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Notas de viagem – “Go Hotel”

butao

Já que nos dias de hoje nada é fiável, e já que os deuses e as ideologias há muito que estão enterrados, ao menos sê boa pessoa, caramba! – Rosa Monteiro

Não tinha mais de quinze anos o guri. Ele me segue e me toca no braço. Momentos antes me espiava numa mercearia onde fui comprar água mineral.

– Go hotel, ordenou-me, apontando para o hotel que ficava em frente. A princípio não entendi a ordem. Havia gasto o dia em aeroporto e avião, a noite estava apenas começando, e desejava relaxar num lugar perto dali de onde saía música. Mas o guri insiste, uma, duas, três vezes – Go hotel. Sem conhecer o lugar onde pisava, obedeci-lhe, e a muito contragosto fui, como disse o bom amigo Tácito Costa, ressuscitando a expressão popular, dormir com as galinhas.

Dia seguinte, ainda intrigado, perguntei ao guia o porquê daquela ordem. Ele me explica: era uma sexta-feira, para aquele bar alguns camponeses vinham beber, e no caso de uma bebedeira maior poderia sair uma briga de socos. O garoto cuidou de me poupar de algum constrangimento e o jeito foi me despachar para o hotel.

Não só neste episódio, mas em tudo que presenciei no Butão, há uma cotidiana preocupação com o outro. Isso é intrínseco na cultura deles. Para exemplificar, falemos do trânsito, bem diferente do nosso. Tal é o cuidado dos motoristas entre si e com os transeuntes, que só me lembro de ter visto um semáforo em Thimphu, a capital. E no país todo não se cogita de cintos de segurança, embora se trafegue habitualmente a alturas abismais de quatro mil ou mais metros, e em estradas em que na largura só cabe um veículo. Pois, os carros não batem, não se xinga, muito menos se estira o indicador para quem dirige ao lado, e de jeito nenhum se ouve reverberar um sonoro grito de filho da puta. Ninguém abusa desse senso coletivo, mesmo sabendo que lá não existe cadeia, e a polícia, muito pouca (vi só uma patrulha, esta formada por mulheres pequenas e simpáticas), trabalha como os antigos guardas-noturnos, se valendo do apito.

Às vezes me vejo comparando o Butão ao paraíso. Mas como cá estamos acostumados a um outro ritmo de vida — veloz, empenhado em produzir para adquirir, é complicado se acostumar a tanta paz e serenidade. Talvez fosse preciso uma não muito breve reciclagem.

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