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Horácio Paiva fala sobre seu novo livro “Caderno do Imaginário”

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Nesta quarta-feira, 03, a partir das 18 horas, na AABB (Av. Hermes da Fonseca – Tirol), o poeta Horácio Paiva lançará “Caderno do Imaginário”, o seu terceiro livro de poesia. Na entrevista abaixo, ele fala sobre essa nova obra, do “movimento dos novíssimos”, sua trajetória literária, e cita poetas que lê com frequência.

Embora você tenha iniciado a militância poética cedo, demorou a publicar em livro seus poemas. Por quê?

É que cedo, também, manifestou-se outra militância, de cunho coletivo, social, envolvente sob o ponto de vista do humanismo fraterno, que requeria ação imediata, e não pude abster-me: a liberdade e a democracia. Por quase duas décadas (o tempo da epopeia de Ulisses!), dediquei-me, quase que integralmente, a uma luta sem fim, participando da organização e mobilização popular, criando e integrando entidades, no meio sindical e fora dele, articulando, viajando, exercendo a política – esta mais do ponto de vista moral e social que partidário. Embora tenha convicção da importância do fazer poético para a humanidade e sabendo-o incomensurável porque também imprescindível ao aperfeiçoamento da vida social e ao próprio viver individual (daí seu caráter não apenas estético, mas ainda profético, filosófico e moral), naquele período senti-me dividido e, mesmo sem querer distinguir prioridades e sem abdicar da reflexão e da poesia, abracei a luta e a questão social, escrevendo menos durante essa jornada homérica.

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Capa

Fale sobre o “movimento dos novíssimos”, do qual você foi um dos participantes?

O movimento é da década de 1960 e surgiu, mais precisamente, no início de 1963. Além de mim, participavam, dentre vários outros, Franklin Capistrano, Dailor Varela, Walter Varela (Walter Berbe), Marcos Aurélio de Sá, José Arnaldo, Ivan Sérgio Freire de Sousa, Iaperi Araújo, Francisco Antônio Cordeiro Campos, e os irmãos Anchieta Fernandes, Fernando Gurgel Pimenta e João Charlier Fernandes. Nasceu, pois, em meio à amizade e à identificação de valores estéticos de um grupo de jovens escritores que buscavam um espaço de interação, onde pudessem discutir ideias, expor e divulgar suas criações literárias. Para tanto procuraram organizar-se, daí a primeira denominação que foi dada a tal “organização”: Salão de Letras e Artes. E cada membro tinha um patrono ilustre (o meu era Fernando Pessoa). Mas isto, de certa forma, traduzia academicismo, e nós – à época, jovens, engajados, admiradores da vanguarda – logo encontramos algo melhor para nos definir, formando o chamado “Movimento dos Novíssimos”. O “movimento” teve uma boa repercussão e foi bem acolhido pela comunidade dos jovens amantes de literatura. Dos mais velhos, também ouvíamos elogios. Aliás, chegamos mesmo a ter uma coluna no jornal católico “A Ordem” que, à época, era um periódico semanal vendido nas bancas e de grande circulação em Natal. A coluna (dos novíssimos) foi editada por Marcos Aurélio de Sá, que já escrevia para o jornal, e Walter Varela.

Seu ativismo social e político atrapalhou sua trajetória literária?

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Contracapa

Na curva do tempo, sim, porquanto compus menos e demorei a publicar. Mas, por outro lado, e como já disse certa vez, não me arrependo de haver colocado as aspirações coletivas à frente de minha própria vocação pessoal. A causa era nobre e através dela iniciei um processo interior e salutar de renovação, firmando as bases de meu estoicismo atual e consolidando o caminho de minha conversão e retorno ao cristianismo.

A impressão é que você deixou a poesia, durante anos, mas ela não te deixou. Foi isso?

Só impressão, caro amigo Tácito, porque nem mesmo deixei a poesia. Escrevi menos, bem menos, é verdade, mas não houve separação. No fundo, eu sabia que viveríamos eternamente juntos e, num belo dia, eu voltaria a fazer-lhe declarações de amor – e desta vez muito mais numerosas.

O que mudou, em termos de dicção poética, entre “Navio entre espadas” (2002), e este “Caderno do imaginário”?

“Navio entre espadas”, meu primeiro livro editado, em 2002, publiquei-o tardiamente, aos cinquenta e seis anos, quase cinquenta e sete. Reúne poemas de várias épocas, alguns escritos ainda na adolescência. Um deles, “Tempo”, aos dezesseis anos (publicado em 1961, no jornal macauense “O Nacionalista”); outro, “Fuga”, aos dezoito, este publicado aqui em Natal, em 1963, no jornal “A Ordem”, na coluna dos “novíssimos”, editada por Marcos Aurélio; “Ausência”, publicado numa edição domingueira do Diário de Pernambuco, em 1971, juntamente com outros poemas de minha autoria – uma surpresa que me fez o grande poeta pernambucano César Leal, que também era meu professor de teoria literária na UFPE; já “Górgona”, um poema visual, é da década de 1990 e foi publicado pela primeira vez em 1997, numa antologia organizada por J. Medeiros, intitulada “Geração Alternativa – Antilogia poética potiguar”. Portanto, “Navio entre espadas”, um filho a quem quero muito bem, é uma reunião, uma soma de vários poemas, e navega entre águas agitadas e calmas. Nele não há coesão estilística, embora haja minha marca emocional em cada poema. Já o “Caderno do imaginário” (2017) nasceu após o sonho de “A torre azul” (2012) e precede outros dois, ainda não publicados: “Sou de Deus – 33 poemas de inspiração religiosa” e “Navio azul imaginário – Poemas selecionados” (em organização). Quanto ao cerne da questão que você me propõe, e que se refere a mudança em termos de dicção poética, diria que, como bom discípulo de Orfeu, embora não fale grego, trilho o caminho de uma poesia cada vez mais profética, e, no diálogo com o mistério, mais inquiridora, mais cotidianamente admirada com a existência, sua metamorfose, suas infinitas possibilidades.

