Mão dupla jornalística em Salvador

Camila Savana
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Polícia Militar e Bombeiros traçam planejamento de segurança especial para as festividades do ano novo Na foto: Praça Cayru, Comércio (Salvador) Foto: Carol Garcia/GOVBA

Praça Cayru, em Salvador, Bahia. Foto: Carol Garcia/GOVBA

Durante uma pauta, pensei: “O jornalista é aquele que tudo vê, tudo ouve, mas não sabe de nada”.

Jogado aos mistérios da rua e do fazer reportagens, não percebe, muitas vezes, o tamanho de sua responsabilidade.

Responsabilidade dividida como várias abas de um leque: ser um profissional destemido e escrever tudo que viu? Filtrar o essencial, para não sofrer retaliações? Ocultar assuntos e usar o velho ‘Deixar para lá’?

Tudo isso passou pela minha cabeça, ao encarar a editoria policial.

Ao escrever estas linhas, me deparei com uma volta de 360 graus. Foram meses de reportagem, num assunto que só conhecia como telespectadora. O horário era desafiador – 18h à 1h.

E para falar a verdade, trabalhar à noite foi um gatilho, para que sem pensar em nada dissesse: “Sim”.

Atuar em um horário pessoalmente criativo seria incrível. Cidade nova, emprego novo, horário novo. Me joguei aos leões na doce ilusão de transformá-los em gatinhos.

O dia a dia é assim: bate ponto, pega pauta, ouve pequenas orientações e sai na fé. Você e seu escudeiro (cinegrafista), que no meu caso também era guia. Graças a ele conheci a cidade de Salvador (BA) e me livrei de situações de risco.

Sem egocentrismo, fui na dele e vivi coisas que me reviraram ao avesso como ser humano. Citar um fato?

Bom, quase todo dia tinham atropelamentos, homicídios, rapa fora de traficantes, da polícia, ir até o outro lado da cidade e não encontrar nada, incêndios, queda de encostas, protestos, manifestações, pessoas com medo de falar.

Tudo que eu tinha e podia eu fiz e tentei aprender.

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Litografia de Thomas Abiel Prior, baseada no desenho do inglês Augustus Earle, de 1839. Título original: San Salvador, Bahia.

Com amor, ódio, urgência

Mas nada me tocou tanto quanto acompanhar a noite de moradores de rua, para uma matéria especial de fim de ano.

Sempre desejei fazer algo efetivo e constante com os moradores. Não sabia o que me esperava. O trabalho de entregar comida, roupas e afeto ainda hoje é feito por uma instituição espírita de Salvador, no bairro de Brotas.

Acompanhei a preparação da comida, a oração feita antes de sair, e iniciei minha matéria em busca da motivação daquelas pessoas (homens, mulheres, crianças, idosos) para um trabalho sem logística e hora de acabar.

Lá fui eu toda faceira, na crença de que ia fazer mais que uma matéria. E, cá para nós, eu fiz.

A cada entrevista, uma conversa bem particular, na intenção de mostrar para o mundo o que eu via e escutava – queria mesmo poder contar cada conversa, explicar cada olhar, sentimento, mas não dá.

Fato é que entre alcoólatras, drogados, senhores que abandonaram casas e famílias no velho esquema de comprar pão e jamais voltar, surgiram relatos de pessoas literalmente lavadas das calçadas da cidade, na época da Copa do Mundo (2014).

O momento máximo foi sentar na calçada e conversar com um senhor de graves problemas nos olhos. Eu o ouvi sem piscar, até que os trabalhadores da casa espírita terminassem.

Ponto alto da conversa foi que, enquanto ele me contava sua história num tom triste, porém sereno, percebi um cachorrinho me olhar torto – instintivo para saber o que queriam com seu dono.

O senhor passou a mão na cabeça dele e o fez perceber minha boa intenção.

Ele se aproximou, me cheirou e, com cuidado, se aproximou do dono. Só saiu na hora em que levantei e agradeci a conversa.

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Fonte Nova custou quase R$700 milhões, a serem pagos em sua maior parte pelo governo baiano ao consórcio formado pelas construtoras OAS e Odebrecht

Lágrimas da alma

Meu cinegrafista, concentrado nas imagens, não percebeu que fui para o carro da TV e derrubei um choro saído da alma.

Chorei até reunir força suficiente para retocar a maquiagem e continuar a noite.

Quando ele voltou para o carro e seguimos, disse: “Tá assim por causa do cachorrinho, né?”. Ouvi de tudo: “Isso é jornalismo, se acostume. Só sabe fazer entretimento é? Tudo vagabundo”. Volto para o giro de 360 graus.

Nesse dia, peguei um táxi quase às 2h da manhã para voltar para casa. No trajeto, chorei e refleti sobre o fechamento daquela matéria, se, como jornalista, eu deveria me proteger daquela emoção toda.

Fiz cinco pautas especiais no período de duas semanas. Por obra de Deus, vendo as imagens dessa matéria específica, percebi que ela falava por si. Minhas falas complementares eram desnecessárias.

Compromisso diário

É triste vivermos uma ditadura disfarçada de democracia. Todos os dias tinha acesso a bombas que não explodiam.

“Isso é sério demais. Não podemos falar assim”.

Relembrava os debates na Universidade, aos quais eu nunca imaginaria ceder e entender que, infelizmente, existem interesses comerciais bem maiores que eu. Não!

Nem tudo pode ser dito, mostrado e acredito que neste ponto a nossa responsabilidade é diária. Jornalista de verdade é um eterno estudioso, de tudo.

Triste ver profissionais divididos entre editorias importantes e inúteis.

Triste de ver que existam profissionais ‘papa defunto’, preguiçosos na criação e pesquisa, à espera por algo trágico para ter o que fazer e se promover.

Eu ainda sou sensível, agora mais forte diante de tudo que vi. Sem arrependimentos, tento galgar um caminho difícil e tênue que seja correto comigo e com minha profissão. Rumo que não quero deixar de seguir.

Porque ser jornalista é bem mais do que gastar tempo pensando na melhor palavra.

É um comprometimento diário com o próximo, em detrimento de quem não tem a menor ideia da seriedade de nosso trabalho.

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Camila Savana

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