para o lugar onde tinha luz e de lá apontava a sua câmera para a nossa noite.

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Você é paraibano, mas tem fortes ligações com o Rio Grande do Norte e já disse que, apesar de nascido em João Pessoa é potiguar de sangue e raízes (Coluna de WM). Como começou e evoluiu essa relação?
Explico isso na crônica “Presente de Natal”. Tive a sorte de ter excelentes professores em Natal. A sorte continuou. Fui aluno de gente como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, mas foi como se fosse o “acabamento”. A massa inicial, o cimento e a areia ganhei de presente da cidade de Natal.

Você tem uma trajetória profissional parecida com a de Nei Leandro, um pé na publicidade e outro na literatura. Como foi ao longo da sua vida compatibilizar essas duas coisas?
Um dia desses o ator Paulo Cesar Pereio apareceu lá em casa para apresentar a frase que deseja colocar no seu túmulo: “Semana que vem, eu me organizo”. Comecei a escrever no susto. Uma novela, depois um livro de memória, depois um livro de ensaios, agora um livro de crônicas e passei oito anos estudando Stanley Kubrick, obra que deverá sair no segundo semestre de 2017 pela Editora Perspectiva, “Stanley Kubrick, o Monstro de Coração Mole”. No momento faço uma adaptação de um premiado romance de um amigo meu, para o teatro. Quero encerrar esse passeio por várias narrativas escrevendo a história do cachorro vira-lata brasileiro. Em 2017, completará 22 anos que larguei a publicidade.

Um leitor definiu o seu novo livro como “uma versão mais despojada de que ainda dá tempo de parar o tempo para alimentar a fé lunática de continuar acreditando”. Eu pergunto: acreditar em que mesmo a essa altura?

Acredito no poeta norte-americano Wallace Stevens que apostava tudo na milagrosa razão que a imaginação é capaz de criar.

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Tácito Costa

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