Em que fontes você bebeu para escrever este seu último livro? O que o leitor deve esperar?

As fontes são eternas e os livros, parodiando Borges, os livros são um único livro. Mas há um olhar dialético sobre essas fontes eternas, que traduz diferentes maneiras de interpretá-las. Há um poema meu (“Ideologias”), ainda não incluído em livro, em que digo: a fonte não secará, mas jamais será a mesma. A fonte é como o humanismo: não é uma cartilha, e haverá sempre novas e adequadas maneiras de exercê-lo. O caro leitor irá deparar-se, como eu, com “uma caverna incógnita/ sob as estrelas/ grilos/ e/ alguém/ que sonha”.

Que poetas lê com frequência?
Todos os dias leio poesia. Sou um leitor voraz de poesia, desde muito jovem. Gosto de uma grande variedade de poetas. Alguns frequentemente ressurgem, mas, mesmo estes, são numerosos. Estou organizando uma antologia, com poetas e poemas que mais me marcaram, que mais li e reli. Já escrevi cerca de uma dúzia de capítulos, incluindo Fernando Pessoa, São João da Cruz, Camões, Bashô, Manuel Bandeira, Gonçalves Dias, Kaváfis, Quintus Horatius, Walt Whitman e vários outros. Mas falta a maioria. Homero, Ovídio, Tagore, Verlaine, Garcia Lorca, Neruda, Robert Frost, Mário Quintana, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Carlos Drummond, Carlos Pena Filho, por exemplo. O próximo capítulo, “Paul, Paul & Paul” contemplará Paul Claudel, Paul Éluard e Paul Celan. Gosto muito dos portugueses, de Antero, de Cesário Verde, Florbela Espanca, do amigo de Fernando Pessoa, também da geração do Orfeu, Mário de Sá-Carneiro. Dentre os mais recentes, destaco Eugênio de Andrade, Sophia de Mello Breyner e Herberto Helder.

Um poema do livro:

A HORA RASA

não há mais onde abrigar-se
o quarto é um símbolo mudo
e a calmaria
sinal de perigo

os odres estão vazios
e muita cautela é preciso ao pisar
as nuvens de silêncios inflamáveis

outrora havia rumor de tambores
que anunciavam a chuva
mas os ventiladores pararam

o quarto está despido
sem sombras e sem luz
sem qualquer movimento de espera
exceto a expectativa
de que uma porta se abra
e exponha o jazigo
à exterioridade dos ruídos

Orelha escrita por Félix Contreras (*)

UM GRANDE POETA DA PEQUENA MACAU

Platão quebrava a cabeça numa encruzilhada dicotômica: andar entre as pedras da poesia e as da filosofia, nesta peleja que se vem repetindo com múltiplas e persistentes variações através da história da cultura até a atualidade. Mas Platão não previu, não viu que esse antagonismo filosófico contra os poetas iria esbarrar num poeta chamado Horácio Paiva, produtor de uma poesia dona absoluta da harmonia, onde cada poema seu é uma mágica mescla, combinação de filosofia, poesia e linguagem – e daí sua encantadora polissemia -, mistérios semânticos e sintáticos nutridos do valor imaginário que vibra na potencialidade de seus poemas, de sua poesia tão próxima da poiesis dos gregos.

A poesia do sempre menino da Macau do Rio Grande do Norte cria um rico diálogo interdisciplinar entre diversos campos de ação letiva, tempo, mecânica de leitura, cultura e vida cotidiana.

Uma poesia cada dia nova e surpreendente, auroral, donde (como em toda poesia autêntica) se desenvolve uma dialética com o conflito ancestral entre a “inocência” da poesia – ou do poeta – e o saber, a erudição e a razão, e tudo coroado ao final com imagens e metáforas magistral e assombrosamente conectadas ao histórico, ao cultural, a um ar perceptivo disso que chamamos poesia, aonde assomam os temas cruciais de hoje e de sempre.

Felizes dias e anos com a poesia do grande vate da fascinante Macau do Rio Grande do Norte.

(*) Poeta, ensaísta e jornalista cubano, graduado na Escola Nacional de Instrutores das Artes, de Havana. Periodista de “El Caimán Barbudo”, foi redator da “Juventud Rebelde”, “Revista Cuba Internacional”, “Revista Bohemia”, “Casa de de las Américas”. É autor de oito livros de poesia e música.

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Tácito Costa

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