Crônicas e Artigos

Levante-se!

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A imagem divulgada numa rede social era bem interessante, remetia, acho, a uma pintura renascentista, uma mulher deitada sob umas almofadas e um enorme couro de tigre e, uma outra mulher, de pé, tentava despertá-la. Mas, a frase que colocaram para acompanhar a imagem me impressionou mais ainda: “Vamos levantar, que os paradigmas não se desconstroem sozinhos”.

Às vezes, levantar para desconstruir um paradigma é difícil. Quando me lembro que passei seis longos anos da minha vida esticando o meu cabelo com química, e queimando o casco da cabeça naquelas sessões de tortura que era fazer escova quase toda semana, para me sentir “lisa” e aceita pelos outros, sei que ao assumir de vez meus cachos foi sim uma quebra de paradigma. Muito antes dessa onda – muito favorável a meu ver – de valorizar os cachos das madeixas femininas. Atitude essa, a meu ver, que é a afirmação de uma identidade negra e crespa que eu e tantas outras mulheres carregamos na genética. E não há problema algum em sustentar isso. Afinal, antes de tudo a gente precisa assumir quem é, saber de onde viemos e para onde queremos ir. Não sou contra qualquer tipo de tratamento, cuidado ou estética que a pessoa queira fazer para se sentir melhor. Mas discordo veementemente da ditadura da estética imposta pela futilidade do consumo e da busca desesperada por um modelo ideal jamais alcançado. Porque, o que o mercado quer, é que jamais alcancemos a felicidade. Ou, melhor, a liberdade de não precisar ser feliz o tempo todo. Uma pessoa plena e consciente de seu corpo, seu rosto e suas marcas não se frustra e, logo, não continua no desespero de comprar e buscar novas fórmulas de perfeição e aceitação. É um ciclo vicioso e cruel e todos estamos fadados a cair nele, até decidirmos quebrar o paradigma.

Vamos a mais uma quebra de paradigma: não somos obrigados a ser felizes o tempo inteiro. Segundo, admitir-se não ser feliz full time não é sinônimo de “drama” ou de infelicidade. É sinal de que estamos conscientes de nossas fraquezas, angústias, falhas e que o mundo não gira na órbita do nosso querido umbiguinho. Ok, as pessoas podem fazer o que quiserem com seus umbigos (inclusive drenar e lipar); mas, para isso, não precisam anular como funcionam e vivem os umbigos dos outros. Mais trabalho, respeito e menos narcisismo, por favor!

O que é engraçado no mundo dos narcisistas de plantão é que tudo de ruim que lhes acontece, eles colocam culpa na “inveja” dos outros. Esquecem que ninguém é capaz de sustentar 24 horas do dia, um mundo de fantasia e falsidade. Todo mundo tem remela, meleca, solta gazes e problemas, inclusive os que tentam sustentar que suas vidas são perfeitas. Incapazes de perceber que as pessoas, de um modo geral, estão vivendo suas vidas e “andando” para quem nada tem nada mais a oferecer a não ser velhos paradigmas.

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Sheyla Azevedo

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