Crônicas e Artigos

Medalha de ouro

passaros

Quantas vezes a gente nasce? Há muito tempo eu escrevi algo que tratava mais ou menos de quantas vezes a gente morre. No meu caso, a primeira vez que morri foi quando perdi a minha avó, a quem tinha afetos dobrados de neta e também de filha e a partir daí, percebi com profusão a finitude da vida. Ela que balançou muito minha rede quando criança e viveu comigo todos os meus 19 anos até o dia de partir. Desde então, morri muitas outras vezes como quando tomei aquele porre de vinho dom bosco ou levei de uma só vez doze picadas de maribondo. Mas isso é outra história. Tenho pensado mais em quantas vezes a gente nasce. Da primeira queda de bunda no chão ao darmos os primeiros passos, que é quando a gente nasce para viver o equilíbrio das pernas, até quando se nasce diariamente, ao abrir os olhos, nem que seja para viver a vida de sempre, porém com a mesma intenção de ternura e encantamento da primeira vez em que abrimos os olhos e ainda nem entendemos o mundo.

Conheci essa semana um jovem de 30 anos que tem nascimento no sobrenome. Não podia ser mais pertinente no caso dele. Jeovane era cobrador de van. Num belo dia um assaltante entrou no veículo, roubou os passageiros e o que ele tinha arrecadado e partiu. Mas, por alguma razão que a vida jamais explicará, ele resolveu voltar depois de dar alguns passos e simplesmente atirou. A bala atingiu Jeovane nas costas, que o fez perder o movimento das pernas. Quem me passou essas informações foi meu amigo Dennys, que tem me acompanhado em longas caminhadas e me alimenta com biscoito recheado.

Jeovane não parece querer perder muito tempo com o que passou. Ele só me disse que tinha ficado assim após um tiro. Fato é que não havia nenhuma fagulha de angústia ou de ressentimento naquela informação. E confesso, meus meia dúzia de leitores, isso me impressionou muito. Longe de querer fazer qualquer tipo de autoajuda fajuta, ou de pormenorizar os problemas que todos vivemos no dia-a-dia, não se passa incólume à grandeza de um homem. Naquele momento eu nasci mais uma vez. Nasci para uma consciência de admiração.

O sorriso e a simpatia de Jeovane, que costuma olhar para cima quando as pessoas falam com ele (porque as pessoas não se tocam de se abaixar para falar com um cadeirante) represaram um rio dentro de mim. Não é que eu tenha sentido vontade de chorar com o que eu vi ou ouvi. Eu senti mesmo foi vontade agradecer pela lição silenciosa que ele nos passa. Tanta gente pedra por aí e aquele moço de apenas 30 anos – preso a uma cadeira de rodas (às vezes ele também usa muletas) – era um passarinho. Um passarinho que flana por nossas esperanças, que bica nossas teimosias em nos paralisarmos diante das dificuldades e que canta sorrisos para dar sentido à vida que segue e gira. Em tempos de Paraolimpíadas, Jeovane leva a minha medalha de ouro.

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Sheyla Azevedo

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