Monstro coisa nenhuma

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Pedimos e Marcius Cortez enviou texto sobre o seu livro “O monstro de Stanley Kubrick coração mole”, lançado pela editora Perspectiva e à venda nas livrarias de Natal. Trata-se do primeiro livro sobre o diretor escrito por um brasileiro. 

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A estranha história do boxeador, as ruas mudas de Nova York e a luta final no depósito de manequins acenderam o botão de alerta para os três jovens cinéfilos, Moacy Cirne, Paulo de Tarso Correia de Melo e eu, na Natal dos anos 50. Para completar quando entrou em cartaz “O Grande golpe”, o crítico e nosso guru Berilo Wanderley nos chamou e declarou: “Meninos, prestem atenção nesse Kubrick. Ele ainda será um dos maiores diretores do cinema”.

A partir daí segui Stanley Kubrick como os reis magos seguiram a estrela. Em cada um de seus filmes, ele deixou seu rastro perfeccionista e sua ramificação diferenciada.

Na sua estréia, Kubrick despiu a catarse. Ele inventou uma imagem surreal, os inimigos mortos adquiriam o rosto de seus assassinos. “Medo e Desejo” (1953) primou por um batismo problemático. O elenco era pra lá de canastra, a narrativa era confusa, contudo a guerra apresentada pelo diretor era bem diferente daquilo que o público estava habituado a ver. A identidade kubrickiana se fizera presente: “o olho do fotógrafo narrador” deslancha para que o filme encarnasse o inferno.

Na sua segunda experiência cinematográfica, “A Morte passou por perto” (1955), Kubrick despiu o preconceito racial. O dono do bordel é mulato. Um mulato disfarçado de homem rico que inaugurou o primeiro beijo entre um afro e uma branca loirinha.

O jovem diretor nascido e criado no bairro do Bronx em Nova York apreciava clicar a tecla de que nem tudo são flores na imensidão que nos cerca. Em “O Grande golpe”, Kubrick despiu a corrupção. Trabalhadores honestos se engajam na formação de uma quadrilha para roubar a hípica de Los Angeles. A ética nesse filme foi guindada ao posto de coisa relativa, bem relativa.

Em “Glória feita de sangue”, seu terceiro trabalho, Kubrick despiu a hierarquia militar. Filme proibido na França, Bélgica, Espanha, Suíça, Israel e em todas as bases norte-americanas sediadas em país estrangeiro. Broulard, o general de “Glória feita de sangue” é um asco. O nome de Stanley Kubrick foi para o caderno dos organismos de segurança do governo ianque em letras vermelhas.

Em “Spartacus”, a produção de 12 milhões de dólares, Kubrick não despiu nada. Costumo dizer que “Spartacus” foi o dia em que ele se “disneirizou”.

Em “Lolita”, Kubrick despiu a hipocrisia social. Subverteu tudo, subverteu até a história de Nabokov, o autor do livro que inspirou o filme. Obra fundamental na carreira do diretor. Kubrick dá uma volta de 360 graus em “Lolita”. O que era para ser apenas uma adaptação da novela que se tornou referência da liberdade sexual do século XX transformou-se numa carruagem que transporta um inesperado amor gay.

Em “Dr.Fantástico”, Kubrick despiu a guerra fria. Pois é, a qualquer momento a Humanidade pode ir pelos ares. O humor selvagem do diretor revoltou os gorilas de plantão que se proclamaram irados “onde já se viu gargalhar porque a bomba vai reduzir o nosso planeta a uma poeira sideral?”

Em “2001”, Kubrick despiu a corrida espacial. Ao som de “Danúbio Azul”, ele mostrou que o que estava em jogo era o poder. Kubrick despe o nosso despreparo, trata-se de sua obra mais espiritualizada. Foi eleito o segundo melhor filme da história, menos para a célebre crítica Pauline Kael que afirmou que a odisséia do monstro não tinha pé nem cabeça.

“Laranja Mecânica” despiu o livre arbítrio. Temos toda a liberdade de sermos “laranjas mecânicas”, afinal o que importa é se dar bem. A Inglaterra proibiu o filme por 15 anos. O pastelão mais explosivo do cinema não poupa ninguém. Estamos todos condenados às geleiras do sombrio.

Em “Barry Lyndon”, Kubrick despiu o crepúsculo da nobreza. Barry (Ryan O’Neal) perde o amor da mulher, perde a perna, perde o filho porque ousara ser irlandês na ilha pertencente aos súditos da Rainha. Um filme belo e lento onde a racionalidade engomada triunfa. Uma das obras-primas que o cinema ainda não reconheceu. Tudo bem, as coisas sempre acontecem assim para o menino do Bronx.

Em “O Iluminado”, Kubrick despe o filme do terror. Funda uma obra irretocável, tudo é perfeito. Stephen King, autor da obra inspiradora disse um dia que o filme era um cadilaque sem motor, mas o tempo o convenceu que se trata de um bólido turbinado muito além da imaginação.

Em “Nascido para matar”, Kubrick despe o Vietnã. Quem chama aquilo de guerra está com o miolo mole furado por alguma bala full metal jacket. Como diz o soldado Animal Mother àquilo era uma chacina. Os altos poderes estabelecidos revidaram fritando o criador da “laranja podre”.

Por fim, Kubrick surpreende em “De Olhos bem fechados”, contando uma história de amor entre o marido e a mulher onde o verbo fuck fazia todo o sentido.

Entendo perfeitamente quando Kubrick desfazia esse negócio de considerá-lo um monstro. No máximo, ele pode até se considerar um monstro sagrado do cinema, mas de resto Stanley Kubrick é só uma pessoa que nos alertou que apesar da escuridão que nos cerca temos que fazer a nossa própria luz.

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Comentários

1 comment

  1. Marcius Cortez 6 novembro, 2017 at 17:11

    Tirei o mote desse artigo de uma recente conversa com Paulo de Tarso Correia de Melo. Ele falava da sua grande admiração por
    “A hora da estrela” de Clarice Lispector.
    Logo no início da novela, a personagem Rodrigo SM indaga para si mesmo:
    “Quem já não se perguntou: sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?”

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