Notas antes do ponto final

Carlos Peixoto
Destaque

Durante anos insisti em ler nas viagens de ônibus, entre a casa e o trabalho. Até que ficou inteiramente impossível, pelas condições do nosso transporte público, e os estragos já feitos à visão deram o alerta: desista!

A única coisa possível de se fazer nos ônibus de Natal é ouvir música. Todos sabem disso. Você entra em qualquer veículo, de qualquer linha, e pelo menos dois terços dos passageiros estão com fones nos ouvidos. O outro terço está conferindo as mensagens no “zapzap”. Muito raramente, alguém tem um livro aberto nas mãos. Às vezes é uma apostilha de cursinhos preparatórios, nunca um jornal.

Não dá para ler nos ônibus de Natal, mesmo que se queira, porque existe o desconforto dos bancos duros, o calor, os solavancos de transitar por avenidas e ruas esburacadas ou com pavimentação desnivelada, as paradas e arrancadas bruscas, as manobras malucas, as freadas, as intromissões obrigatórias de um exército de “voluntários de Cristo”, “ex-dependentes químicos promotores da reabilitação” ou só vendedores oferecendo duas canetas, um salgadinho e um doce, um porta moedas e um chaveiro, uma caderneta de anotações e alguns decalques … Tudo por dois reais ou, se você não estiver precisando de nada disso, a oportunidade de ajudá-los “com qualquer quantia” a continuar fazendo aquele trabalho. Não dá para se concentrar em nada, durante uma viagem de ônibus por Natal, a não ser no desejo de chegar e no tempo que falta para o ponto onde vamos, finalmente, descer. E se a viagem é particularmente longa – há linhas com mais de 20 km de extensão – acaba-se por desejar ser possível também descer do mundo e da vida!

Verdade que, para ser justo, é preciso notar que essa falta de condições para incentivar a leitura e os leitores não é exclusividade dos transportes públicos da cidade. Ela se faz sentir também nas praças que aqui seguem um modelo urbanístico único, de inspiração “pós-concretismo soviético”. São praças sem arborização, sem aléias, sem quiosques, sem espelhos d’água, sem bancos e sem abrigo. Quer dizer, sem qualquer sombra ou recanto no qual um mortal alfabetizado (muito menos um deus cristão ou pagão) possa desfrutar de uma brisa aprazível em momentos de sossegada leitura.

Cafés? Como aqueles que encontramos em cidades pelo mundo afora; com mesinhas nas calçadas resguardadas do sol ou um cantinho no salão, quase privativo; entre um balcão e uma freezer de cervejas, próximo a vitrine com vista para a rua; tão ao gosto (já em desuso) dos beats norte-americanos, dos surrealistas catalões e simbolistas franceses? Natal não os tem! Há em uma, das duas livrarias que existem nos shoppings da cidade, um café, mas lá se vai – como às próprias livrarias padrão blockbuster – para ver e ser visto, não para conversar sobre literatura, livros e autores. Ficar horas sentado a uma mesa, sozinho diante dos próprios pensamentos, uma ou duas xícaras de café e uma folha de papel por escrever, então! É impensável e seria comercialmente impróprio.

Dizem que antigamente, Natal tinha “em cada esquina um poeta, em cada rua um jornal”. Mas, acho que o gracejo não fazia jus ao hábito de leitura da cidade, haja visto que nenhum desses jornais prosperou. Agora mesmo, nestes anos que fecham a segunda década do século XXI, Natal tem um único jornal em circulação, raquítico, pálido e sem fôlego para os sete dias da semana. Dos poetas, o único que saiu às ruas para viver da sua poesia foi confundido, enquanto vivo, com um mendigo e só depois de muito tempo morto teve seus poemas reconhecidos como tais.

Resta-nos, portanto, o streaming. Enquanto não chegamos ao ponto final.

Share:
Carlos Peixoto

Comentários

Leave a reply