Narcos 3: O encontro dos sistemas

Bruno Rebouças
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Se nas duas primeiras temporadas de “Narcos”, queríamos a vitória de Pablo Escobar e do Cartel de Medellí­n, agora nossa torcida é pelo agente Javier Peña (Pedro Pascal) na guerra contra os Cavalheiros de Cali; viramos legalistas e queremos que os caras do bem vençam.

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Nascido no Chile, mas criado entre o Texas e a Califórnia e morador de Nova York desde 1993, Jose Pedro Balmaceda Pascal (dir.) protagoniza a terceira temporada de Narcos.

Rei morto, rei posto.

O poder absoluto das monarquias europeias dos séculos XVI e XVII deixaram a lição seguida à  risca nas ditaduras longevas do século passado, em um sistema aperfeiçoado no mundo do crime atual.

“O estado sou eu”, como declarou Louis XIV, o rei-sol francês.

É a primeira lição da terceira temporada de Narcos, cujo argumento parece com o de Tropa de Elite 2, na qual o inimigo agora é outro: nada menos que a maior organização de drogas da história, o cartel de Cali.

Outro elemento fundamental da série da Netflix é que, além de o inimigo agora ser outro, nosso apoio muda de lado.

Se nas duas primeiras temporadas, apesar de toda a barbárie causada por Pablo Escobar, nós ‘torcí­amos’ por ele e pelo Cartel de Medellí­n, agora é unânime a torcida pelo agente Javier Peña (Pedro Pascal) e pela polícia.

Bom, nem para todos.

Tal qual as duas temporadas anteriores, integrantes do aparelho de segurança estão nos bolsos do cartel de Cali. Estes são os corruptos (e deles trataremos em seguida).

A terceira temporada de Narcos corria o risco de estragar a ótima impressão que deixou nas duas primeiras temporadas, especialmente a primeira, sem a figura de Pablo Escobar.

É verdade que nos dois primeiros episódios se nota a falta do personagem de Wagner Moura, logo esquecida quando a temporada ganha corpo, já no segundo episódio. E aí­ Pablo é rei morto e Gilberto Rodriguez rei posto.

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Localizada a quase mil metros de altitude, Santiago de Cali tem 2,5 milhões de habitantes, IDH elevado (0,861) e é a Terra da Salsa, patrimônio cultural colombiano.

Diferenças entre cartéis: Medellí­n vs. Cali

A fórmula de José Padilha, diretor da série, funciona outra vez. Nos capítulos iniciais é estruturado o sistema, de maneira didática e objetiva. Agora, após assistir a série, alguns podem usar a receita de ‘lavar dinheiro’ de forma caseira.

Dito isto, entre a estruturação de dois modelos de diferentes, Medellí­n e Cali se complementam em suas estratégias, sendo a de Cali mais sofisticada e melhorada da inicial usada por Escobar.

A grande diferença entre os dois cartéis está na sua pirâmide hierárquica. Enquanto Medellí­n tinha um rei absoluto, popular e popularesco, que buscava o suporte dos pobres e das classes menos favorecidas para se defender ou ampliar o poder, os de Cali não se mesclam com a ralé.

Eles se juntam com os ricos, homens poderosos, de mando e influência. Ou seja, com os corruptí­veis. Além disso, Pablo era o estado. Apesar de diversos aliados que formavam seu cartel, era ele o dono de tudo.

Já o cartel de Cali, apesar de ter em Gilberto Rodriguez seu rei, apresentava uma estrutura baseada em quatro braços de poder, ou em uma linha sucessória, contando com Miguel, o ‘vice-rei’ e irmão de Gilberto, Don Chepe, responsável pelas operações nos Estados Unidos e Helmer (Pacho) Herrera, quarto na linha, e o mais exitoso e famoso narcotraficante gay da Colômbia.

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No auge, Cartel de Cali exportava 80 toneladas de cocaína por mês, para os EUA; chefes eram discretos nos negócios e na vida pessoal; influência ia além do uso da violência.

E qual era o objetivo disso?

Pode-se cortar a cabeça do organismo que o corpo segue caminhando. O cartel de Cali foi a maior organização de drogas da história. Em seu auge, transportava 80 toneladas de cocaína por mês para os Estados Unidos – eram responsáveis por 80% da produção mundial.

Seus chefes eram conhecidos como os Cavalheiros de Cali, discretos, quase invisí­veis. Funcionavam como uma multinacional. Especialistas em lavar dinheiro e com influência que ia além do uso da violência contra os poderes. Faziam parte do mesmo desde suas luxuosas e fortificadas mansões.

O modus operandi de matar inimigos também era diferente. Escobar fazia questão de que todos soubessem que o morto era obra sua, enquanto os Cavalheiros de Cali ocultavam ações em um precedente jurí­dico: sem corpo, sem crime.

O melhor dos planos: uma mão lava a outra

Nós, latino-americanos, entendemos de corrupção. Algo que assombra um europeu nem chega perto de arrepiar-nos. O sistema com qual lutou a Colômbia nos últimos 30 anos, sim, que nos assusta. A corrução entre polí­ticos sociologicamente é um fato social normal, como o suicídio, usando Durkheim, porque acontece em todas as sociedades.

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Enquanto Medellí­n tinha um rei absoluto e apoiado pelos pobres para se defender ou ampliar o poder, os chefes de Cali não se mesclam com a ralé.

