“Farei tudo que minhas editoras detestem”

Redação
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Entrevista concedida ao jornalista Schneider Carpeggiani e publicada no Suplemento Pernambuco.

Há 20 anos, o escritor pernambucano Fernando Monteiro lançava um dos livros mais originais da literatura brasileira contemporânea, Aspades, ETs Etc, pela editora portuguesa Campo das Letras. O romance partia do chão em falso de um cineasta cult lisboeta e passava até por uma suspeita alienígena como forma de retratar nosso fascínio ilusório diante de um século que fora só imagens (naquela época eram lembrados os 100 anos do cinema).

Após um tempo se dedicando apenas à poesia, Fernando lança pela Confraria do Vento a coleção de histórias curtas Contos estrangeiros de Fernando Monteiro. Uma reunião de textos que só reafirmam o seu lugar sui generis como criador. Nessa conversa, ele fala, entre outras coisas, de como é “gostar mais da literatura do que das editoras”.

O título do livro, Contos estrangeiros, talvez diga muito do lugar da ficção em prosa dentro da sua produção. Por um lado você lançou poucos trabalhos apenas de contos na sua carreira (é o caso de Armada América); por outro, você havia que abandonaria a prosa em favor da poesia. Você poderia comentar o lugar que essa obra – e mesmo esse título – tem dentro da sua produção?

Sua pergunta me dá oportunidade de esclarecer o que se passou exatamente: em 2009, quando da publicação do poema longo Vi uma foto de Anna Akhmátova, eu quis marcar uma opção totalmente divorciada dos interesses da todas as chamados “grandes editoras” pelas quais lançava meus romances (Record, Globo etc). Fiz foco na poesia – e ainda faço –, mas eu estava querendo, na verdade, dizer: estarei fazendo qualquer coisa, a partir de agora, que as minhas editoras detestem o bastante para me detestarem também. Faltou só tornar mais claro o meu caminho de pedras, ao lado da poesia e de qualquer outro gênero que uma Luciana Villas-Boas recusasse de pronto (Luciana, a minha editora na Record, por três anos, e que pagava adiantamento de direitos autorais por qualquer livro meu que não fosse de poesia, conto e outras “merdas” – para ela). Então, onde estou agora e onde Contos Estrangeiros de Fernando Monteiro se “encaixa” é no carro da merda, para usar uma expressão de T. E. Lawrence. No dia em que as editoras – as grandes (porque as pequenas eu amo de paixão) – passarem a detestar o romance, talvez eu volte pra ele. Sei que nenhum colega de carreira compreenderá isso, porque eles, ou muito deles, amam mais as editoras do que a Literatura.

Contos estrangeiros de Fernando Monteiro retoma uma relação muito constante em toda sua obra, que é com o cinema. Seja no título dos contos – Stromboli, Paris, Fim -, e mesmo no andamento das tramas. Você podia comentar o quanto de devedora do cinema é sua produção literária?

Eu sou, em parte, feito de celuloide oxidado. Aprendi a ver “gente se mexendo” (dizia Bergson) pelas lentes que ampliam a realidade e nos forçam a desconfiar das palavras. Eu desconfio das letras, dos textos e de tudo que não seja tão claro quanto as garatujas de banheiros públicos, nos quais as portas terminam sendo como um palimpsesto de putos (pra lembrar Elvira Vigna – que nunca deixaram entrar e tomar posse da nossa literatura, com todos os direitos de uma Clarice mais clara e sem algumas danações da Ucrânia). Adotemos o estilo das garatujas e de tudo que não entre nas Academias e, igualmente, viaje para fora dos prêmios feitos de mesmices que não são nem mais “as visitas que nós estamos” (pra citar Antonio Geraldo Figueiredo Ferreira, que pouca gente sabe quem é – porque os palimpsestos dos putos da literatura escondem tudo que não seja combinado pra parecer bom na revista da Livraria Cultura de papel brilhante como catarro em parede. [Com esta resposta, a minha editora, a Confraria do Vento, talvez irá me dizer que meu novo livro de contos estará com os dias contados nas contas da Cultura]…)

