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Malu no dia de ano-novo

A manhã é clara, de sol, e não está quente. Isso Malu percebe da janela do apartamento, onde acabou de chegar ainda sonolenta. Acordou e veio para a cozinha, preparar o café. O seu prédio é cercado de outros prédios também guardados por guaritas e porteiros, alguns com seguranças armados. Ostentam nomes de pessoas célebres ou de fatos históricos relevantes, muitos desses nomes ou acontecimentos esquecidos ou mesmo ignorados pelos moradores: Brasil Império, Brasil Colônia, Ilha de Vera Cruz, Saint-Exupéry, Pablo Neruda, Portinari, Maria Della Costa.

Ela vê dois pombos (ou seriam duas pombas, ou um casal?) que se acomodam na grade de um ar condicionado no edifício de frente. Eles não sabem — pensa — que hoje é dia de ano-novo, inocentes também da passagem de ano as árvores do condomínio, cujos galhos balançam leve com a brisa vinda do Atlântico. Da mesma forma sem notícia do ano-novo, 2018, as mangas-rosas de duas mangueiras que há décadas sombreiam e humanizam o pátio de puro cimento.

Há um silêncio total que ela percebe não ser de quietude. Um silêncio exasperante, doentio, de como todas as pessoas estivessem dopadas. Vem-lhe à mente o fim da comunidade de Jonestown, na Guiana, mais de 900 pessoas bebem voluntariamente um refresco com cianeto, e se quedam ali mesmo mortas, no chão da floresta, sem recusa, sem protesto, igual estivessem se preparando para dormir. Malu escuta um único fogo de artifício que rumoreja distante, certamente numa comemoração tardia. Supõe estarem todos esgotados, a noite anterior lhes roubou o sono — bebidas, comidas, e a correria para ver o show pirotécnico na Praia de Ponta Negra. Ao redor dezenas e dezenas de janelas, e nenhuma a estampar uma pessoa, um adulto, um menino travesso brincando com a rede de proteção ou até mesmo um pequinês ou rottweiler (como Lorde, do seu amigo Lopes, um cão grande e valente), que desejassem farejar o ar do ano-novo. Somente roupas dependuradas, toalhas com manchas de água sanitária fazendo as vezes de cortinas, placas de isopor e recortes de jornais colados ao vidro. A classe média, com a crise, deve andar se apertando – ela imagina.

Malu esquenta um pouco de leite, mistura com Nescafé, e toma com adoçante. Os filhos vivem distante, o rapaz em Nova York, trabalhando como pintor de parede externa, e a filha, baby-sitter em Washington D. C. Sentada à mesa da cozinha ouve o som dos ponteiros do relógio de parede se movendo. Percebe com algum sofrimento ter vivido obediente a esse relógio que a acompanha por décadas, presa a um aro circunscrito de vida, o estudo dos filhos, o colégio dos filhos, a formatura dos filhos, tendo para isso de empurrar dia após dia a catraca do ponto, submeter-se a chefias cada uma mais sonsa e ardilosa, quando não cruel.

Atualmente Malu está só. Na noite anterior não quis ver os fogos de artificio na praia, botou na cabeça que a noite de ano-novo é só uma noite a mais. Recebe aposentadoria e não sabe o que fazer daqui por diante. Nessa manhã clara, de sol, deixa para mais tarde a lavagem dos pratos e talheres sujos na pia, e vai até a sala-de-estar, onde a espera vazio o velho sofá de couro preto. Vai assistir a Ana Maria Braga, aprender com o programa alguma receita culinária, rir também com as brincadeiras do louro José. Liga o televisor e deixa o tempo passar, enquanto chega a hora de pegar o almoço na marmitaria. Faz isso todos os dias, independentemente de ano-novo.

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Demétrio Diniz

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