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A importância da política e o uso dos memes no golpe de 2016

A criatividade é um dos aspectos marcantes dos brasileiros. Tratando-se de política, não é de outro modo: tal aspecto é evidenciado nas redes sociais, sobretudo, pelo acervo de memes referentes à crise política brasileira, cujo desdobramento foi o golpe jurídico, midiático e parlamentar de agosto de 2016. Os memes são imagens ou frases marcantes o suficiente para se tornarem alvo da imaginação dos usuários das mídias digitais. Sendo assim, o curso do golpe foi notório pela captura de memórias que, embora acenassem para a tragédia da política brasileira, tornaram-se cômicas na rede. Isto posto, o seu significado consiste na erosão da hierarquia, no imediatismo do consumo de informações e na ausência de respeito. Com tais características, qual é o seu papel em meio à crise e ao golpe?

Para o filósofo sul-coreano Byung-chulHan, “estamos embriagados com as tecnologias digitais e, como efeito disso, somos incapazes de avaliar plenamente as suas conseqüências” (“No Enxame: reflexões sobre o digital”. Lisboa: Relógio D’água Editores, 2016). No tocante à política, os intensos fluxos de informações que consumimos são de maneira generalizada, ligados à corrupção(como, entre outros exemplos, flagrantes de pessoas com malas de dinheiro, prisões, áudios vazados e ações e operações judiciais complexas e midiatizadas,como a Lava Jato), tudo isso são resumidos em frases superficiais e imagens para consumo imediato que, como salienta Han sobre as tecnologias digitais, criam um olhar incapaz de fluir e estabelecer narrativas.

Uma notícia e seus desdobramentos que gerou muitos memes foi a de um áudio divulgado pelo jornal Folha de S.Paulo no qual o senador Romero Jucá (PMDB-RR) e o empresário (ex-presidente da Transpetro) Sérgio Machado claramente antecipam o desfecho do espetáculo reacionário (o impeachment da presidenta Dilma Rousseff), orquestrado por um “grande acordo nacional”, como nomeou Machado, e organizado “com o supremo, com tudo”, conforme complementa Jucá. Ambas as frases,que tornaram-se memes na rede, são oriundas de situações que perderam a capacidade de sustentar o respeito, a solenidade e a seriedade, o que implica em uma espetacularização do assunto. Uma parte do diálogo foi o seguinte:

Machado – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel.

Jucá – [concordando] Só o Renan que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

Machado – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

Jucá – Com o Supremo, com tudo.

Machado – Com tudo, aí parava tudo.

A repercussão (e o conteúdo) dessas falas pode levar à compreensão da política como algo necessariamente sujo, onde todos são “iguais”, agem da mesma forma, sem distinção. Só querem se dá bem. Sendo assim, não há nada que possamos fazer para mudar isso. De acordo com Han, estamos distraídos demais para produzir a energia épica da ira, uma vez que a comunicação digital produz uma multidão sem capacidade de ação, no sentido de criar um novo estado de coisas. À vista disso, o que podemos esperar da política? Nada de novo. Sob tal enfoque, o exercício profundo da reflexão, tão necessário à participação política, não encontra espaço diante da imediaticidade da sociedade da transparência.

Nesta, existe uma grande circulação de informações, porém, em contraposição ao caráter exclusivo e seletivo da verdade, a informação é aditiva e cumulativa. Dessa forma, tal sociedade padece da falta de verdade, posto que somente o vazio é totalmente transparente (Byung-chulHan, “Sociedade da transparência”. Petrópolis: Vozes, 2017). Para ele, a massa de informações e de imagens são apenas um enchimento, onde “se faz sentir o vazio”. Em razão disso, toda a potência inventiva dos memes se transforma em energia dissipada, visto que não é canalizada para questões essenciais, tais como: que interesses está por trás desse “grande acordo nacional”? Quais são os seus efeitos para a democracia brasileira? O impeachment foi a solução para quê?

Nesse sentido, os memes são exemplos de atuação em um espaço que conforme descreve Han acerca do meio digital, é de difícil controle, culminando na transformação da economia do poder na comunicação política, pois referem-se a uma comunicação simétrica na medida em que, da mesma forma que é consumida, é produzida simultaneamente.

Com caráter provocativo, os memes podem ter a intenção de criticar (com fundamento ou não), ofender e enaltecer, entre outras finalidades, além de oferecerem um prazer psíquico que funciona como um tipo de válvula de escape, isto é, um modo de escapar de situações desfavoráveis. Podemos não entender o que está acontecendo, mas sabemos que não está certo. Um tipo de resistência? Pode ser. No entanto,não tem poder de mobilização que, por exemplo, possa levar as pessoas às ruas.

Por outro lado, as redes sociais digitais oferecem um meio relativamente novo, que, para o bem ou para o mal, reflete na política. Nesse sentido, o poder dos memes é concentrado na sua capacidade de veicular ideias (verdadeiras ou falsas). Logo, entendendo como isso funciona, é possível canalizar politicamente tal potencialidade de acordo com interesses. Isso não é nenhuma novidade, haja vista o uso de programas de computadores fabricados para propagar, manipular e influenciar as decisões políticas. Em outras palavras, estamos em meio a um enxame digital (nos termos usados por Han).

O problema é que a política envolve decisões muito importantes para serem feitas sem reflexão e paciência. O áudio supracitado foi apenas um detalhe dessa massa de informação que nos assedia na rede, mas também sintetizou a trama de um golpe que como qualquer articulação política, foi movida por interesses. Como exemplo dos seus resultados, podemos citar a reforma trabalhista, a reforma da previdência e o congelamento dos gastos públicos por vinte anos etc. Portanto, somente quem não entendeu o processo e seus desdobramentos não ficou preocupado. O acordo, na expressão do senador Romero Jucá, foi “com o supremo”, (alusão ao Supremo Tribunal Federal- STF) e, claro, deveria incluir os interesses do povo, não levados em consideração no que ele chamou de “grande acordo nacional”.

Como efeito, a percepção desse tipo de discursos e práticas no parlamento de quem deveria representar os interesses da sociedade e não apenas seus próprios interesses, pode levar a ideia de que é a essência de atividades sujas e corruptas que chamamos de política. Entretanto, é necessário entendermos que fazemos parte desse jogo e devemos estar atentos para esse tipo de representante e comportamento e não aceitá-los, caso contrário, facilitamos para que os políticos como esse e outros, governem como bem entenderem. Contrariamente ao que muitos pensam a política não é uma coisa que envolve apenas discursos, promessas, mentiras, corrupção, votos, eleições e, agora, memes. Muito mais que isso, trata-se, fundamentalmente, da organização da vida coletiva, mas, também, individual, da nossa miséria ou prosperidade e do nosso acesso ou não à saúde e à educação etc. Faz parte de nossa vida, de nosso cotidiano e não podemos ignorar e nem deixar que falem em nosso nome quando não fomos consultados.

Por essa ótica, o significado da política é bem mais abrangente. Sendo assim, não devemos resumi-la à forma com a qual os políticos a exercem. Ademais, para lutar contra os retrocessos do atual governo, precisamos da política, o que não exclui a política dos memes, uma vez que a seriedade destes consiste nos interesses que mobilizam. Por fim, fingir que a política não existe e se considerar “apolítico” não vai fazer com que ninguém seja melhor que os políticos. Se não podemos levá-la a sério, estamos perdidos!

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