A morte como ofício da sacerdotisa Militana

Edilberto C.
Destaque

dona-militana_3Conversar com Dona Militana exigia certo tato e diplomacia. Embora espontânea e receptiva com as visitas, sempre se mostrou voluntariosa e de forte personalidade.

Em nossos encontros, eu levantava a poeira sem tocar na areia, sob risco de nada mais ouvir daquele manancial fecundo.

Pressenti que uma de minhas buscas era das mais movediças: a relação da romanceira com a morte, tema quase impenetrável por tanger o âmago do afeto.  Ledo engano.

Dona Militana não se fez de rogada e me ofertou a mais palpável das mortes, como se me dissesse que a forma burguesa e profilática com que lidamos com a morte nada tem a ver com a morte no mundo agrário!

Claro que ela não deixou de me mostrar a morte como extremo limite do sofrimento. Todavia, me fez ver que no mundo oral e agrário a morte é aprendida desde a infância, ao contrário do mundo letrado e urbano.

A menina Maria José “cuidava dos antigos” da doença até a morte. Com o pai, aprendeu a lavar e vestir o morto, a cantar os benditos para encaminhar a alma à vida supraterrena.

Conforme suas palavras, Dona Militana herdou do pai não só os romances que cantava, mas também o ofício de cantar os benditos para encomendar os mortos.

Essa convivência com a morte, como também seus ritos funéreos são percebidos em nossos diálogos vespertinos.

A morte como ofício

Tinha uma moça que não era certa do juízo. Aí foi um dia botar água, que era ela quem botava água em casa. Na casa dela tinha duas que era empregada, tinha outra casada, tinha dois irmãos mais não botava.

Aí ela foi pra cacimba. Aí quando chegou na cacimba, encheu o pote, botou na cabeça. Aí chegou um home e chamou ela pra ir pros mato. Aí ela disse: “Deixe, eu vou deixar a água em casa, deixe eu voltar.” Aí ele disse: “Tá certo”.

Ficou esperando sentado na beira da cacimba. Aí ela chegou em casa, pegou a faca de mesa afiada, botou dentro do seio e chegou foi encher o pote. Ele disse: “Deixe o pote, depois você enche”. Ela disse: “Não, primeiro vou deixar cheio”.

Aí ela encheu o pote, ele chamou ela pra fazer safadeza, aí ele mandou ela se deitar. Quando ele quis se aproximar ela passou a faca na nojenta, tirou com saco e tudo. Quando acabou empurrou ele com os pés que ele caiu.

Chamavam ela de Maria Doida. Aí quando chegou em casa com os olhos acatitados, com o pote d’água, o pai viu a roupa dela suja de sangue, disse: “O que foi isso Maria?” “Foi nada não! Foi nada não! Foi eu que mandei Mané pro inferno, ele foi fazer uma viagem.”

O pai disse: “O quê menina?”. “Foi Mané que foi fazer uma viagem, é porque ele veio com conversa comigo e eu meti a faca nele.” Aí o pai disse: “Tô reiado!”. Aí lá foram ver, chegaram e tava Mané morto. Aí ela foi arrumar a roupa pramode ir simbora. Aí ele disse: “Não, nós toma conta”.  

Quando a polícia chegou, foi buscar ela. Aí ela disse: “Vou, eu vou mais levo minha faca.” Aí ele disse: “Leve, pode levar que é pramode mostrar ao delegado.” Aí veio o pai dela e os dois irmãos. Quando chegou, aí o véio, o Moura, era quem era o mandão. Aí o delegado disse que ela ia ficar presa.

Aí o véio Moura disse: “Não, quem merecia ir preso era ele. Mas como a menina prendeu ele pra sempre, a menina vai voltar pra casa dela. Agora o senhor venda sua casa, procure outro canto pra morar, pode os irmãos dele procurar vingança”. O velho botou ela na casa do irmão dele na cidade, eu até visitei a casa dele. Vendeu a casa dele e foi embora pra Natal, até hoje vive por lá, foi Maria Doida!

dona-militana_a-morte-4Crime e castigo

A narração mostra um episódio em que a morte representa a punição contra a concupiscência imoral do personagem Mané.

