Javier Marías e a incerteza da espera

Bruno Rebouças
DestaqueLiteratura

Novo romance do espanhol, “Berta Isla”, traz história de casal e uma questão: vale a pena ficarmos à espera da volta de alguém, ou devemos enterrar o passado e viver surpresas e incertezas que só o futuro oferece?

Javier Marias_2

Madrilenho Javier Marías Franco é um dos principais escritores espanhóis.

Ulisses foi à  guerra de Tróia e sua esposa Penélope o espera. Os anos se passam e nenhuma notícia se Ulisses segue vivo ou morto. Penélope o espera fiel, leal e resignada.

Vinte anos depois e Penélope segue a espera sem fim. Seu pai sugere um novo casamento e Penélope resolve aceitá-lo, com uma condição: que o casamento seja realizado quando finalizar um sudário para o pai de Ulisses.

Penélope, o sí­mbolo da fidelidade, costura pela manhã e desfaz o trabalho à  noite. Ulisses volta…

É assim que enxergamos Berta Isla, nome da personagem principal e do novo livro de Javier Marí­as. Berta Isla é a Penélope moderna.

Porém, mais leal que fiel. Mas igual de resignada, forte e esperando seu marido, Tomás Nevinson, retornar de missões secretas a serviço da majestade, a rainha britânica. Berta é madrilenha; Tomás, inglês.

A liberdade é incolor

O primeiro aspecto que chama atenção da nova obra de Marías é a capa, contrariando o dito que não se deve comprar um livro por ela. Este sim. O olhar hipnotizante de uma mulher que, ao mesmo tempo aparenta delicadeza, fragilidade encantadora, força e esperança, independência e fascinação. Ao longo das 544 páginas será a fascinação visual da modelo que dá vida a Berta Isla e a força da personagem que nos acompanhará até o fim.

O outro aspecto que chama atenção é a dupla voz da narração. Nos primeiros capí­tulos, o narrador onipresente introduz a história e as incertezas vividas pelo jovem casal até chegar na fase adulta e o começo do condicionamento da relação causado pela distância.

Após esse perí­odo, Berta Isla assume o papel de narradora em primeira pessoa e a leveza de Javier Marías, sua poética segura e pontual, nos conduz por uma Madri inicialmente franquista, passando pelo pós-franquismo e todo o movimento de transição de regime.

Madri volta a obra de Marí­as e como na obra de Francisco Umbral, aqui comentada em outras ocasiões, a capital espanhola surge não somente como cenário de uma história encantadora, de resistência, liberdade, amor e lealdade, mas também como um personagem importante para o enredo.

Por falar em liberdade, uns dos diálogos mais valorosos da obra tem como temática esta palavra, conceito ou ideia que, segundo Dom Quixote, é um bem dado pelos céus e pelo qual vale a pena lutar.

Segredos e ocultações, não necessariamente mentiras

Tomás e Berta são dois seres diferentemente iguais. Tomás detém a capacidade de imitar qualquer tom de voz e reproduzir qualquer idioma sem sotaque. A vida de Nevinson está presa ao talento a serviço de sua majestade, e por isso sua liberdade é condicionada a missões secretas que nem Berta, nem nós, sabemos.

A de Berta está condicionada pela falta de liberdade de escolha do seu marido e condicionada a uma espera que de dias de distância convertem-se em meses e, logo, em anos.

Porém, ao passar por todo o relato em primeira pessoa da personagem principal, o que fica de lição é que: a liberdade não é somente uma questão de movimento, mas, especialmente, de escolha.

E Berta escolhe esperar… Nevinson tem que fazê-lo. Assim, Berta tem a liberdade. Seu marido, não. E por isso essa talvez seja a maior declaração que possa existir por parte dele. “A única coisa que escolhi com liberdade foi vocꔝ.

Outra lição é que em todas as relações existe um certo ní­vel de segredos e ocultações, não necessariamente mentiras. E esse é outro aspecto ensinado por Marí­as em Berta Isla: “a gente nunca sabe o quanto de segredo temos que ocultar”.

los-signos-del-aguaUma vida sem esperas e incertezas é insuportável

No lançamento do livro, em uma das salas do Cí­rculo de Belas Artes, em uma das avenidas principais de Madri, Javier Marí­as disse que a vida sem incertezas e sem espera seria insuportável.

Esperar, como Penélope, Berta Isla, Florentino Ariza (O amor nos tempos do cólera – Garcí­a Márquez), Ricardo Somocurcio (Travessuras da menina má – Vargas Llosa), independente de ser homem ou mulher, está relacionado com a esperança, embora nem todas as esperas, como a de Gilliatt em Trabalhadores do Mar, de Victor Hugo, conte com esse ingrediente essencial.

A de Berta é comovente e dramática, e em muitos momentos sem esperança.

“Durante um tempo não esteve segura de que seu marido era seu marido, de maneira parecida a como não se sabe, em um sono inquieto, si se está pensando ou sonhando, si ainda conduz sua mente o a perdeu por cansaço. Às vezes creia que sim, às vezes creia que não, e às vezes decidia não crer nada e seguir vivendo sua vida com ele, ou com aquele homem semelhante a ele (…)”.

Assim começa… Embora a espera por Tomás seja a causa de Berta, é ela e não ele o grande protagonista da história, ao menos a meu entender, pois ela não se limita somente em esperar, embora isso faça parte da sua vida e rotina.

Ao final do livro cabe a cada um concluir a reflexão que levantei ao finalizá-lo:

Vale a pena ficar preso ao passado, esperando  – com e/ou sem esperança – a volta de alguém com a resignação necessária, ou seguir em frente e enterrar um passado, e viver as surpresas e a incerteza que só o futuro nos causa?

Javier Marías.berta isla

Além do casal Berta e Tomás, Madri ‘protagoniza’ romance.

A época mais hipócrita vivida por Javier Marí­as

O Substantivo Plural esteve no lançamento de Berta Isla. Antes dos autógrafos, Javier Marías foi sabatinado pelo jornalista e poeta Antonio Lucas, e além de comentar sobre o livro, tratou de diversos temas.

Alguns pontos merecem destaque, como a frase que intitula este subtí­tulo, o que nos remonta também a atual situação social brasileira, com uma divisão em opiniões odiosas, muitas vezes sem fundamentos, baseados em uma crença hipócrita, desinformada e estúpida como a que diz que “nazismo é de esquerda”.

Além de uma falta de conhecimento histórico gigantesco, sem excluir nem um dos lados em combate.

Sobre reações e disseminação do ódio pelas redes sociais, Javier Marí­as afirma:

“Quando muita gente reage de maneira verbal violenta, essas pessoas não estão convencidas do que pensam e opinam”.

Solicitando a análise de Umberto Eco, redes sociais organizaram idiotas que antes se resumiam a conversas de bar e cí­rculos pequenos.

Marías tem sua própria análise a respeito da temática e ela reflexiona muito o atual momento do Brasil. De acordo com ele, nos ensinaram que toda a opinião é respeitável, mas não deve ser assim.

O ensinamento devia focar em: “nem toda opinião é respeitável. Ter o direito de opinar é respeitável”. Como o direito de votar em um candidato que homenageia torturador deve ser, mas defende-lo com desculpas frágeis não é.

Para Javier Marí­as, a atualidade hipócrita está condicionada ao pensamento que diz: “se uma opinião contraria a minha, ela não pode ser respeitável”. E isso ocorre na direita ignorante brasileira e na cega esquerda nacional. Todos podem opinar. Mas nem todas as opiniões são respeitáveis. Nos ensinaram mal.

Share:
Bruno Rebouças

Comentários

Leave a reply