Literatura brasileira: Michel Laub e “O Tribunal da Quinta-Feira”

Conrado Carlos
DestaqueLiteratura

Livro “O Tribunal da Quinta-Feira”, do gaúcho Michel Laub, traz temas como sexualidade, intolerância, AIDS, falta de privacidade e justiçamento nas redes sociais; romance foi finalista do Prêmio Jabuti 2017.

Fotografia de capa: Renato Parada

Outro dia, em um grupo de jornalistas no WhatsApp, lamentei o fato de ter ido em vão a uma grande livraria de Natal com uma lista de 12 romances brasileiros. Todos finalistas ou vencedores dos dois maiores prêmios literários do país (Jabuti e São Paulo), nos últimos sete anos. Todos em falta na loja física.

Minha esperança era que tivesse um ou dois, para me garantir minutos de prazer ao manusear um livro novo, na pausa de um passeio familiar. Nada feito.

Os livros, assim como as relações, estão cada vez mais atrelados ao virtual e nós devemos nos adaptar. Qual o futuro dessa ilusão? Pouco sabemos e muito especulamos, sem saber ao certo por qual bosque enveredar.

Coisa de uma semana depois do desabafo, o amigo Tácito Costa, editor deste SUBSTANTIVO PLURAL, me presenteou com “O Tribunal da Quinta-Feira” (Companhia das Letras), do gaúcho Michel Laub.

É disso que trata esta nota permeada de confete e serpentina, tentativa bruta de estabelecer uma cumplicidade silenciosa com amantes de ficção nacional.

Pois penso que a literatura pode dar respostas, com suas certezas, à esfera pública e seu sistema de hipóteses – ou a verdade em uma ficção não é absoluta?

Raju Ghosh

Fotografia: Raju Ghosh

Aqui se fala, aqui se paga

Se o que nos conquista em um texto é sua ‘carga genética’, “O Tribunal da Quinta-Feira” tem potencial para forjar parentesco de meio mundo, tal grau de empatia que a história pode causar. Se não, vejamos.

Um ligeiro resumo diria que José Victor e Walter são amigos desde a faculdade e, agora, ambos têm 43 anos de idade. Dos encontros do passado, a coisa seguiu para o meio virtual, com trocas constantes de e-mails – confidências pra todo lado.

Walter é gay e soropositivo (a doença aqui é usada para ajudar na formação de uma identidade, não tema central do livro). José Victor está de caso com uma estagiária, Dani, e em processo de separação de Teca, sua companheira nos últimos quatro anos.

José Victor tem a vida devassada, após o fim da relação com Teca, pois ela descobriu as senhas do correio eletrônico, leu a correspondência entre os amigos, editou trechos e promoveu a ‘audiência no tribunal’ das redes sociais.

A invasão de privacidade, o julgamento sumário e o abuso na exposição da intimidade em vigor nas redes cria identificação imediata; enquanto o drama de Walter traz o cenário do surgimento da AIDS, nos 80s – e revela o quanto Michel Laub pesquisou o tema.

José Victor é o narrador. Machista, bem sucedido profissionalmente, ávido por sacanagem, ele encontra em Dani a parceira ideal para acomodar tudo isso. Mas, ao ver o papo com o amigo Walter viralizado (recheado de sarcasmo, jocosidade, deboche e vanglórias sexuais), terá de ajustar contas consigo mesmo.

Michel-Laub_capa

Lançado no final de 2016, livro foi dos mais premiados no ano seguinte.

Triste, mas sem remorso

Michel Laub foi eleito pela revista inglesa Granta um dos 20 jovens escritores latino-americanos a serem observados – quem nasceu nos anos 1970 faz parte dos juniores da literatura. Ele tem sete romances publicados, com “Diário da queda” (2011) e “A maçã envenenada” (2013) em destaque.

Falam que sua escrita é a la inglesa, com economia de psicanálise e opinião enrustida nos personagens. Os fatos são narrados, as omissões, estratégicas, e o leitor formula algo que parece claro no texto, mas com algumas manchas.

Em “O Tribunal da Quinta-Feira”, os deslocamentos temporais do enredo e as digressões de José Victor nos abre uma série de pensamentos sobre o que vemos todos os dias no Facebook, por exemplo, em que ‘amigos’ revelam episódios nada abonadores para 500, 600 pessoas de uma tacada só.

O livro mostra também como frases e brincadeiras tiradas do contexto podem danificar uma reputação – comete suicídio quem vai contra temas queridos de minorias com forte militância.

Em nenhum momento, José Victor demonstra remorso.  Pelo contrário. Além do casamento falido com Teca, ele tem plena noção de se valer do cargo na agência para fisgar a estagiária recém-saída da adolescência, por quem acredita estar apaixonado.

Quem, de fato, é a vítima do linchamento virtual, após as mensagens de Teca?

Os russos dizem que, depois da tempestade, vem a enchente – em vez da fofíssima bonança. No caso de “O Tribunal…”, escapa quem souber se locomover na lama resultante do aguaceiro.

DadosDa ‘bicha velha’ ao homoafetivo: existe um oceano de intolerância a ser navegado

O escritor Michel Laub gosta de capítulos curtos, em suas narrativas. Diz que escreve na hora do almoço, durante viagens, em qualquer tempo livre que aparece. Ele precisa ser intenso e conciso, para começar e terminar algo naquele instante. A técnica diz muito sobre a impressão extraída de seus romances.

A história parece construída aos poucos, em pedaços, para logo surgir enorme, imponente e viciante – como tenho idade próxima a do autor, sei bem como foi a explosão midiática da AIDS, o ‘câncer gay’, nos anos 1980 e 1990.

Eivada de preconceito, a doença parecia uma blitkrieg dos infiéis contra os homens de Deus. Uma Cruzada às avessas. As piadas dos dois amigos transitam pelo cenário de apaziguamento do terror, no decorrer das décadas, e mostram como mudou o discurso sobre o mesmo problema.

As aventuras de Walter, em sintonia com casos emblemáticos, como o de Cazuza, Lauro Corona, Freddy Mercury e Sandra Bréa, formam um dos pontos altos do romance. Os amigos fazem comentários pesados sobre a doença – e Teca lê tudo.

Quem de nós passaria por tribunal semelhante? Quem de nós resistiria a uma lupa em nossas conversas, elas expostas para centenas de olhos?

O senso comum determina a raridade dos interessados em moléstias psíquicas, as tragédias humanas que povoam a literatura – preferem o sorriso fácil, de preferência coletivo, sem grandes questionamentos ‘existenciais’, e a confirmação de valores já estabelecidos.

O livro de Michel Laub trata de assuntos corriqueiros: doença, desilusão amorosa, gente que fala demais em público. Mas de um jeito peculiar. Por isso, agrada com sobras pelo debate instigado e a capacidade de entreter até o mais sisudo dos leitores.

Share:
Conrado Carlos

Comentários

1 comment

  1. Ruben G Nunes 7 fevereiro, 2018 at 13:04

    Beleza de comentário crítico. A literatura precisa de críticos assim. Que vivem o enredo. Ei Onde posso deixar XANAVÁ. … croniketas da burakera que publiquei recentemente? São 2 livros em 1. De ponta cabeça tem o Porra de Poemas…
    Abs
    Ruben G Nunes

    ..

Leave a reply