A sentença é decretada pela própria violada que, embora anunciada “Que não é certa do juízo”, toma a decisão correta para o contexto social, pois um atentado contra a moral é mais grave que contra a vida.

Sob esse aspecto, a morte é admitida e natural, de modo que tirar a vida de alguém não se configura como crime, uma vez que uma lei maior foi violada.

Essa moral vai de encontro à concepção das sociedades letradas, em que os crimes e punições estão previstos em código. O conflito entre as duas concepções fica evidente na palavra final do velho Moura, “Que era o mandão”, cuja palavra submete inclusive a determinação da autoridade legalmente constituída.

O velho Moura é a única autoridade duplamente admitida, primeiro pela condição de “véio”, que se destaca duas vezes na fala de Dona Militana e, principalmente, por integrar um universo em que a palavra falada tem mais sentido do que a escrita.

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Ilustração: “Birth”, de Agnes Cecile

A morte como ofício- II

Eu me lembro. Quando mamãe Joana morreu, nós fumo pra Barreiros, quando cheguemos… A muié era dessa grossura, quatro muié quase não bota ela pra fora. Morreu com todo corpo, disse que foi a dentada de um maribondo. Mordeu em riba da mão esquerda.

Aí eu fui deixar as coisas que mamãe mandou. Aí quando cheguei lá, eu digo: “Minha madrinha, Mãe Joana tá morrendo”. Ela disse: “Já chegou o urubu de asas”. Aí Tio Ciço: “Se ela disse que ela tá morrendo…”.  

Tio Ciço sentado em cima da mesa mais a muié, madrinha Alice fazendo o café e Tia Noca sentada no pilão. Eu digo: “Mãe Joana tá morrendo”.

Nesse instante eu encostei, aí mamãe: “Não tava morrendo, tu já vem chegando agora e já vem dizendo que ela tá morrendo.”

Eu digo: “Tio Ciço tem vela aí?”. Aí Tio Ciço me deu a vela, eu acendi, virei ela, Tio Ciço me ajudou a virar ela, que ela era muito grossa, gastou o bico da vela. Se eu não chego, tinha morrido sem vela e tinha ficado encuída.

dona-militana_a-morte-2Ritos funéreos na morte do pai e da mãe

O relato acima, diferentemente do anterior, fala de um episódio familiar e ressalta a autoridade de Dona Militana frente à morte. Ela não é só a pessoa consagrada à condução da tia moribunda como é a única a perceber sinais da chegada da morte.

Embora contestada pela madrinha, que a chama de “urubu de asas”, portadora da má notícia, seu saber inquestionável é expresso claramente pelo tio Ciço, que diz: “Se ela disse que ela tá morrendo…”.

Essa autoridade a transforma na principal agente desse rito de passagem, porque “nem todos têm o direito de tocar no cadáver. Somente (…) pessoas de boa vida, especializadas, com a seriedade e compostura de uma exposição de ofício religioso”, como disse Câmara Cascudo.

É investida dessa mesma autoridade que Dona Militana enterra seus entes mais queridos. A próxima narração, de todas, a mais longa, é descrita em detalhes para tornar presente as mortes da mãe e principalmente do pai.

A morte de sua mãe é rápida e quem assume os ritos funéreos é o seu pai. Vê-se nessa hora a mesma presteza em conceder a luz, acendendo a vela.

A importância desse rito é assinalada no discurso pela urgência de se colocar a vela, o que nas três mortes quase não era possível.

No caso da tia, mal é colocada a vela, e ela morre; já sua mãe, só deu para consumir o bico da vela, e, quanto ao pai, tão logo Dona Militana percebe o sinal da morte, mune-se imediatamente da vela e da caixa de fósforo.

