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O Cinema vai a Elis

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Quando acaba a projeção do filme Elis, de Hugo Prata, muitos espectadores batem palmas. Penso que fazem isso em homenagem à cantora que ouviram (gravações originais foram usadas pelo filme, ótima opção).

Sim, é uma excelente intérprete, morta quando ainda era jovem, pouco conhecida por grande parcela do público jovem atual. Já o filme…

Ele possui méritos, claro. A música é quase sempre muito boa (as quedas se devem a eventuais canções menos inspiradas, embora a voz de Elis se mantenha impávida).

O elenco é bom, com destaque para Andréia Horta, que interpreta a personagem título (gesticulações e expressões faciais da personagem referencial foram muito bem estudadas por ela), sem demérito para os igualmente bons Lucio Mauro Filho (Miéle), Julio Andrade (Lennie Dale) e Caco Ciocler (César Camargo Mariano).

A vida de Elis serve de gancho para relembrarmos que houve uma ditadura no Brasil (1964/1985), recentemente resgatada por setores da grande Imprensa e da opinião pública como modelar e saudosa.

No filme, acompanhamos alguns de seus horrores a granel, a insegurança nacional e tantos outros problemas. E a obra não é mais uma daquelas comédias recicladas de programas televisivos. Mas ele faz outras reciclagens de televisão e adjacências.

Estereótipos reciclados

Em primeiro lugar, reciclagem de clips em sequência, efeitos especiais de iluminação, com intervalos para acontecimentos na vida privada da cantora, destaque para família e amores, paisagens de cartão postal ou propaganda de agência de viagens – lindas praias, gramados impecáveis.

Quando ela morre, aparecem homens de sua vida aos prantos – mas a morte de Elis Regina foi uma comoção pública, silenciada pelo filme!

Uma das piores caracterizações nessa narração foi a do primeiro marido (Ronaldo Bôscoli, interpretado por Gustavo Machado), francamente estereotipado como bonito conquistador barato, sem espaço para se lembrar que ele trabalhou na vida, entre um namoro e outro, compôs algumas canções de sucesso (O barquinho, Lobo bobo – em parceria com Carlos Lyra), produziu espetáculos – sua presença como um dos diretores de Elis na fase final do programa O Fino da Bossa é quase somente pano de fundo para tensões eróticas do casal.

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Filme dirigido por Hugo Prata tem elenco com destaque para Andréia Horta, na personagem central, além de Lucio Mauro Filho (Miéle), Julio Andrade (Lennie Dale) e Caco Ciocler (César Camargo Mariano).

O filme sugere um panorama biográfico em flashs (clips, episódios de carreira e de vida pessoal), fazendo opções e omitindo alguns tópicos.

A lógica de escolha e exclusão obedece à interpretação adotada. Por esse motivo, alguns dos episódios resvalaram para a ética das revistas ou programas televisivos de fofocas.

É assim que Elis, enciumada com o sucesso de Gal Costa, regravou magistralmente Cinema Olympia, que a cantora baiana lançara originalmente, como que para provar quem era a melhor.

O filme silencia sobre a homenagem que Gal prestou à colega num programa televisivo gravado pouco antes de a intérprete rival morrer.

Melhor cantora do Brasil?

A desqualificação preliminar de Nara Leão como cantora destituída de voz e capacidade interpretativa (sentada num banco…), reiterada por Elis em momentos posteriores da vida, ignora a mera diferença de poéticas, entre o expressionismo da gaúcha e o canto cool da capixaba-carioca, deixando em suspenso tensões sociais e culturais (diferenças entre setores de classe média, metrópole carioca e grandes cidades de diferentes regiões do Brasil, informações políticas e intelectuais).

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“Um evidente mérito desse filme é construir faces diversificadas de memória sobre uma cantora de grande dimensão artística e política, como Elis Regina”

Isso embasou a apreciação e a grande importância de Nara como definidora de repertórios e confirmadora de talentos, além de pensadora sobre rumos da música brasileira (Caetano Veloso registrou, no livro Verdade tropical, observações sobre a passeata contra a guitarra elétrica, liderada por Elis).

E o coro de Melhor cantora do Brasil cria a embaraçosa situação de pensarmos sobre algumas das cantoras em atuação naquela época – Nora Ney, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Maysa… Talvez fosse melhor falar em “uma das melhores…”.

Dentre episódios biográficos excluídos, dois se destacam: a gravação do disco Elis & Tom (reafirmação clássica e internacional da excelência de Elis Regina como cantora, incluindo o lançamento de Águas de março e confirmando ainda mais o grande talento de César Camargo Mariano como arranjador).

E a corajosa visita de Elis a Rita Lee no presídio feminino de São Paulo, quando a cantora e compositora paulista fora acusada de porte e uso de drogas proibidas.

No primeiro caso, além da dimensão gigantesca do projeto musical, foram registradas grandes tensões com o excelente compositor, conforme depoimentos de César Camargo Mariano a Regina Echeverria no livro Furacão Elis, incluindo certa hierarquia social estabelecida pelo primeiro em relação aos parceiros de trabalho.

No outro episódio, havia uma solidariedade comovente, desdobrada em coragem e enfrentamento em relação a padrões morais da época, parte da violência ditatorial em vigor.

elis-regina-3Dimensão política e artística

Perpassando as duas situações, vale realçar a reiteração do padrão de bom gosto bossa-novista e o alargamento dos interesses musicais na direção da música que antes o universo de Elis considerava de má qualidade.

A cantora gravaria composições de Rita posteriormente, com bons resultados artísticos e grande repercussão pública.

Cabe realçar que os diversos enterros no Cemitério do Caboclo Mamador (Pasquim), de Henfil, atingiram nomes como Nara Leão e Wilson Simonal. Somente Elis surgiu no filme, na condição de vítima daquele gesto humorístico.

A importante direção de Miriam Muniz no espetáculo Falso brilhante não foi sequer registrada.

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Gravado entre fevereiro e março de 1974, em Los Angeles, Califórnia, Disco Elis &Tom foi dos maiores sucessos da cantora gaúcha e eleito o 11ª de todos os tempos na música brasileira pela revista Rolling Stone

Alguns seriados televisivos tenderam a apresentar artistas importantes como apenas consumidores de drogas ou namoradores contumazes.

Um evidente mérito desse filme é construir faces diversificadas de memória sobre uma cantora de grande dimensão artística e política, como Elis Regina.

Nessa construção, a obra convida outros cineastas, artistas e pesquisadores em geral a investirem mais em tal universo, falando sobre Elis e demais nomes de igual importância.

Quando sairão bons filmes ou seriados televisivos sobre Tim Maia, Taiguara, Nara Leão, Raul Seixas, Mutantes & Cia?

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