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Mercado de pios de aves se expande

Imagem: Pataxó usa pio de ave em Jogos Indígenas. Imagem: Ministério do Esporte

Povos indígenas brasileiros, caçadores e mateiros utilizavam apitos de caça para atrair aves quando o Brasil recebia grande número de imigrantes no século XIX. Esses instrumentos também eram usados por índios e escravos para se comunicarem dentro da mata, quando fugiam de bandeirantes e capitães do mato.

Na época, os pios foram aprimorados pelos imigrantes, com intenção de extrair a farta alimentação proporcionada pela avifauna no país. E ainda se propagou a caça como lazer e o mercado da plumagem.

Para atender necessidades daquele período foi criada, em 1903, a Pios de Aves Maurílio Coelho, em Cachoeiro do Itapemirim, ES. Ainda hoje a empresa mantém uma administração familiar. E meio século depois, os alemães Gustav Roeder e Otto Schlukat produziram apitos no município de Benedito Novo, SC, em uma tornearia movida à roda d’água.

Em meados de 1950 o desmatamento no país foi intensificado em nome do progresso. A população rural migrava para as cidades e o consumo de carne não podia mais ser suprido pela caça. Na década seguinte, a conscientização ambiental contribuiu para a proibição da caça de aves. Aos poucos, os pios foram adotados por ornitólogos, em trilhas ecológicas, escolas, no mercado de brindes, na decoração e em diversas artes: músicas de diversos gêneros, trilhas sonoras, contação de histórias, musicoterapia.

Novos instrumentos deveriam ser produzidos para abranger os passarinhos. Por não serem carnudos, tinham sido desprezados na caça. Em compensação, esses passeriformes oferecem cantos mais melodiosos. No entanto, ainda hoje predominam os pios para aves e pássaros de porte médio.

No governo Temer, o desmatamento aumentou e agrotóxicos continuam liberados. Com isso, muitas aves, insetos e animais beiram à extinção. Como contrapartida, o Ministério do Esporte apoia os Jogos dos Povos Indígenas e possibilita que os Pataxós do Sul da Bahia, entre outras etnias, divulguem no evento pios para diversas aves, inclusive os passeriformes. Também é oportuno popularizar o zabelê, a flauta de nariz inventada no Brasil.

O YouTube ajuda na divulgação de videoaulas para produção de apitos caseiros com materiais alternativos. Em lojas virtuais, como mundomilitar e sularmas, quase nem há apitos para passarinhos. A fabricante NewArt deu sequência à tornearia dos anos 1950, em SC, e também prioriza pios voltados para os mais carnudos.

Na Maurílio Coelho tem diversidade. “Para os passeriformes ou pássaros menores fazemos geralmente pios mais finos (1 e 28), mas o que mais faz cantos é o pio 25”, informa o empresário e músico profissional Fábio Coelho, autor do cd Cheiro de Chuva, que tem “uma floresta de pios”.

São instrumentos que enriquecem a música mundo afora. No Brasil, já foram utilizados pelo instrumental Hermeto Pascoal, a banda Sepultura, no pop rock Lança Perfumes, de Rita Lee, no samba, pagode, no erudito. O maestro Marcelo Bratke utilizou pios artesanais – sabiá e tico-tico – no espetáculo Tom Jobim Plural, de 2013.

Para a conclusão do curso de graduação na Unesp, em outubro de 2016, o músico Rodrigo Reis apresentou ECO – concerto para ensemble, galhos, voz e pios. O projeto se tornou um documentário com a sonoridade de insetos e anfíbios. O músico não conseguiu adquirir, de pronta-entrega, pios para alguns passeriformes.

A Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil, Save, informa que o Brasil é o segundo país com maior diversidade de aves no mundo. São 1.919 espécies catalogadas. Em um informativo que acompanha um estojo de pios consta que existem quatro empresas desse segmento no mundo: duas no Brasil, França e Austrália.

Em tese, pios representam um grande negócio local e exportador, mas depende da visão sustentável de governantes e da população. Enquanto essa grande mudança não acontece, um passarinho contou uma das razões do pouco investimento em pios para passeriformes. Há desejos e mobilizações para que a caça de aves volte a ser liberada no Brasil. Diante dessa possibilidade, bico calado e nenhum pio, para não alimentar a ideia.

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