Perguntada sobre a importância da vela, a resposta não podia ser mais clara: “Porque a pessoa anda no escuro e tando com a vela na mão anda no claro”, a morte é considerada uma passagem e a função da vela é exatamente de clarear os caminhos da alma.

dona-militana_a-morte-5A morte como ofício – III

Aí quando ela [mãe] foi botando o rosário, afastou de costa e disse: “Ai, meu Deus, que dor eu tô na cabeça”, e caiu sentada. No que ela foi caindo, disse: “Ai que dor”, que foi caindo, comadre Benedita, minha irmã, foi chegando, pegou ela pela cintura, mas não aguentou o peso dela, que ela era dessa grossura. Aí caiu sentada com ela.

 Não deu tempo de botar em canto nenhum. Aí papai chegou e disse: “É isso mesmo… tá se acabando, minha Maria”. Aí botou a vela na mão dela, só gastou o bico da vela, ia morrendo sem vela.

Papai passou, passou, quando foi um ano, dois anos, com dois anos que ela morreu, ele morreu. Ele caiu doente, aí eu ia pra lá, fazia as coisas pra ele, era ele só mais comadre Severina.

Quando foi no dia que ele morreu, aí eu tava sentada na cama dele, mesmo assim, eu botei a cadeira, mesmo assim encostada na cama e ele deitado, só de ceroula, […], aí eu digo: o senhor fique aí que eu vou trabalhar, mas volto.

Comadre Severina dizia: “Eu vou dormir um pedaço da noite”, e dormia a noite todinha. E eu passava a noite acordada. Aí ele disse: “Isso é que é um calor minha filha!” Eu digo: “O senhor quer tomar um banho?”.

“Quem mim dera eu tomar um banho!”. Tinha Gaspar, que era filho, que tinha deixado a mulher e tava dormindo lá e tinha o neto de Raimundo, Sérgio. E tinha o cunhado de papai e tinha Neto. Aí eu perguntei: “O senhor quer tomar banho?”.

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“e ali mesmo morreu, não fez careta, não fez nada. Eu vim chorar com três dias”

“Quem mim dera eu tomar um banho!” Aí eu peguei uma bacia, desse tamanho, botei no meio da casa, na sala, amornei a água, quebrei bem a frieza da água, tirei ele, sentei numa banca e tirei a roupa dele sozinha, porque comadre Severina tinha ido pros mato.

Aí tirei a roupa dele, dei banho nele, ensaboei a cabeça dele, aí ele ficou tão limpinho! Aí quando dei banho nele, enxuguei ele, e isso com as portas tudo fechada, aí enxuguei ele, vesti a roupa, botei ele na rede, ele ficou chorando. Eu digo: “Porque o senhor tá chorando, papai?”.

“Porque tu sendo minha fia, eu com genro, com neto e tu sendo minha fia, tu é quem mim dá banho?” Aí eu disse: “E eu não tinha marido. Não sei o que é que um home possui, não?”.

Aí, deixei ele na rede, depois tirei ele da rede e botei na cama, que era uma caminha de solteiro, porque ele passava um tempo na rede e ia pra cama, ver se estirava a coluna.

Aí botei ele na cama e desatei a rede e fui pra dentro, fazer um café. Quando eu tirei aqui, a chaleira do fogo, que olhei, ele tava assim, aí eu fiz carreira, deixei a vela e a caixa de fósforo no bolso, e cheguei onde ele tava: “O que é papai?”.

Ele disse: “Tô indo embora minha fia, tome conta do terreno, não deixe gente de fora fazer casa, aí é pros fios e netos.” Eu digo: “Tudo bem, não tenha cuidado, não”. Aí eu disse: “Gaspar, ajeita aqui papai, que papai tá morrendo”. Ele disse: “Vai buscar minhas chinelas no derradeiro quarto”. 

Que era dois quartos grandes, a sala e cozinha. Eu digo: “Tinha muita graça eu deixar papai nas últimas pra ir buscar teu chinelo, porque não trouxesse pra debaixo de tua rede?”. Fiquei sentada, aí botei a vela na mão dele. Eu disse: “Chegue, ajeite aqui papai!”.

