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Notas de viagem (II) – Sobre a gentileza

BUTAO

Preciso deixar o hotel às cinco da manhã para pegar o voo às sete. Sabia que o restaurante estaria fechado a essa hora e somente no aeroporto tomaria o café da manhã. Mas para minha surpresa avisaram-se que a cozinha tinha sido aberta só para mim.

O cozinheiro, praticamente um garoto, me pergunta o que desejo . Um pão, um ovo e uma xícara de leite, respondo. Diz que um ovo não é suficiente, três ovos, dois no mínimo, pois vou viajar e preciso estar bem alimentado. Não desistiu nem mesmo diante da minha alegação de dieta, do meu medo do colesterol. E de quebra me trouxe ainda maçã para levar na viagem.No Butão as coisas acontecem assim, Há gentileza, e mais do que isso: em qualquer atitude o cuidado com o outro.

Bem, entro no carro e me dirijo para o aeroporto de Paro, o único do país. Sinto um incômodo no peito. A princípio penso tratar-se de gases, e adiante, mais preocupado,de alguma coisa do coração. Acertei, era uma trapalhada do coração. Os soluços foram chegando aos pouquinhos, muito leves, e depois incontroláveis, numa choradeira destampada, da qual até hoje não me envergonho.

Sentia muita vontade de voltar a minha terra, a minha casa, estava feliz porque estava regressando. Mas a caminho do aeroporto chorei porque tinha a certeza de que estava deixando para trás a última fronteira da humanidade, um reino ingênuo e perdido nos confins do Himalaia, um paraíso budista onde se reza saboreando biscoitos e sucos ofertados gratuitamente no ato litúrgico, muito diferente do mundo globalizado, cada dia mais insano e mais duro.

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