Faulkner 120 anos: Vida e destino da família Sartoris

Bruno Rebouças
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Terceiro romance de William Faulkner, “Sartoris” (1929) retrata a saga da família homônima em meio a dois fatos históricos: a Guerra Civil Americana e a Primeira Guerra Mundial; escravidão e o papel da mulher na sociedade patriarcal são temas centrais do livro.

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Faulkner conta história da família marcada por duas guerras, nas quais morreram os patriarcas de cada geração.

Os Sartoris são como uma estrela cadente, desaparecem tão rápido como brilham. A vida e o destino dos homens da família são sempre os mesmos, e os nomes se repetem como uma tradição. Não importa o primeiro nome, o importante é se chamar Sartoris, para ter o destino está traçado.

Com uma violenta irreflexão e uma forma de viver personalista, o que eclipsa todas as mulheres atraí­das por uma pomposa e inútil fascinação, os Sartoris são um meteoro.

Ou uns selvagens, como afirma a senhora Jenny, viúva de John Sartoris, morto na guerra da Secessão, e condutora da mansão enorme e banca, no meio de uma fazenda reluzente ao bater o sol.

Sartoris é o terceiro romance de William Faulkner, publicado em 1929, e retrata a história da família homônima que passa por duas guerras: a primeira geração na guerra civil americana.

Os Sartoris são confederados, escravagistas contrários à  abolição, sendo este um dos principais motivos para que oitos estados do sul dos Estados Unidos declarassem independência do restante do paí­s, passando a chamar-se Estados Confederados da América. Nessa guerra lutaram os irmãos coronéis John e Bayard Sartoris.

Anos depois, com a vitória da União, os Sartoris vão outra vez a guerra, dessa vez a Mundial, através dos irmãos e netos do coronel Bayard, que levam os mesmos nomes citados acima.

O pano de fundo do livro é o pós I Guerra, mesmo cenário de outro livro de Faulkner, seu primeiro romance, A paga dos soldados, que comentaremos em outro tópico.

A geração perdida e a Era do Jazz

Faulkner, Hemingway e Fitzgerald tem algo em comum além de serem todos estado-unidenses: eles formam parte do que a escritora Gertrude Stein intitulou de a Geração Perdida.

No diálogo entre ela e Hemingway, em Paris é uma festa, Stein classifica todos os garotos que lutaram na guerra de tal modo porque eles já não respeitam nada e vivem bêbados.

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Após o fim da escravidão, milhares de negros migraram para o norte industrial, sobretudo para Chicago, e criaram uma cultura fantástica, em que o blues e o jazz se destacavam.

E os livros de ambos, dessa fase da história, retratam os jovens que lutaram no conflito mundial e as mudanças sociais e comportamentais de uma geração que sobreviveu a uma grande guerra e buscava alguma maneira estúpida de morrer.

Fitzgerald aborda a boemia e a efervescência daqueles anos, especialmente em O grande Gatsby, dessa Era do Jazz, intitulada por ele, de mulheres bebendo, fumando e de cabelo curto, e todo o glamour que as grandes cidades e os ricos e jovens apresentam

Já Hemingway trata essa geração e a guerra com tristeza e dureza, deixando claro que a guerra só pode ser nostálgica aos que nela não estiveram.

A Era do Jazz de Faulkner passa por um pouco dos dois: em A paga dos soldados e Sartoris é a volta de jovens a suas casas, mudados pelos horrores da guerra, pelo trauma da morte de amigos e familiares, com a diferença que em “A paga”, os soldados voltam com ferimentos expostos tentando regressar suas vidas anteriores, namoradas que, como Penélope, esperaram por eles, em alguns casos, ou tentando a reabilitação das amadas casadas com outros.

Personagens negros em destaque

Em Sartoris, esses jovens voltam em busca de emoção, evitando formar família, embora o façam uma hora ou outra.

A descrição da Geração Perdida é: Bêbados que já não respeitam nada, nem a vida.