Ele disse: “Ajeite.” Peguei aqui as pernas dele, torci os quartos pra ele ficar assim e ele estirou as pernas, peguei por aqui, trouxe ele, carreguei, aí ele disse: “Cuidado pra não ir brigar com ninguém, prumode não ir apanhar.” Eu digo: “Não tenha medo, não”.

“E outra coisa, cuidado que você é meia doida”. Eu digo: “Eu sei, mais no meio das doidices mim lembro do senhor”. Ele até achou graça. Aí ali mesmo ele morreu. Ele morreu, eu disse: “Comadre Severina, a hora é essa, aí ela no lugar de vir pra onde eu tava, fez carreira.

Aí peguei, vesti a camisa dele, puxei a camisa, subi a cueca, que tava lá embaixo, botei a vela na mão dele, ali mesmo, me deu conselho, me deu conselho e ali mesmo morreu, não fez careta, não fez nada. Eu vim chorar com três dias.

Com três dias, foi que eu sentada imaginando: é isso mesmo, papai tanto que lutou pra criar a gente e morreu sozinho na minha companhia, mas não tem nada não, aí comecei a imaginar, o que ele fazia, o que ele dizia e chorei. Mesmo assim foi mamãe. No enterro de papai, faltou uma pessoa pra fazer 100 pessoas.

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Cemitério de São Gonçalo do Amarante

O saber dos rituais

Outra imagem que ressoa em seu discurso é o do banho ritual. O pai deseja tomar banho e, embora estejam em casa cinco homens, é a filha quem assume o papel, contrariando pudores do pai que, mesmo assim, o aceita.

Essa aceitação é compreensível, mais porque Dona Militana é uma iniciada nos rituais da morte, do que pelo fato de conhecer “o que um homem possui”.

Ambos sabem, pelo conhecimento adquirido, que a morte está chegando. A lavagem do corpo é uma purificação necessária para que se faça a passagem.

Não fosse isso talvez o pai o recusasse. Mas ciente de que sua hora está chegando, não só é fundamental o banho como ninguém melhor para fazê-lo que a sua herdeira moral e espiritual.

Os outros são mostrados no discurso como profanos nesse momento: a filha Severina teme a morte e foge, Gaspar se mostra relapso, despreparado para a ocasião.

Só depois de cumprido o banho de purificação e recebida a vela que lhe ilumina o caminho, ele se reintegra ao corpo social, pronto para ser enterrado.

Tanto é que, contrastando com o isolamento na doença, “no enterro do pai, faltou uma pessoa pra fazer 100 pessoas”. O falecimento de seu Atanásio é um típico exemplo daquilo que as pessoas do interior do Brasil denominam uma “morte bonita”.

O momento de sua passagem, nos instantes finais, se faz sem agonia e com consciência, dando conselhos e delegando poderes, fazendo seu testamento. É importante frisar que tudo se faz oralmente, pois no momento da morte é quando a palavra tem mais poder e sua vontade é inquestionável.

Embora tivesse vários filhos é a Militana que ele dirige as últimas palavras, fazendo-a legalmente sua herdeira, não só das terras, mas também deixa um legado moral: “Ali mesmo, me deu conselho, me deu conselho e ali mesmo morreu, não fez careta, não fez nada”.

Em todas as narrativas e, especialmente na do pai, salta aos olhos o conhecimento e o convívio com a morte incomuns nos dias de hoje, quando a morte é “expulsa do universo dos vivos”, pois, como defendia Walter Benjamin, os “burgueses vivem em espaços depurados de qualquer morte”, sendo seus mortos “depositados em sanatórios e hospitais”.

Nesta última narrativa, Dona Militana nos mostra a relação com a morte ainda conforme princípios arcaicos. Assim, toda a cerimônia fúnebre, como os ritos que antecedem a morte do pai, não são feitos no quarto nem em ambiente recluso, mas na sala de visita, como o centro das atenções.

O morto vira um rei, de cuja boca irradia todo o saber e autoridade perpetuados pela memória da herdeira.

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Edilberto C.

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