Que cerveja é essa? Gulden Draak (Ou: Ninguém tentou enganar você)

Breno Machado
ColunistasGastronomia

Quem nunca se sentiu atraiçoado pela graduação etílica de alguma bebida, que atire a primeira pedra.

O confrade está lá, tranquilo, iniciando a degustação (às vezes entre aspas, mero eufemismo ao ato de entornar o pote) e, quando menos se espera, o horror, o horror.

Você está zonzo, obnubilado, se perguntando como apenas duas garrafinhas o derrubaram tão rapidamente. E a cereja do bolo, a clássica pergunta: “Essa tem quantos por cento de álcool, mesmo”?

Agora, para ser franco, eu julgaria o confrade bastante inocente se ele se sentisse enganado por uma cerveja cujo próprio estilo a denomina como uma Ale belga, escura e forte, como é o caso da Gulden Draak, o assunto da nossa conversa de hoje.

Recomendo não ler o texto de hoje em jejum, e deixar ao seu lado uma jarra grande com água. A gente vai precisar.

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Gante, capital de Flandres Oriental, na Bélgica

Quando o universo conspira

Certa feita, entre o final do século XIX e início do século XX, o município de Gent, capital da Flandres Oriental, na Bélgica, foi agraciado com uma cerveja que fez um sucesso estrondoso entre frequentadores  do café d’Helle, o mais popular da cidade.

Era a Drydraad, da cervejaria De Peer, trazida pelo empreendedor Jozef Schefault. Mas o que é curioso nessa história é que Schefault não apenas distribuía, como também produzia as cervejas da De Peer – presente de uma uma tia sem herdeiros, mas que reconhecia o talento do sobrinho.

Anos depois Schefault teria uma filha, Margriet, que casou-se com Paul van Steenberge, engenheiro químico que serviu durante a I Guerra Mundial no laboratório de Delft com o Professor Beyerinck, aluno direto do pai da pasteurização, Louis Pasteur.

O know-how de Van Steenberge em microbiologia, que não era pouco, conferiu um salto de modernidade às técnicas cervejeiras do sogro. Com a morte de Jozef Schefault, Paul assume a cervejaria a contragosto.

Mas quando está prestes a fechar, é Margriet quem põe um metafórico pé na porta e administra a De Peer, agora chamada Bios – Van Steenberge, que perdura como empresa de família até os dias atuais.

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Presente do rei da Noruega em 1111, estátua dourada do dragão está em Biervilet (“Rota da cerveja”, em português), ao norte de Gante e batiza uma cerveja; ela mede 3,5m de altura e pesa 400kg

Dragão Dourado

No cabalístico ano de 1111, o Imperador Aleixo I Comeno, de Constantinopla, foi agraciado pelo rei Sigrid Magusson da Noruega com uma belíssima estátua dourada de um dragão, com 3,5 metros de comprimento e quase 400 quilos.

Entre 1204 e 1205, em seu curto período como imperador de Constantinopla, Baldwin de Flandres ordena que a estátua seja levada para a vila onde nasceu, Biervilet (“Rota da cerveja”, em português; É, confrade, as coincidências não param!), ao norte de Gante.

O dragão já foi pivô até mesmo de uma infrutífera disputa por parte de Bruges, mas permanece um símbolo da cidade.

E mais que merecido, motivo de homenagem pela Van Steenberge, que batizou com seu nome uma cerveja marrom, relativamente turva.

Apesar de complexa e licorosa, ela é facílima de ser bebida, com seu dulçor, levemente torrada, picância na medida certa e notas de ameixa, caramelo e fermento belga.

E é aí que ela se torna traiçoeira, porque todo esse equilíbrio disfarça os seus 10,5% de teor alcoólico. Portanto, como todo dragão exigiria, tenha cautela ao enfrentá-lo!

Notas

Quando você toma uma cerveja como essa, poucas cervejas permanecem as mesmas. Tanto a curto prazo (certa feita tentei beber uma lager de massa logo após uma Gulden Draak, e ela não desceu redondo!), como a longo, no quesito opinião.

Se o confrade apreciar a experiência dela, considere como uma entrada oficial e sem passagem de volta ao nosso universo cervejeiro! Ein prosit!

gulden-draak-2E então, que cerveja é essa?

Nome: Gulden Draak

Cervejaria: Brouwerij Van Steenberge

País de origem: Bélgica

Estilo: Belgian Dark Strong Ale

Álcool: 10,5% ABV

Harmonização: Pato, chocolate amargo, tiramissú.

Temperatura ideal: 8 – 12 °C

Copo: Tulipa

Taça: Cálice Trapista

Média de preço: R$ 30 – 40 (Garrafa de 330 ml); R$ 80 – 90 (Garrafa de 750 ml)

Onde encontrar: em lojas e conveniências especializadas em cervejas especiais.

Gostou dela? Recomendo Trappistes Rochefort 8, St. Bernardus Prior 8 e Chimay Blue

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Breno Machado

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