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Maestro Bembem Dantas: regente de uma mudança sócio-musical do interior potiguar

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E se lhe perguntassem o maior nome do atual cenário da cultura potiguar, em qualquer área? Difícil, né? Tivemos só este ano um Far From Alaska estampado em tantas manchetes. O Camarones Orquestra Guitarrística no Rock in Rio. O Clowns de Shakespeare mantendo o prumo como um dos maiores grupos do teatro brasileiro. O ator José Neto Barbosa eleito melhor ator nacional. O escritor Estevão Azevedo escolhido com melhor romance do Prêmio São Paulo de Literatura. O ainda atuante Abrahan Palatnik…

Afora este último e talvez o Clowns com seus 12 anos de estrada, os outros são “fenômenos” relativamente recentes. Mas fora da mídia convencional ou alternativa. Fora da Natal ou Grande Natal. Fora dos coletivos, buchichos ou panelas. Fora das leis de incentivo ou do olhar mercantilista da iniciativa privada, reside hoje um nome bem encaixado neste status – totalmente inútil, é verdade – de maior nome da cultura potiguar. Uma trajetória profissional de quase 40 anos dedicados à música.

Humberto Carlos Dantas, ou o maestro Bembem, nunca foi convidado a um festival grandioso de música. Nem recebeu tantas estampas da grande mídia. Muito menos percorreu palcos do Brasil e do mundo com espetáculos teatrais. Nem venceu premiação nacional. Ou mesmo deixou seu Rio Grande do Norte para mostrar sua arte nos grandes centros. Mora ainda no seu Seridó de nascença e mantém o mesmo propósito há décadas: formar jovens músicos e fundar bandas de música pelo interior do Estado potiguar.

bembemBembem nem precisa de tudo isso: dos palcos do mundo, das premiações nacionais ou da arte reconhecida para além dos limites deste Elefante de muralhas tão altas. Nem que reconheçam seu rosto, sua voz ou mesmo sua origem. Acho que não. Ora, o maestro, criado em sítio do município de Acari, tem como feedback, além do conforto de uma rede no alpendre, a gratidão de dezenas de milhares de crianças, jovens e adultos desta e de outra geração. Todos musicistas formados ou em formação.

Esse sentimento de gratidão se percebe mesmo é no olhar, no trato do dia-a-dia. Mas vamos aos números: hoje, somente hoje – sem contar décadas de esforço – ele trabalha diretamente com mais de cinco mil crianças e jovens. Hoje chegaram mais de R$ 76 mil para compra de instrumentos e acessórios nos municípios de Várzea e Passa e Fica. Bembem continua regente há 16 anos da secular e mais famosa filarmônica do Estado, em Cruzeta. O maestro já implantou nada menos que 46 Bandas de Música em municípios potiguares organizadas em associações culturais, ou seja: um projeto sólido, com bases para autossuficiência e longevidade.

Essas 46 Bandas foram viabilizadas pelo projeto Banda Filarmônica da Juventude, coordenada por Bembem. Todas elas têm como mentor um jovem músico graduado. Todas! E por esse projeto há em processo a criação de outras 40 Bandas de Música e mais quatro mil crianças e adolescentes atendidos, preenchendo quase todo o território potiguar com pelo menos uma Bandinha de Música. São mais 40! Seria o único Estado brasileiro com esse feito. E que feito! Para quem conhece a realidade do interior sabe a importância desse patrimônio cultural que são as bandinhas de música.

E desse modo Bembem Dantas rege não uma banda ou filarmônica, não um projeto de criação de outras Bandas. Bembem rege o futuro de todo uma “comunidade” interiorana que clama por atenção, que grita por oportunidades. Rege a continuidade de uma tradição musical potiguar que remonta séculos e que provavelmente representa a maior identidade musical do nosso Estado: as bandinhas de música, as filarmônicas do interior de Felinto Lúcio, de Tonheca Dantas, de Urbano Medeiros que foi mentor do herdeiro Bembem.

O maestro Bembem mudou, definitivamente, o cenário não só musical no interior do Rio Grande do Norte, para além do seu Seridó. Arrisco afirmar que Bembem colaborou com uma mudança social e econômica formando pessoas e músicos ao longo de 40 anos, firmando patrimônios culturais em cada município. Pena a homenagem que preparei, com slides de imagens, vídeo e texto como o gran finale do Troféu Cultura tenha sido atropelada pelo improviso da cerimônia. Mas fica aqui, maestro, meu respeito à sua pessoa e ao seu trabalho abnegado.

Parabéns!

Filarmônica de Cruzeta

Foto de capa: Ivanízio Ramos

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Comentários

6 comments

  1. Wescley Gama 3 dezembro, 2015 at 07:42

    Admiro o trabalho do professor Bembem faz tempo. Um grande transformador de vidas através da cultura.

