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O casal e a chuva

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O casal à espera do verde do semáforo. Sem pressa alguma.

O casal no meio da neblina de uma dessas chuvas que brincam com o calor do verão. Agarrados como se tivessem 17 anos. Mas não era bem assim. Eles eram maduros.

Ele ensaiando alguns cabelos grisalhos na dança do tempo em suas têmporas. Já ela, decerto, usava tinta. Tão abraçados e unos que passavam despercebidos pelos outros.

Havia até cansaço naquela entrega serena.

Os dois corpos se apoiando. Podia sentir o peso da cabeça dela apoiando-se no ombro do homem moreno.

Fazia um esforço voluntário com a ponta dos pés para ouvir o que ele dizia rente ao lóbulo da orelha.

Tão absortos no movimento de se proteger do simulacro urbano, quase invisíveis à massa de gente amorfa que não tem nome e somente, naquela hora, corria pelo medo da chuva de molhar suas máscaras.

Talvez ele estivesse dizendo para ela: “Dê-me os livros, que eu carrego”.

E ela, com uma única mão fazendo de corda em seu pescoço, se negando à gentileza e dividindo com ele o peso do dia: “Não. Eu carrego. Assim você fica livre para segurar a minha mão”.

Porque a outra mão do amado se ocupava de uma pasta. Era por isso: ela entendia menos de matemática e mais de aconchego.

Elderly couple at golden wedding holding hands

Talvez eles já tivessem três filhos.

O caçula com nove anos dando trabalho para aprender a regra de três; já que na casa habitam cinco, na verdade, seis com o vira-lata que acorda a vizinhança quando vê em cima do muro o gato angorá fujão da moça que mora em frente.

O do meio está aprendendo a beijar na boca, na escola, e a mais velha tentou o Enem nesse final e semana.

E, é possível, que naquele final de expediente, eles tenham se encontrado depois de um longo dia de afazeres e descoberto que não basta estarem juntos durante quase duas décadas.

É preciso descobrir também que a vida não é feita de grandes descobertas a dois, e sim de pequenas epifanias e celebrações do cotidiano vivo e pulsante.

É preciso se abraçar de vez em quando. É preciso se deixar molhar pela chuva estranha de uma quase noite de novembro, que anuncia uma lua crescente tão enigmática quanto uma lua nova.

O casal e a chuva molharam meus pensamentos.

Eu gosto de imaginar a vida das pessoas passando, como se delas pudesse encontrar mais que sentido.

Eu gosto de imaginar que as pessoas acumulam tesouros que não enferrujam com o tempo ou são comidos por traças.

Mesmo sem querer e sem sabe.

E só de imaginar que em tempos de tantas incertezas e sangrias, alguém possa pensar que aquele casal estava se arriscando em se abraçar no meio da chuva.

Assalto ou resfriado, dirão os avarentos.

E eu penso: o que é a vida senão o momento bem vivido? O que é a vida, sem o risco de vive-la?

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Sheyla Azevedo

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