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Jeovânia P. lançará Palavras Poéticas nesta terça, 14

jeovania

Na próxima terça-feira, 14/03, a partir das 19 horas, no Bardallos, no centro, a poeta Jeovânia P. lançará o seu livro de poesia Palavras Poéticas. O evento contará com recital poético e show de Pedro Mendes. Leia abaixo poema da autora e apresentação da obra, assinada pelo professor e escritor Márcio J. S. Lima.

MERGULHO

Amar
É faca de dois gumes
Todos dois muito afiados
Amar
Com um riso enfeitando o rosto
Um não sei o que dando novas cores
Para tudo o que se vê
Amar intensificando as batidas do coração
Fazendo do tambor sua escola de samba
Na voz do amor
Amar é um mergulho
A sensação gostosa do corpo caindo
Batendo no mar
Sem saber se no fundo há pedras
Se irá sobreviver
E mesmo não sabendo
E tendo a certeza do risco
Amar

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PALAVRAS POÉTICAS

A linguagem artística possui a virtude de transformar palavras em obra de arte. É justamente essa a proposta da obra Palavras Poéticas de Jeovânia P. Nela a autora brinca despretensiosamente com as palavras ao mesmo tempo em que expõe, com muita sensibilidade e reflexão, seu pensamento acerca da arte de poetar.

Em Palavras Poéticas, a vida cotidiana é explorada na sua mais completa gratuidade. Enquanto reflete, Jeovânia P. joga com as palavras e escreve acerca de temáticas próprias e constitutivas da vida como: o amor, a morte, a existência e a liberdade. Aliás, a liberdade parece ser a temática principal da primeira parte da obra. A liberdade do ser, a liberdade do indivíduo, a liberdade que perdemos diante da imposição.

A extinção da liberdade está presente no poema Docilmente quando a autora sutilmente nos mostra como o sistema tornou o homem um animal dócil.

Somos
Fomos
Educados
Para sermos
Dóceis

Para Jeovânia P., éramos livres, a vida não tinha pressa. Até que apareceu “um cara mal encarado” e nos deu pasta, paletó, carro, contas, cartão… Daí então, o homem se tornou escravo e agora tenta em vão retornar à liberdade. É exatamente dessa forma que:

A Liberdade é coisa que só existe antes
De ser nomeada
De ser criado seu conceito
Seu antônimo
Antes
Da ideia de prisão
De escravidão

Na poética de Jeovânia P., o sujeito dialoga com seu ego no brilhante trocadilho de palavras entre o eu e o espelho. Nela o espelho é o ponto de inflexão entre o eu interno e eu externo que busca a unidade a partir da projeção de sua imagem.

No poema Angústia, a proximidade com a filosofia é evidenciada quando a angústia, relacionada ao Ser e ao Nada, faz lembrar a corrente existencialista e seus pensadores, sobretudo, Kierkgaard, Sartre e Heidegger.

Em Palavras Poéticas, o poeta está em primeiro lugar. Já no início da obra, a autora mostra como este “Aprendeu de uma hora para outra a brincar com as palavras” e, mais tarde, arrancou delas o som. O poeta é aquele que corre atrás do poema. Aquele que faz a palavra se movimentar. Seu lugar é:

Nas noites
Nos copos de uísque
Nas mulheres
Nos versos
Na vida para levar

No poema intitulado No tempo do poeta, Jeovânia P. nos mostra que este “vem de um outro tempo”. Não é sua pele ou seu cabelo quem denuncia sua grandeza, mas sua linguagem e seus modos. Ser poeta não é conhecer nem possuir o domínio de uma técnica, ser poeta é antes de tudo, possuir um estilo de vida.

Para Jeovânia P., o “poeta tem uns desejos estranhos, faz amor com as palavras”, traça com elas todo um jogo de sensualidade. Quando não se contenta em apenas olhar a flor ou sentir seu cheiro, ele resolve usar a língua, os verbos, a concordância e transforma artisticamente tudo isso em poesia.

O amor e suas frustrações também são abordados em Palavras Poéticas. Em Amor de vidro, Jeovânia P. nos mostra que este quando se quebra nada pode fazer. Já em Foi, a transitoriedade da paixão deixa explícita que quando o amor vem e se vai, sem deixar notícia, o resultado pode ser devastador. Estes e outros poemas da obra nos fazem perguntar “Quando as lágrimas não precisarão mais brotar e o riso tomará conta de nós?”

As maravilhas da vida também são apresentadas em poemas como Tons do céu ou Sentada, onde:
Sentada no azul da solidão
Contempla o tempo
As coisas do mundo
Os seres
Até mesmo os invisíveis

Poemas-crônicas como Casa de Donana e Na casa de Dona Lucia narram as ações do cotidiano e mostram que o corriqueiro, o simples e o normal também possui sua beleza. O dia-a-dia também tem sua poesia, pois se trata da própria Vida se fazendo e se mostrando assim como ela verdadeiramente é, ou seja, sem pretensão, sem finalidade e sem ponto de chegada.

Como não poderia faltar, a certeza da morte e a brevidade da vida também é explorada na poética de Jeovânia P. Segundo o eu lírico da poetisa, “a morte é coisa que se dá todos os dias.” Assim sendo, seu beijo é “sedento de sangue e de dor”. Se pudéssemos não a beijaríamos, mas é beijando-a que tudo se finda.
Márcio J. S. Lima
Professor, escritor e criador do blog escritosmarginais.com

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