  2. Bembem Dantas 3 dezembro, 2015 at 12:45

    Amigo Sérgio Villar. Entre tantas preocupações e até desesperos de um sertanejo seridoense, de ontem e hoje, a que mais preocupa é a seca. Só quem é nascido e criado ouvindo, enfrentando e sobrevivendo dentro desse cenário pode realmente entender essa dimensão.
    Um seridoense como eu, que se criou na zona rural, guarda lembranças que são verdadeiras tatuagens de medo e desesperanças. Meu avô João Celino Dantas (joão Cocada) foi um “joão sem terra”, que junto com Vovó Lilia , (Maria Inês de Medeiros Dantas), tiveram 22 filhos, dos quais sobreviveram 18, minha mãe Francisca a mais velha (1946), de todos os 18 é a única que ja partiu pra outra dimensão, a única que não queria sair daqui, o restante 17, moram em São Paulo. Mamãe era a mais inteligente, a artista dos desenhos, dos bordados e da musica. Pantava, caçava, pescava e tocava. Uma autodidata, que até ler e escrever aprendeu sozinha. Tocava violão, porque aos 11 anos foi trabalhar numa casa, onde existia um, sem que ninguém tocasse. Ela sozinha aprendeu a solar e depois a organizar seus próprios acordes, quando tinha a oportunidade de escutar Guilhermano Reis em algum rádio. A dona do violão em reconhecimento ao seu talento, lhe doara o instrumento, o qual, foi meu alento de menino, quando ela todos os dias principalmente as 18 horas, ficava no alpendre da casa onde morávamos no sitio Alto Grande, tocando o que ja sabia, ou tentando aprender algo novo.
    Geralmente algum vizinho daquela gleba familiar, aparecia para uma prosa, ou mesmo para escutar seu vozeirão. Sei que a maior preocupação de D. Francisca, era o ano, o dia e a hora que chegaria naturalmente, de seu filho (eu) ter que ir para o sul, se juntar a tios, primos, parentes e amigos que fugiram para sobreviver do espectro da seca e suas consequências. Esse também era, foi e ainda é o meu maior medo.
    Muitas noites construí na minha cabeça, como seria aquele dia… lembro que projetava a infelicidade, o choro, a saudade e até o desespero. Prometia que não iria, que me esconderia na casa velha, ou no serrote do mesquita…
    Porém eis que uma banda( São José do Seridó) e um maestro ( Urbano Medeiros) apareceram no meu caminho, e não foi como pedra. Foi como um rio cheio, que me conduziu ao meu maior sonho, nunca deixar meu torrão. E hoje, com 50 anos, meus conceitos de menino sertanejo se fortaleceram, porém com entendimentos bem mais abrangentes. Entendo que as oportunidades na vida de um adolescente as vezes pode concretizar seus sonhos e mudar seu destino.
    Com 39 anos de musica, 29 como condutor do projeto musical de Cruzeta, pai de 3 filhos maravilhosos e esposo de uma mulher guerreira e parceira de todas as horas, com alguns amigos leais, me considero feliz e vencedor, porém não realizado. Nunca fui um grande músico, nem tão pouco um maestro, mas meus sonhos desafiaram meus “medos” e minha conduta e escreveram minha história, que de certo será não tão importante como de tantos outros , mas se fará de tantos sonhos, esperanças e persistências, capaz de quem sabe ser exemplo e orgulho para meus filhos e descendentes. Sei que pouco fiz e farei, diante de tantos desafios, mas que tentei, tenho certeza.
    Então, quando amanheço nesse sol quente e céu limpo, e me encontro com uma homenagem tão linda dessas, de parte de um jovem, ideologista, competente e sério jornalista, como SERGIO VILLAR, tenho que agradecer a DEUS e dedicar, por puro senso de justiça, amor e gratidão, tudo de bom que considero na minha vida, a minha mãe Francisca, que muito provavelmente, é quem mais merece e festeja, tantas vitórias.
    Muito certo, que não sou merecedor de tantos elogios e até homenagens, divido com meus alunos, colegas e parceiros, qualquer êxito ou glória, bem como assumo com responsabilidade, humildade e resignação, minhas faltas e falhas, por não conseguir fazer mais dos meus sonhos e propósitos, na minha missão tão nobre que Deus me designou. MUITO AGRADECIDO. Sergio Villar.

  3. Francisco José Marinho 4 dezembro, 2015 at 08:37

    Meu caro Bembem,

    Toda homenagem que lhe façam é pouca!

    Conheço muito bem os primeiros passos dessa dura e espinhosa jornada que você enfrenta com dignidade e cega fé. Fé na vida, fé no sonho, fé no poder transformador da arte e da cultura num ambiente tão inóspito, árido não apenas de arte, mas de perspectivas para os jovens.
    Considero simplesmente fascinante a sua capacidade de resistir e de convencer a todos de que a banda de música é importante, não apenas pelo seu aspecto bucólico, mas por ser um efetivo instrumento gerador de perspectivas e propício ao surgimento de talentos como os que assisti florescer no meio musical do Rio Grande do Norte.

    Vi meninos e meninas acanhados se transformarem em professores, regentes, instrumentistas de alto nível com formação internacional. Vi o amadurecimento de 01 geração de sertanejos que, em virtude do contato com a música, nem de longe pensa em ir para o sul nas condições da “triste partida”.

    Então, vendo o reconhecimento da sua luta acontecer em vida, em plena atividade, a todo vapor, não poderia deixar de registrar aqui a minha alegria de ver que aquele medo de menino se transformou em força motriz de tanta coisa boa.

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