Crônicas e Artigos

O dia em que encontrei Gentileza

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Eu tinha uns oito anos, no dia em que conheci o Profeta Gentileza no pátio do colégio Salesiano São José, em Natal; sua imagem e palavras até hoje são impactantes pra mim.

Um mito urbano carioca nas ruas da Ribeira

O mundo anda brutalizado, pelo menos assim me parece: há violência nas ruas e nas prisões, camadas sociais se encontram polarizadas e, de forma agressiva, se digladiam tentando apontar culpados.

O medo e a ignorância andam de mãos dadas, enquanto governantes populistas veem uma oportunidade de seduzir com seus egos inflados e adquirir mais poder.

Neste contexto, a xenofobia, o racismo e o ódio às diferenças ganham espaço. Em tempos como este, me pergunto por onde anda a gentileza humana.

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José Datrino (1917-1996) ficou famoso por escrever mensagens de amor e paz em um viaduto na Avenida Brasil, no Rio de Janeiro

Gentileza no GPS da memória

A primeira vez que encontrei Gentileza eu tinha uns oito anos.

Gentileza, aqui, me refiro ao nome próprio e não somente à qualidade humana. Sim, falo do profeta Gentileza tão cantado por Marisa Monte, mitificado pelo visual estético de seus murais-mensagens pelo Brasil afora.

Lembro o impacto de sua presença em mim. Ali estava eu, com menos de uma década neste planeta, especificamente na Natal dos anos 80, pequena, provinciana, de praias limpas e ruas tranquilas. No GPS da memória poderás me ver na Ribeira, no pátio do colégio Salesiano São José.

Em 2001, a escola Grande Rio o homenageou no enredo Gentileza, o Profeta do Fogo.

Naquela tarde, enquanto esperava meu pai vir me buscar, eu e outras crianças vimos, de repente, ele entrando no pátio do colégio. De barba longa, vestimentas em tons brancos e com um estardante colorido. Me pareceu uma personagem bíblica.

Aos poucos, algumas crianças curiosas como eu se aproximaram dele. E agora estávamos ali em círculo o ouvindo. Ele nos falou da importância da gentileza e também fez previsões para o futuro.

Ao final do discurso, que acredito ter durado uns 15 minutos, perguntou se gostaríamos que ele viesse no outro dia. Todos disseram SIM. Após isso, meus olhos o observaram sair devagarzinho do pátio em direção às ruas da Ribeira.

Quem é o verdadeiro profeta?

Ao chegar em casa não pude conter o entusiasmo e falei à minha mãe sobre o ocorrido. Contei todos os detalhes. Ela me pareceu receosa. Não sei se já havia ouvido falar em Gentileza.

Só sei que no outro dia foi difícil concentrar nas aulas. Distraidamente, as horas passaram naquela tarde. Não perdia por esperar de encontrá-lo no pátio de novo.

Mas, de repente, o padre entrou na sala pra nos dizer que Gentileza não teria acesso à escola, pois o verdadeiro profeta era Jesus.

Na época não entendi o porquê da proibição à sua entrada. Porém, hoje sou capaz de compreender o risco de se ter um adulto desconhecido, não afiliado à escola, em contato com crianças. Quem foi este homem?

Talvez nunca saibamos ao certo. Podemos traçar seus passos mais marcantes: quando levava uma vida comum até que uma grande tragédia o levou a mudar. Não uma tragédia pessoal, mas a morte de várias pessoas num incêndio de um circo próximo onde morava.

Profeta Gentileza.7Das cinzas de uma tragédia, veio a Revelação

Ao saber da morte dos mesmos, teve uma revelação e resolveu confortar parentes dos sobreviventes e construir um jardim nos escombros do circo.

Ali nasceu o Profeta Gentileza, que passaria o resto de sua vida peregrinando mensagens de gratidão e paz. Um louco? Um místico? O fato é que foi alguém que ousou seguir um caminho particular, peculiar e viver uma mensagem que acreditava.

Claro que pagou um preço por suas escolhas: um deles o julgamento dos outros, o descrédito de suas ideias, etc.

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Gentileza também peregrinou por Ouro Preto (MG), onde é lembrado com simpatia.

Confesso: tenho uma queda pelos anjos caídos… humanos-pirilampos que lampejam aqui e acolá uma luz de sabedoria, antes de cair na escuridão das viseiras culturais e temporais limitadas.

Gentileza não era só gentileza, mas também nele se veem escuros sexismo, patriotismo e grandiosidade em algumas de suas mensagens.

Sem concordar com estes aspectos de seu pensamento, focalizo em sua mensagem de luz, aceitando sua humanidade e ferida existencial. Sua mensagem de gentileza ainda ecoa por este planeta ferido:

“Nenhum gesto de gentileza, por menor que seja, é perdido”.

É refrescante e inspirador acreditar nisso. Obrigado, Gentileza!

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José Datrino dizia ter ouvido vozes, na madrugada de 15 de dezembro de 1961. O chamado era para largar o mundo material e abraçar o espiritual. Dois dias depois aconteceu uma das maiores tragédias da história do circo, com a morte de mais de 500 pessoas no incêndio do Gran Circus Norte-Americano, em Niterói. Aquilo o impactou de tal forma que o fez ir até o local consolar familiares das vítimas. E lá ficou durante quatro anos. Foi o começo de tudo.

Frases do Profeta Gentileza:

“Onde houver gentileza, haverá sempre um gesto que surpreenda. Amor se esconde nas coisas pequenas. E a amizade, nas atitudes que refletem maiores que a presença.”

“A verdadeira gentileza é perfeito conforto e liberdade. Ela simplesmente consiste em tratar os outros exatamente como você adoraria ser tratado.”

“Calça não é pra mulher não.”

“Não tente procurar um inimigo, muitas vezes você é o seu próprio inimigo.”

“Sou maluco para te amar e louco para te salvar!”

“Cigarro é a chaminé do capeta.”

“Toda bondade que vai crescer no mundo vai ser por intermédio do Rio de Janeiro, no Brasil, porque o Profeta Gentileza é brasileiro.”

“Cuidado cabecinha da humanidade, cuidado linguinha. Lá no cemitério tinha uma caveira, alguém foi no cemitério e perguntou: – Caveira, quem te matou, caveira? A Caveira respondeu: – A língua ferina. É verdade!”

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Joseh Garcia

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