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Dados imprecisos falam em 600 mil mortos na Guerra Civil Americana (1861-1865); como sempre, pobres e negros foram maioria.

Sartoris é pontual ao abordar várias dessas mudanças, especialmente entre um dos personagens negros, Caspey, que luta na guerra e volta para casa junto com o jovem Bayard para servir os patrões junto com a famí­lia.

O tema racial surge na relação entre brancos e negros no século passado. Esse tema voltou à tona quando um grupo de neonazistas saí­ram às ruas e enfrentaram civis, o que gerou a derrubada de vários monumentos aos confederados.

Isso reabriu uma ferida histórica mas nunca cicatrizada.

Uma das frases marcantes de Caspey ao pai, servidor fiel de todas as geraçes de Sartoris, atinge essa temática em cheio:

“Se nós servimos para salvar a França dos alemães, quero dizer que também servimos para ter os mesmos direitos que os alemães. Os franceses opinam assim, e se os americanos não aceitam, há maneiras de ensiná-los. Sim senhor, foram os soldados de cor os que salvaram França e América”.

A paga dos soldados e Sartoris

Tal qual em Palmeiras Selvagens, primeiro artigo da série em homenagem aos 120 anos de Faulkner deste Substantivo, a paisagem e as caracterí­sticas dos personagens das duas histórias se assemelham muito ao nordeste brasileiro, onde o nome de uma família ressoa muito mais que o de indivíduos.

Além da paisagem, do calor, da seca e, claro, dos hábitos de suas populações.

Tanto em “A paga” quanto em Sartoris, como o editor Conrado Carlos afirmou no artigo sobre Palmeiras Selvagens, algumas adaptações na fauna e na flora e Faulkner seria um grande intérprete da realidade nacional brasileira.

Em A paga dos soldados essas semelhanças são maiores, em que uma figura religiosa, polí­tica, ou simplesmente rica, é guia e exemplo influente para outras famí­lias.

Nesse caso trata-se do pai do tenente Donald Mahon, reverendo da igreja Presbiteriana. O personagem de Mahon volta da guerra com uma enorme cicatriz no rosto, o que levanta o tema dos feridos de guerra e suas sequelas físicas e psicológicas.

Os olhos da cidade estão voltados para a vida alheia, e fofocas surgem sobre outros dois personagens centrais do romance: Joe Gilligan, virtuoso soldado sobrevivente da guerra que, junto a viúva e atraente Margareth Powers levam Mahon para casa, após se conhecerem em um trem.

A paisagem é similar ao do interior do Rio Grande do Norte, onde depois do almoço as cidades se esvaziam devido a sesta.

Faulkner 120 anos_Bruno.5Mulheres são personagens centrais

Em “A paga”, os lances são mais individuais e personalistas. Em Sartoris, a famí­lia sobrepõe o tema da liderança individual. O sobrenome é maior que o de qualquer membro.

Em ambos romances, a figura de uma mulher se destaca e são a partir delas que a obra finaliza. Em “A paga” não comentarei porque seria revelar spoilers demais.

Em Sartoris, sim, se pode, porque vem de uma análise da senhora Jenny sobre homens da famí­lia e nos conduz ao desfecho da história posteriormente, o que não revela nenhum segredo da trama.

A famí­lia Sartoris sofre o mesmo destino dos Buendí­a, em Cem anos de solidão: o destino está escrito desde o nascimento e a história se repete com poucas diferenças.

Os Sartoris são confederados, lutaram na I Guerra, uns morreram de forma trágica e velhos, outros, jovens; uns buscaram a velocidade para encontrar o destino, outros, o destino veio através da velocidade das balas inimigas.

Como uma estrela cadente que rasga o céu em uma noite estrelada de verão, os Sartoris brilham e desaparecem. É uma maldição e não importa o nome que levem.

Se uma gota do sangue Sartoris passar por suas veias, o destino já está traçado de forma ufana e arrogante.

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Bruno Rebouças

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