O dia em que Eduardo Campos morreu

Bruno Rebouças
Colunistas
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Bruno Rebouças era repórter do Diário do Litoral, de Santos (SP), na época do acidente que matou o então pré-candidato à Presidência da República Eduardo Campos; ele entrevistou dona Wanda, moradora da casa em que caiu o avião com o ex-governador de Pernambuco e mais seis pessoas

Chovia. Acordei atrasado como sempre.

Logo nos primeiros minutos pressenti que o dia não seria legal.

Fiz tudo correndo e ao ficar pronto para sair a chuva aumentou.

Prometi pela centésima vez, desde que entrei no Diário do Litoral, comprar um guarda-chuva.

Eram 9h57 quando virei a segunda volta da chave na porta e o telefone tocou.

“Bruno, acho que caiu um avião”, disse ofegante minha irmã que trabalha em uma universidade em Santos.

“Tá louca?”.

“Passou aqui em cima, todo mundo correu. O porteiro viu pegando fogo”.

O desespero dela foi o contraponto da minha calma.

Algumas palavras mais e desligamos.

Escrevi uma mensagem no grupo do jornal: “Galera, parece que caiu um avião”. Na Redação, todos já sabiam.

Em outra conversa pelo aplicativo, meu irmão escreveu: “Caiu um helicóptero”.

o-dia-em-que-eduardo-campos-morreu-6_foto_edson-silvaSaí de casa e esqueci da chuva, até comprar um guarda-chuva na loja da esquina. Chovia muito nessa hora.

A agonia foi tomando conta, a adrenalina subiu e carros da polícia passavam sem parar.

Escutei muitas sirenes e quando cheguei na esquina do Canal 3 com a Avenida Francisco Glicério senti cheiro de queimado.

Vi muitos policiais, curiosos, algumas testemunhas falsas e oculares, e muito, muito fanfarrão em busca de um minuto de fama.

Alguns consagrados, principalmente, pela televisão, na busca pelo imediatismo sensacional.

Não sei bem em que momento, mas foi antes do policial militar pedir minha identificação, que recebi a mensagem do jornalista e também ex-repórter do DL, Luigi Di Vaio: “Parece que Eduardo Campos estava no avião”.

Gelei!

o-dia-em-que-eduardo-campos-morreu-capaDestroços, poeira e desilusão

Jornalistas chegavam juntos a bombeiros, policiais e guardas municipais.

Tivemos a sorte de subir no prédio em frente ao local onde o avião ou helicóptero tinha caído.

Foi nosso primeiro contato com a destruição.

Ainda saia fumaça e na altura do nono andar, o cheiro de querosene era muito forte. Nada se sabia até aquele instante.

Vizinhos do acidente diziam que era uma aeronave, mas não sabiam o tipo nem o número de vítimas atingidas.

Tentei algo com os policiais, que diziam nada saber.

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Fotografia: Bruno Rebouças

Bombeiros apagavam o fogo e buscavam sobreviventes.

Da cobertura do prédio, desesperado para entender aquilo tudo, concluí que helicóptero não tinha sido.

Descemos e surgiram muitos boatos.

Tive uma sensação péssima ao entrevistar dona Wanda em estado de choque, sentada em uma cadeira e amparada por um parente.

Antes de cair atrás da casa dela, o avião bateu e destruiu parte do telhado.

Marido, filha e quatro gatos estavam bem.

A primeira coisa que perguntei, para surpresa da repórter de uma TV local, foi: a senhora está bem?

Meu desespero aumentou ao sair do edifício e descobrir que ninguém conseguia achar Eduardo Campos.

A área estava isolada, na hora em que encontrei outros dois repórteres do Diário do Litoral, Luigi e Luana Fernandes.

Eu e o fotojornalista Matheus Tagé estávamos juntos no prédio e trocamos poucas impressões.

Da equipe de resgate aos jornalistas, a confusão era generalizada.

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“Bombeiros apagavam o fogo e buscavam sobreviventes. Da cobertura do prédio, desesperado para entender aquilo tudo, concluí que helicóptero não tinha sido “.

A chuva aumentou e debaixo de dois guarda-chuvas, com quatro pessoas, Luigi Di Vaio teve a confirmação: Eduardo Campos estava no voo.

O que era um ‘furo’ nacional podia ser uma das maiores irresponsabilidades da história. Esperamos.

Não lembro a hora, mas cinco minutos depois o jornal O Estado de S.Paulo confirmou: Eduardo Campos estava no avião com mais seis pessoas.

O chão parece que abriu e não pensei em nada, somente na mulher e na mãe de Eduardo Campos, não sei o porquê. Também houve silêncio. Veio a frase: Eduardo morreu!

O silêncio acabou com a fala de um bombeiro: “Alguém tem um carregador para emprestar?”. Emprestei o meu.

As redações sabiam mais do que nós, que estávamos nas esquinas das Ruas Vahia de Abreu e Alexandre Herculano, no Boqueirão, em Santos (SP).