A corrupção de agentes de segurança em conexão com traficantes, como se ver tanto em Cidade de Deus como em Tropa de Elite, no caso brasileiro, é uma realidade continental.

Porém, na vida real colombiana houve algo a mais.

Pablo tinha agentes do estado a seu mando, juízes, advogados, promotores, mas não tinha presidentes; matou um, tentou matar outros. Virou moda sua aterrorizante pergunta: plata o plomo?

Os cavalheiros de Cali, sim, tinham. E não só presidente, mas ministros e afins.

Era o poder supremo da influência, dessa vez não somente da violência, mas do dinheiro e de uma suposta paz que começou a existir depois da morte de Escobar.

Já não havia mais guerra. E ninguém parecia disposto a romper o pacto de Varsóvia de não agressão e divisão. É o que França e Inglaterra e outros colonizadores fizeram com a África: dividir para comandar.

Os cavalheiros de Cali tinham o plano perfeito e contavam com a grande ligação que tinham com as esferas do poder.

Entregar todas as atividades de produção e distribuição de drogas, passar um tempo simbólico na prisão e preservar todo o dinheiro que tivessem em suas mãos (em cash) e manter todos negócios legais em funcionamento.

Só que não existe plano perfeito. E a banca sempre vence, embora no mundo dos corruptos e dos corruptíveis, essa seja uma verdade refutável.

Organismo quase perfeito

O resumo do maior cartel da história, segundo o agente Peña, protagonista dessa temporada, explica de maneira didática:

“O cartel de Cali é um organismo quase perfeito. Apesar de lhe cortar a cabeça, o corpo segue em frente com a fabricação e a venda de cocaí­na. E durante muito tempo esse plano funcionou. Mas nenhum plano é perfeito. Sobretudo se manipulas uma substância tão volátil como a cocaína”.

Cedo ou tarde vai cometer um erro. E quando isso acontecer, os inimigos estarão lá. Independente da audácia ou genialidade, os planos são destruí­dos em uma fração de tempo que dura um equí­voco. E, daí­ para o fim, é ladeira abaixo, para usar as palavras de Peña.

Os sistemas aqui se confluem, estão unidos. Narcotraficantes, policiais corruptos, políticos de alto escalão no governo. São os dois sistemas iniciais. E nós não apoiamos nenhum dos lados.

Na terceira temporada de Narcos, nós somos legalistas, oficialistas e queremos que os caras do bem vençam.

Essa é outra caracterí­stica importante na construção do discurso de Narcos 3:  a exposição dos fatos e dos feitos não apresentam um anti-herói com a dominação carismática ou de um lí­der supremo, como a do personagem de Escobar.

Apoiar seu personagem nas duas primeiras temporadas não quer dizer que concordamos com ações e compactuamos de sua moral. Não.

Quer dizer apenas que um herói defeituoso, cruel e narcoterrorista pode ser manipulado e transmitido como um anti-herói por quem ‘torcemos’ como analisamos em artigo anterior neste Substantivo Plural sobre a série Narcos e o livro de Garci­a Márquez, Notí­cia de um sequestro.

Luz sobre as verdades

Narcos 3 é a luta entre os sistemas. Os dois citados e o terceiro setor, formado por meia dúzia de heróis indubitáveis e intrépidos, com defeitos iguais aos nossos.

Ao fim não se pode vencer um sistema tão amplo e poderoso, de tentáculos longos que abarcam todas as esferas. Mas pode-se sangrá-lo, desmonta-lo, mesmo sabendo que sem cabeça eles seguem em diante.

Ou como uma Hidra de Lerna, que ao ter uma das suas três cabeças cortadas surgiam duas mais em seu lugar. No mundo do crime essa é a grande realidade.

O terceiro sistema burla e reivindica o direito como ‘banca’, que uma hora ou outra vencerá, mesmo sabendo que será substituí­do por mais dois outros sistemas.

A vitória depende de uma coisa fundamental: transmitir a verdade no momento certo. Se não podemos vencer, ao menos que o povo saiba o que ocorre. Aí­ surge a Imprensa como a instituição responsável e guardiã da sociedade através da revelação da verdade dos fatos.

Usando a metáfora de Walter Lippmann para explicar o que era a imprensa, em Narcos ela surge tal qual um farol no mar iluminando fatos para o conhecimento público.

Narcos 3_PressVerdade sob as luzes

O sistema corruptí­vel apresenta sempre soluções paliativas para demonstrar que está vencendo a guerra contra o mundo do crime. Mas, na verdade, essas ações podem estar revestidas de tratos e compromisso, como em Narcos.

Sugerir que está ganhando é o que importa, porque nessa guerra já não tem vencedor. E isso remonta ao papel dos jornalistas dentro da sociedade.

Se sobre uma estrutura oligopolista como a nossa, exigir a verdade dos meios de comunicação que contrarie os interesses, compromissos e tratos dos seus donos é impensável, é papel dos jornalistas criar o ‘terceiro setor’ do sistema, para manter a verdade sobre um faixo de luz que deve ser exposta para iluminar o que acontece no Brasil, que não está longe dos sistemas corruptos e corruptí­veis da Colômbia dos anos 1990, auge dos carteis e do crime organizado.

Narcos mira agora para o México e, palpite, baixará no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, o quanto antes.

Isso talvez nos tire da inercia de pátria gentilmente dormida em berço esplendido, que está em guerra civil há anos, na qual morrem silenciosamente mais de 50 mil pessoas em homicí­dios… por ano.

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Bruno Rebouças

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