La La Land: sonho desencantado

Gustavo Bittencourt
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Antes de La la land, americano Damien Chazelle, 31, chamou atenção com filme Whiplash e suas cinco indicações ao Oscar em 2015

Damien Chazelle disse em entrevista que escreveu e dirigiu o filme Whiplash: em busca da perfeição (Trailer), sobre dificuldades emocionais e profissionais de um baterista em uma instituição regida por exigências implacáveis, para provar sua competência.

Respeito angariado, o diretor retoma sua obsessão pelo Jazz visto sob a perspectiva ultrarromântica do protagonista vivido por Ryan Gosling, para conquistar o público com La La Land: Cantando Estações.

Seu novo filme possui motivos para cativar a maioria dos espectadores, mesmo com forte apelo sentimental – e pelo fato de ser um musical.

Características que afastam pessoas com ressalvas lugares-comuns ao gênero.

Essa divisão do público em dois tipos, apreciadores e contrários ao gênero de musicais , é uma discussão inócua.

Ademais, esse preconceito não será resolvido facilmente, embora seja relevante para despertar conhecimento da história do gênero em Hollywood.

Muitas das canções mais populares do século XX foram compostas especialmente para musicais, por nomes consagrados nas artes, como Cole Porter e Ira Gershwin, por exemplo.

A informação é reforçada por Ruy Castro no artigo Engenharia dos musicais, compilado no livro Um filme é para sempre, lançado pela Cia das Letras.

A desconfiança despertada pelos musicais (é “não natural”, dizem detratores) está no comentário recorrente de espectadores que reclamam da fala tomada por canto e os movimentos das pessoas transformados em dança, que irrompem na história de uma hora para outra.

Tiros, explosões e perseguições são exageros e elementos recorrentes em filmes de ação. Aparecem de forma equivalente aos feitios estéticos nos musicais, como convenções de gêneros que facilitam o reconhecimento narrativo pelo público.

Cinema é representação, então, por que não gostar de musicais?

Por que não se incomodam tão facilmente com os impossíveis heróis de ação? Neste gênero excessivo, todos os personagens são também atiradores de elite e exímios dublês-motoristas, lutam e saltam num desafio às leis da gravidade.

Mas parte do público pronuncia irritação e pavor das cantorias em vez de falas, acrescidas às coreografias de personagens.

Cinema é representação, afinal.

À parte os efeitos da chamada diegese cinematográfica, conceito que resume singularidades do mundo retratado nas narrativas, que perpassam noções da realidade da forma como a conhecemos, mesmo o mais rigoroso documentário pode desprender-se do real.

Cada espectador deve ter sua sensibilidade e escolha. Porém, é interessante ficar atento aos representantes que valem a pena em cada gênero cinematográfico.

Para cada filme despropositado de ação, resta um exemplar vigoroso como John Wick (2014). Entretanto, é compreensível a experiência traumática do musical Os miseráveis (2013).

La La Land, o campeão de indicações ao Oscar deste ano e provável vencedor de melhor filme e canção original para City of Stars (Trailer), surge para aderir os ânimos resistentes ao gênero e conquistar seu lugar de clássico antecipado.

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Tradição e desencanto hollywoodiano

O filme garante seu lugar na filiação clássica de representantes do gênero. Não apenas pela coerente reverência aos filmes Cantando na Chuva (1952), dirigido por Stanley Donen em parceria com o astro Gene Kelly, e Guardas chuvas do amor (1964) de Jacques Demy.

Mas por mérito próprio, La La Land alcançará status de cânone nesta linhagem do cinema. Nas duas homenagens declaradas feitas por Chazelle, do primeiro se apropria de elementos metalinguísticos.

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Cartaz da versão brasileira do filme que, além de homenagear a Era de Ouro dos musicais, revigorar o gênero dos musicais

Se a história de Cantando na Chuva narra transições de uma época, do cinema mudo ao falado, a vida dos jovens na cidade de Los Angeles em busca do sonho hollywoodiano toma corpo na composição lítero-musical desde a abertura de La La Land.

Apesar das frequentes frustrações, sonhar é possível. Os bastidores da vida cotidiana dos atores que servem café e encontram em trabalhos mundanos uma maneira de se aproximar da indústria é visto como motivação dos personagens.

Artistas em formação que vivem em L.A. na busca pelo sonho de conquista profissional em Hollywood se decepcionam de maneira assustadora.

As cenas dos testes de elenco da personagem de Emma Stone se aproximam de exemplares sarcásticos e cruéis na representação desse mundo de feições sonhadoras e ilusórias, tal como Cidade dos Sonhos (2001), de David Lynch.

La la land se inspira na obra do francês Jacques Demy

Já em relação à inspiração do francês Os guardas chuvas do amor (Trailer), vêm à apropriação da história de amor que não deixa de ser amarga. Na verdade, o filme de Chazelle é uma variação da obra de Jacques Demy.

No filme inspirador, a narrativa em três atos é substituída pelas estações, subtítulo de La La Land. Para o espectador, a narrativa de fundo melancólico permanecerá na memória tanto quanto às músicas temas.

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PROTAGONISTAS: Sebastian (Ryan Gosling) é um pianista mal sucedido que deseja brilhar na cena do jazz; Mia (Emma Stone) trabalha em uma cafeteria como atendente e sonha em ser atriz.

Detalhe: o filme Os guardas chuvas do amor é uma experiência mais exigente, para quem torcem o nariz às convenções do gênero, pois não há palavra dita pelos personagens que deixe de ser cantada sobre o fundo musical da composição de Michel Legrand. Exemplar cinematográfico marcante que sobrevive ao tempo.

As histórias de amor sem plenitude cativam o público exatamente por sua parcela de infelicidade. La La Land transita entre sonho e desencanto nos filmes americanos, feitio incomum, mas não raro nessa cinematografia.

Cantando Estações, subtítulo favorável ao ritmo da narrativa de La La Land, tem aquela parcela de despudor romântico, que não teme ser piegas.

Entretanto é também desencantado, melancólico. Por isso, seu tom sentimental se torna duradouro.

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Gustavo Bittencourt

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