Esse ano o seu primeiro romance, Aspades, ETs Etc, completa 20 anos do lançamento por uma grande editora portuguesa (Campo das Letras). Um livro que esteve à frente do seu tempo ou mesmo em sintonia com uma narrativa contemporânea que estava, no entanto, distante do que se fazia no Brasil em termos de literatura. Você podia comentar como foi o processo de escrita de Aspades e como foi a montagem (falando outra vez de cinema) dessa obra?

Aspades, ETs Etc nasceu de um ajuste de contas comigo mesmo (já que falei tanto em contas). O cinema completava 100 anos, quando comecei a escrever o livro, e eu desconfiava que a minha alma de celuloide poderia entrar em autocombustão na lata de lixo da vida. Como não acredito em técnica de escrever (nem em “oficinas”), como só escrevo “a pulso”, como prefiro viver a escrever, fui atrás do vivido – em Portugal e outros lugares – com uma câmera na cabeça e nenhuma ideia na mão livre, naquela mão que tateia para buscar avencas na sombra de um lugar onde nunca estamos, o lugar que nos mostra como o Outro, o lado “estrangeiro” da existência breve, incerta e, no fim, falhada (porque todo e qualquer “sucesso” é uma forma de traição. Devemos aspirar ao fracasso com uma enorme e sincera unção, ó coleguinhas em busca da Veja como tudo é istoÉ, na vida que não se pode dizer “é minha!”, segundo um poeta bizantino do século VI, chamado Paulo, o Secretário, cujos poemas eu citei em A interrogação dos dias (Edições Encontro, GPL, 1984). Então, o Aspades foi mesmo “montado” a partir do vidro partido do cinema dentro de mim. Para bem e para mal.

Um detalhe que gostaria de ressaltar nesse seu livro – e que poucas vezes é lembrando ao se falar da sua produção – é o do humor. Na verdade, de uma ironia que atravessa sua forma de apresentar o personagem e a ideia dos seus textos. Você poderia comentar um pouco sobre esse humor que atravessa suas obras?

Sem o humor, sem a porta lateral da ironia, eu já teria me suicidado com uma lata de querosene Jacaré. Provavelmente, não morreria, e ficaria tossindo pelo resto da vida (mas isso é outra história). Primeiramente, eu trato de rir de mim mesmo, é claro, depois tem Villas-Boas e Villas-Más e Villas-Matas para eu rir de (quase) matar a mim mesmo. Entretanto, o melhor riso é aquele que ainda se esconde no discreto sorriso do gato de Alice: um sorriso de espelho e de “segredos que não são para se contar” (como já dizia Branchú, meu autor preferido).

Você abre o livro com uma epígrafe de Paul Valéry – “Que seria de nós sem o auxílio das coisas que não existem?” – e que diz muito sobre o tipo de narrativa que encontramos nos seus textos: tudo parece estar em suspensão, a realidade aparece atravessada deliberadamente por uma vidraça de artifícios. Quais são as coisas que não existem que mais lhe interessam?

Não existe o fabuloso El Dorado – provavelmente nunca existiu (apesar da crença fervorosa de Fawcett), não existem os filmes que Vasco Aspades [personagem do romance Aspades, Ets Etc] não fez, não existe um romance escrito por Borges, não existe a poesia que Alexandre, o Grande, poderia ter escrito com o sol nos olhos, não existe a Baleia Branca como Melville a descreveu (e, daqui há pouco, não existirá mais baleia nenhuma), não existe edição brasileira dos poemas tristes do louco imperador Tibério em Capri… e não existe mais a Literatura como ela era. (O que existe, agora, no lugar dela, não me pergunte, que eu não responderei rsrs.)

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