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Eduardo Henrique Accioly Campos (1965-2014) nasceu em Recife, filho de um poeta e de uma ex-deputada federal; eleito duas vezes governador, era dos políticos mais ativos do país

Dia trágico

Quis o destino que o neto e discípulo morresse no mesmo dia (13 de agosto) de ‘seu criador’ e avô, Miguel Arraes, líder da esquerda, exilado na ditadura militar, político moderado, popular e carismático.

Nove anos depois, uma aeronave talvez em chamas fez um pouso arremetido na Base Aérea de Santos, como disse o senso coletivo, rasgou o céu da cidade e matou Eduardo Henrique Accioly Campos.

Nunca imaginei que um avião fosse cair em Santos, muito menos com um candidato à presidência da República.

Conciliador, articulista, dificilmente venceria aquela eleição, ou até mesmo jamais seria presidente, Eduardo Campos tinha um futuro brilhante e facilidade para o diálogo.

Era popular sem ser popularesco e populista, e carismático sem ser demagogo.

Se Eduardo Campos não estivesse no avião todos estaríamos em choque pelo fato de uma aeronave cair sobre nossas cabeças.

Campos apenas deu a repercussão mundial, e aumentou a comoção por ser uma figura proeminente.

Acordei para realidade no momento em que o capitão do Corpo de Bombeiros de São Paulo, Marcos Palumbo, deu a primeira declaração.

Naquela hora, levando empurrão, cotovelada, chuva, com frio, acredito que trabalhávamos única e somente para o público que ali não podia estar.

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Miguel Arraes, ex-governador de Pernambuco, é recebido com muita festa na cidade de Crato (CE) após 14 anos de exílio. Lá esteve presente sua mãe, Dona Benigna Arraes. Foto de 15/09/1979

Era a concretização de um sonho que começou na universidade: o de cumprir a função social da profissão com objetividade e retidão.

O fim da tarde chegou. Não senti nem fome, nem sede, só frio.

Enquanto voltava para Redação por volta das 17h, na Prefeitura de Santos, políticos prestavam depoimentos.

Já sabíamos número de vítimas, imóveis interditados, feridos liberados e em observação. Famílias foram obrigadas a abandonar suas casas.

Corriam versões diversas da queda do avião, algumas meio Top Gun – Asas indomáveis, desmentidas de imediato. Outras se mantiveram até o domingo seguinte.

Fechei a página do Diário do Litoral e andei pelas ruas do centro de Santos, naquela hora na qual mulheres outrora bonitas expõem sobras da explorada vaidade.

O ônibus demorou e voltou a chover. Fazia muito frio.

Broadcast Journalism

Entre o sensacionalismo e a objetividade

Existem matérias que se escrevem sozinhas. Cabe ao repórter única e somente não estragá-las. Foi esse o caso.

Não sabia como começar. Transtornado, tentei ser o mais neutro possível, ter a objetividade subjetiva.

Busquei o equilíbrio e sinceramente não sei se consegui. O mais difícil foi filtrar as muitas informações e eleger o que ia ser publicado ou não.

Deixei todos os animais de estimação de fora, por acreditar, como ainda acredito, que, nesses casos, existem um milhão de coisas mais importantes a serem relatadas.

Nós, jornalistas, pensamos e nos preparamos uma vida inteira para um momento marcante, mas quase sempre somos pegos de surpresa.

Nesses momentos, o importante é ser resolutivo, o que acredito ter sido.

A melhor parte da profissão é discutir e se ajudar no momento de preparar uma edição histórica.

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Ilustração: Barry Blitt

A importância de mesclar juventude e experiência foi fundamental para o DL.

Em uma metáfora com o futebol, nós na rua queríamos correr e atacar, mas era fundamental alguém parar e colocar a bola no chão, no meio-campo e distribuí-la com sincronia e organização.

A manchete conseguiu ir além do fato trágico: Trajetória de Eduardo Campos acaba em Santos.

A ideia era respeitar os leitores, não explorar um tema vendável.

A morte de Eduardo Campos, como fato jornalístico, durou até o domingo seguinte, com o sepultamento das sete vítimas. Administrar e organizar o caos informativo foi difícil, nos dias seguintes.

Não se trata de aula, arrogância ou exclusividade, somente de ressaltar que informação todos dão, notícias, não.

Nesses dias, no local, vi restos mortais transportados em pequenos pacotes. E pedaços de uma aeronave que media 16 metros.

Entrevistei pessoas que podiam estar mortas, vi jornalista rindo e tirando foto como se nada tivesse acontecido.

Vi bombeiros, policiais, guardas, peritos cansados, com olhos cheios de incredulidade por presenciar tais acontecimentos.

Presenciei o sensacionalismo e a busca do espetacular, em contraste com a realidade.

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“A ideia era respeitar os leitores […] vi jornalista rindo e tirando foto como se nada tivesse acontecido”.

Entrei na casa onde o avião caiu e vi o cenário da destruição com os meus olhos.

Os anos passarão, a história colocará os fatos daquela manhã chuvosa em seus devidos lugares.

Quando alguém citar 13 de agosto de 2014, o acidente de avião que matou Eduardo Campos, as Ruas Vahia de Abreu e Alexandre Herculano e as treze casas atingidas por destroços do avião, direi que tudo isso, escrito aqui, e muito mais, ninguém me contou.

Eu vi.

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Bruno Rebouças

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