Crônicas e Artigos

Noronha: O paraíso bem ali – II

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Encontrei em Noronha o ambiente utópico que esperava. Longe das miudezas e baixezas que vivenciamos no continente, neste ano histórico duríssimo e cheio de injustiças flagrantes. Foi o cineasta Augusto Lula quem me falou que Noronha seria o paraíso terrestre cujas coordenadas teriam sido citadas na obra de Thomas Morus, que completa 500 anos (“De Optimo Reipublicae Statu deque Nova Insula Utopia”). Fui conferir.

Utopia!!! A Utopia é que nos salva, ora essa!!! Utopia que nos abre novo olhar. Abriu-se uma janela no espaço e no tempo. E através dela mergulhei, com os meus filhos e minha mulher, buscando pequenos lances utópicos, vestindo fantasias que sabíamos efêmeras cronologicamente, mas perenes no sentimento. Não havia o que temer. Era somente ancorar os sonhos naqueles mares e explorar, com olhos e coração atentos, sem o toque rude, somente a delicadeza do ventos e a força das correntezas salgadas. O mar de dentro e o mar de fora. O peito que se enchia de ar e orgulho idílico. Brasil e África e Europa se encontrando naquela “ilharquipélago”. E o sonhar, sem limites, durante quatro dias.

Noronha guarda sonhos e guarda mistérios. E também há contradições. Ali também foi prisão. Foi símbolo das vergonhas autoritárias dos homens que insistem em roubar as liberdades dos outros. E pisotear direitos. Não dá para negar que um dia usaram e usurparam as cores de Noronha, a luz de Noronha, os ares e olhares de Noronha. Mas as liberdades e os direitos das gentes sempre têm o seu retorno triunfal, como teve em Noronha. E no Brasil. É porque os homens não toleram viver trancafiados diante das belezas soltas e correntes do mundo. Os homens e mulheres de fé e de coragem buscam sempre o horizonte, sempre a utopia.

Talvez tenha sido a busca por essa utopia que movera o padre potiguar Francisco Adelino de Brito Dantas, natural do Campo Grande, ribeira da província de Upanema, quando foi assumir, em 1888, a Capelania da ilha, tendo a sua designação partido do bispo de Olinda e Recife. Esse religioso buscou construir o bem-estar dos habitantes da ilha, quase todos presos condenados pela Justiça, tendo ele encontrado e ajudado a escavar – em meio às suas andanças reflexivas – um manancial d´água boa, 14 metros abaixo do nível do mar, superando uma grave deficiência do lugar e dos pobres ilhéus.

Essa história acima é evidentemente melhor narrada por nosso Luís da Câmara Cascudo, que escreveu um artigo nas suas “Actas Diurnas”, edição de 11 de outubro de 1939 d’“A República”, tratando do tema tão caro à história e à vida de Fernando de Noronha. Esse texto, depois prefaciado por Olavo de Medeiros Filho, também se transformou na plaquete “A ‘Cacimba do Padre’ em Fernando de Noronha” (Sebo Vermelho e Fundação José Augusto, 1996). Andei passando os olhos por esse texto. E vivendo magias antigas.

Diz a lenda que até hoje o Padre Francisco Adelino ainda passeia pelas imediações da cacimba. Não posso afirmar ser verdade ou inverdade. Só sei que o lugar hoje denominado “Cacimba do Padre” é outro dos pontos que tive o imenso prazer de conhecer, vislumbrando a pureza natural e aquela dos homens que sonham e fazem o bem, com alteridade e bondade, mitigando o sofrimento dos que não possuem acesso aos víveres mais simples e, ao mesmo tempo, mais valiosos, como a água ou a liberdade. O Padre Adelino talvez ainda caminhe por lá, olhando firme para o horizonte, mirando utopias. E eu também sigo sonhando, cada vez mais. Cada vez mais.

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Lívio Oliveira

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